09 de janeiro — São Severino, Abade e Apóstolo da Áustria
09 de janeiro — São Severino, Abade e Apóstolo da ÁustriaExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Nada se sabe da procedência e nacionalidade de São Severino, o qual, perguntado por seus discípulos, negou-se dar informações a este respeito. O fato, porém, de ter manejado com máxima perfeição o latim, e suas maneiras aristocratas, permitem a conclusão de ser oriundo de Roma. É provável que, tendo visitado os santos lugares da Palestina, no Oriente, tenha conhecido mais de perto a vida monástica. Seu zelo apostólico levou-o às margens do Danúbio, onde antigamente estavam florescentes as colônias romanas que tinham sofrido horrivelmente pela invasão dos hunos. Seu intento era salvar ainda os restos do cristianismo que sobreviveram à terrível migração dos povos. Em 455, vemo-lo perto de Melk, na cidade de Osterburg. Foi lá que fixou sua residência, tendo por moradia uma choupana, testemunha das suas penitências e mortificações. Qual novo João Batista pregava penitência aos povos. Sua vida em extrema austera, fez com que todos, inclusive os príncipes pagãos germanos, lhe tivessem muito respeito e o considerassem homem de Deus. Deus concedeu-lhe o dom da profecia. Com certeza matemática predisse a algumas cidades sua destruição. Quando se aproximavam as hordas de Átila, Severino pregou penitência aos habitantes de Asturis, predizendo-lhes, qual outro Jonas, o extermínio. Os asturienses, porém, obcecados pelas paixões, não prestaram ouvido aos avisos do santo homem e cobriram-no com seu escárnio. Severino abandonou a cidade ímpia e dirigiu-se a Comagaris. O castigo de Deus não tardou; os hunos tomaram a cidade e fizeram passar a fio de espada todos os habitantes. Esse fato causou grande impressão, e a fama do Santo correu de cidade em cidade.
Os habitantes de Fariana (hoje Viena), mandaram embaixadores a Severino, com o pedido de os livrar do grande flagelo da fome que dizimava a população. Severino atendeu-os e pregou aos farianenses penitência, exortando-os, ao mesmo tempo, à prática da caridade cristã, para que Deus se apiedasse do povo. Repreendeu publicamente uma nobre e rica viúva que, aproveitando-se da necessidade do povo, amontoava grandes estoques de mantimentos, para os vender por preços inauditos. De fato ela se arrependeu do seu grande crime e, fez larga distribuição de mantimentos entre os pobres. Atribuíram à oração do Santo, o fato raríssimo de, naquele ano, pelo frio intenso, o gelo ter formado uma camada tão grossa e resistente sobre o Danúbio, que permitiu a passagem de pesadas carroças, facilitando assim o trânsito de mercadorias com a outra margem. Foi assim aliviada a cidade do terrível flagelo da fome.
Tanto o povo de Viena e seu príncipe Fara instaram, até que Severino se resolvesse fixar residência na cidade, onde fundou um mosteiro. Durante os tempos de guerras contínuas, foi o Santo o conforto e consolo dos pobres oprimidos. Seu convento em Viena veio a ser casa-mãe de muitas outras fundações do mesmo gênero.
Muitos foram os milagres que Deus se dignou fazer por intermédio do seu santo servo. Aos seus companheiros predisse o dia da sua morte e profetizou a expulsão da Ordem dos países do Danúbio.
Severino morreu em 482, em Viena. Seu corpo foi, por seus confrades de Ordem, transportado para Nápoles, onde seus restos mortais repousam na Igreja dos Beneditinos.
Reflexões
1. São Severino foi um perfeito imitador de Cristo na virtude da humildade. Longe de se gloriar de sua nobre descendência e dos seus brilhantes talentos, tratou sempre de fugir dos elogios dos homens, e esconder suas virtudes na solidão do silêncio e da oração. Porque se humilhou, foi por Deus exaltado. A humildade é, na verdade, o fundamento e o baluarte de todas as virtudes. Sem possuir esta virtude, o homem não agrada a Deus, que resiste aos soberbos e os confunde, ao passo que aos humildes dá sua graça. Para ensinar aos homens esta virtude, o Filho de Deus veio para este mundo. “Aprendei de mim, disse-lhes — não a operar milagres, mas ser humildes — pois eu sou manso e humilde de coração.” A humildade é a fonte de todos os bens: ela ilumina o espírito com luz sobrenatural e dá à vontade um vigor sobre-humano.
2. Todos elogiam e admiram a virtude da humildade. Poucos, entretanto, são os que a praticam. O elogio é só de boca; falta muitas vezes a coragem de arcar com as consequências desta virtude, cuja prática exige-nos grandes sacrifícios. Quem é que queira sofrer repreensões, censuras, críticas, desprezo, ainda que as mereça? Quem é que conserva sua calma, vendo-se injustamente perseguido, difamado, ultrajado, caluniado? São muito poucos que, semelhantes ao publicano, batem nos peitos, confessando-se pecadores perante Deus. Bem poucos são aqueles, que se declaram de acordo com o que diz São Paulo: “Tudo tenho por perda, pelo eminente conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor: pelo qual tudo tenho perdido, e o avalio por esterco, a fim de ganhar Cristo” (Filipenses 3, 8). Pensas como o publicano, reconheces ser o servo inútil e preguiçoso, que deixa perder as graças recebidas ou as repele — ou confias em tuas obras, julgando-te com direito de desprezar teu próximo? Se não te tornares humilde como uma criança, no reino do céu não entrarás. Pede a Deus a graça de aprender ser humilde.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩