09 de dezembro — Santa Gorgônia de Nazianzo
09 de dezembro — Santa Gorgônia de NazianzoExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Santa Gorgônia é descendente de Santos. Era filha de São Gregório de Nissa, que mais tarde, como Bispo, se tornou luzeiro, dos mais brilhantes, da Igreja oriental. Santa Nona, mãe do grande Gregório de Nazianzo, patriarca de Constantinopla e de São Cesário, deu à luz Gorgônia em 326. É escusado dizer que primorosa foi a educação, que o santo casal deu aos filhos e entre estes a Gorgônia. Privilegiada pela natureza, não usou dos dotes naturais senão para se esmerar cada vez mais nas virtudes. O mau exemplo de outras pessoas do mesmo sexo, nunca Gorgônia o imitou. As invenções cosméticas, assim afirma São Gregório de Nazianzo, seu santo irmão, deixava-os para as atrizes e pessoas de vida airada. Outro adorno não desejava, a não ser o da alma e, com receio de desonrar a imagem de Deus, desprezava os excessivos cuidados, que geralmente as mulheres têm pelo cabelo e os vestidos. Com muita prudência fugia do contato do mundo e só a caridade podia levá-la a mostrar-se na sociedade, quando a necessidade ou o bem do próximo lhe requeria auxílio material, ou espiritual. Embora instruída e inteligentíssima, evitava as discussões sutis e filosóficas, como todas as conversações inúteis. Com os olhos tinha feito uma aliança, para que não vissem o que lhe podia pôr em perigo a pureza da alma. Considerando-se uma estranha aqui na terra, todas as aspirações se lhe dirigiam ao céu. O único desejo que nutria, era de agradar aos habitantes da celeste Sião, para um dia merecer a dita de ser aceita em sua gloriosa companhia. Outra coisa não procurava, senão conhecer a Deus e cumprir-lhe a santa vontade.
Resolvera o Senhor propor sua fiel serva, como exemplo e modelo, não só às donzelas, mas ainda as mães de família. Seguindo a vontade dos pais, Gorgônia casou-se com Vitaliano, jovem rico e de ilustre estirpe de Pisídia, porém pagão. Deus deu-lhe a luz da fé e a palavra convincente, e ainda mais, as orações da santa noiva lhe abriram os olhos ao conhecimento das verdades cristãs. De três filhas, com que Deus abençoou este matrimônio, a mais velha, Alipiana, casou-se com Nicóbulo, homem de grandes virtudes e santidade. Gorgônia era em tudo modelo perfeito de mãe de família cristã. Cumpridora dos deveres, era obediente ao marido, em tudo que não fosse pecado, e assim fortemente contribuiu para merecer-lhe alta estima e consolidar a paz e harmonia na família.
Como boa mãe de família, não desconhecia as obrigações para com Deus e os pobres, que o representam. A casa de Gorgônia era procurada por todos que se achavam em dificuldade: principalmente eram viúvas e órfãos, que recorriam à bondade do coração da piedosa senhora. Os deveres de casa davam-lhe ainda bastante tempo para dirigir a atenção ao templo de Deus e tinha em grande honra poder zelar pela limpeza do santo lugar e pelo adorno dos altares. Em todas as obras, não tinha em mira outra recompensa, senão o agrado de Deus e a salvação da alma. Entregue as obras de caridade, não descuidava da mortificação de si mesma. Longe de procurar uma vida cômoda, sujeitava o corpo às mais ásperas e duras penitências. Frequentes eram-lhe os jejuns; passava noites inteiras em oração, entretida com a meditação ou leitura da Sagrada Escritura. Embora fizesse grandes e valiosas esmolas, não seguiu a opinião daqueles que, confiantes nas obras de caridade, continuam nos pecados, como se a esmola extinguisse as paixões.
Gorgônia tinha aborrecimento das reuniões mundanas e amava tanto mais a solidão, o silêncio e o recolhimento.
O seguinte acontecimento prova quão firme confiança tinha em Deus. Em uma viagem, foi vítima de um desastre. O carro em que se achava, tombou e graves foram os ferimentos que Gorgônia recebeu. Os pagãos não dissimularam a indignação contra um Deus, que deixava sofrer tamanha calamidade a uma serva dedicada e fidelíssima. Gorgônia, entretanto, recusando qualquer intervenção médica, elevou o coração a Deus e viu-se imediatamente curada. Pouco tempo depois, caiu gravemente doente e os médicos já não respondiam pelo seu restabelecimento. Gorgônia, tendo conhecimento do estado desesperador em que se achava, fez-se transportar para a igreja, pôs a cabeça sobre a mesa do altar, recebeu o pão eucarístico, e com toda confiança de que a alma lhe era capaz, pediu a Deus que lhe desse saúde, e já não precisou mais de quem a carregasse, pois, terminada a oração se achava completamente restabelecida.
Quando alcançou a idade de 45 anos, Deus fez-lhe saber o termo da sua peregrinação. Como se fosse para uma festa, Gorgônia preparou-se para o dia da morte. Rodeada dos membros da família, assistida por Santa Nona, pelo confessor e o Bispo Gregório, serena entregou o espírito a Deus. As últimas palavras que disse foram: “Quero dormir em paz e descansar”.
REFLEXÕES
Santa Gorgônia era inimiga da vaidade e do comodismo. Oxalá esse exemplo encontre imitação da parte daqueles, que sacrificam grande parte do tempo ao culto do corpo e das vaidades. O cristão terá em honra o corpo, que é um templo do Espírito Santo, mas não fará dele um ídolo. O templo é aquele precioso dom do céu, que nos foi dado para dele fazermos uso para maior honra de Deus e para nossa própria salvação. Tanto a vaidade como a ociosidade, são vícios perigosos, que levam a alma ao caminho da perdição. O melhor remédio contra a vaidade é a lembrança da morte, do estado horrível e indescritível, a que em pouco tempo será reduzido o corpo. O preguiçoso lembre-se dos talentos que Deus lhe deu, em forma do tempo. Destes talentos e do uso que deles fez, um dia há de dar rigorosas contas ao eterno Juiz.
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Em Toledo, na Espanha, a memória de Santa Leocádia, virgem e mártir. Morreu na perseguição diocleciana. É padroeira contra a peste. 303.
Em Limoges, a santa virgem e mártir Valéria, discípula de São Marçal. Séc. 3.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩