09 de fevereiro — Santa Apolônia, Virgem e Mártir
09 de fevereiro — Santa Apolônia, Virgem e MártirExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Existia no ano de 248, na cidade de Alexandria, um célebre feiticeiro, que profetizava uma grande desgraça, de que a cidade seria vítima, se os adoradores dos deuses não se resolvessem a exterminar os cristãos, que eram seus maiores inimigos. O povo deu crédito às predições do embusteiro, e abriu forte campanha contra os discípulos de Cristo.
Uma das vítimas da cruel e estúpida perseguição foi Apolônia, donzela conhecida na cidade, e estimada pelas suas virtudes. Levada ao templo pagão e intimada a prestar homenagens às divindades, resolutamente a isso se negou, dizendo: “Meu Deus é Jesus Cristo, e só a Ele adorarei. Enquanto tiver vida, minha língua louvará a Deus, meu Senhor”.
Os pagãos, seus algozes, ouvindo estas palavras, armaram-se de pedras e quebraram-lhe os dentes. Apolônia, horrivelmente machucada, e sentindo fortíssimas dores, levantou os olhos para o céu, sem pronunciar uma palavra, sem soltar um só gemido. Em vista desta firmeza, os pagãos ameaçaram-na com a fogueira. Apolônia respondeu: “Como poderia trair aquele, que meu coração escolheu, o meu Esposo, de quem é todo o meu amor? Não o farei. Antes sofrer morte crudelíssima e morrer mil vezes, que abandonar a meu Jesus”. Fizeram então os pagãos uma grande fogueira, e puseram a donzela diante da seguinte alternativa: “Ou agora mesmo sacrificas aos deuses, ou te lançamos viva no fogo”. Apolônia não respondeu, deteve-se um momento, como se quisesse deliberar alguma coisa, e de repente com um movimento brusco, desembaraçando-se das mãos dos seus algozes, lançou-se ao fogo. As chamas consumiram inteiramente o seu corpo. Os cristãos procuraram depois os ossos da Mártir e guardaram-nos com muito respeito. Em Roma foi construída uma Igreja em honra de Santa Apolônia.
O nome da santa Mártir goza de grande veneração entre o povo cristão. Sua intercessão é invocada nos sofrimentos dos dentes.
A Igreja Católica não aprova o suicídio, ainda que os motivos sejam iguais àqueles que levou a mártir Apolônia a buscar a morte. Embora os Santos Padres não justifiquem o suicídio de Santa Apolônia, nem tão pouco o proponham aos cristãos, como exemplo digno de imitação. Os mesmos Santos Padres explicam-no, supondo em Apolônia uma inspiração superior, e grande desejo de estar com Jesus Cristo, seu divino Esposo. O martírio de Santa Apolônia deu-se em 9 de fevereiro de 252.
Reflexões
1. A admirável constância na fé, que Santa Apolônia revelou no meio de bárbaras torturas e desumanos tormentos, teve sua fonte no amor a Jesus Cristo. Só o amor a Deus é capaz de dar ao homem força e coragem para fazer os maiores sacrifícios. O amor de Deus transforma o homem carnal e egoísta, e fá-lo esquecer as comodidades e prazeres da vida. A alma que tem amor a Deus, despreza a dor, o escarnecer do mundo e procura unicamente agradar ao seu supremo Senhor. Dores e tormentos, longe de serem considerados uma desgraça para o homem, amigo de Deus, são recebidos e aproveitados como meios poderosos de o desapegar cada vez mais do mundo e uni-lo ao Bem Supremo. Eis a explicação da alegria dos mártires, fato estranhável que observamos nos heróis do cristianismo: em vez de seguirem o impulso natural do homem, que se entristece e desespera na presença da morte iminente, mostram-se alegres e satisfeitos, e entoam hinos de louvores.
2. O modo como Santa Apolônia pôs termo a sua existência, não nos pode e nem deve servir de exemplo, para o imitarmos. Não é lícito a ninguém, nem aos próprios médicos, acelerar a morte, por mais inevitável que ela seja. Se os Santos Padres elogiam a coragem de Santa Apolônia, é porque reconhecem no seu proceder uma inspiração do Espírito Santo e o impulso do seu ardente amor a Jesus Cristo, a quem desejava confessar viva e morta.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩