09 de abril — São Justino, Mártir

09 de abril — São Justino, Mártir
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

São Justino, filho de Prisco, nasceu em 103 na Palestina, na cidade de Sichem. Nascido nas trevas do paganismo, cursou as escolas filosóficas de sua terra e dedicou-se especialmente ao estudo da filosofia de Platão. Para poder-se aprofundar cada vez mais no sistema do grande sábio grego, retirou-se para a solidão.

Um dia apresentou-se-lhe um ancião, que lhe não era conhecido, mas cuja aparência era sumamente simpática. Entre os dois, entabulou-se uma conversa sobre a filosofia. O velho mostrou a Justino a insuficiência do sistema Platônico, que não satisfazia o desejo do espírito, de conhecer a verdade sobre a existência de Deus. Mostrou-lhe mais, que os antigos filósofos se basearam em princípios falsos e, não tendo uma ideia clara de Deus e da alma humana, não podiam servir de guias no caminho da verdade. Justino, ávido de conhecer a verdade, pediu ao seu hóspede que lhe indicasse o meio, pelo qual pudesse chegar ao conhecimento da verdade. O ancião respondeu-lhe: “Muito antes dos filósofos, existiram no mundo homens, amigos de Deus e ilustrados pelo seu espírito. São os profetas, que predisseram as coisas futuras e suas profecias se cumpriram ao pé da letra. Os livros que deles possuímos, contêm doutrinas cheias de luz, sobre a origem e fim de todos os seres. Eles ensinam a fé em um Deus Uno e Trino, o Criador do céu e da terra, que mandou seu Filho Unigênito, para salvar o gênero humano. Eleva tua alma em profunda oração ao céu, para que se te abram as portas do Santuário da verdade e da vida. As coisas de que te falei, são incompreensíveis, a não ser que Jesus Cristo, o Filho de Deus, nos dê delas compreensão”. Ditas estas palavras, o ancião desapareceu. Justino, muito impressionado com aquilo que tinha ouvido, ao mesmo tempo ávido de conhecer a verdade, leu os livros dos profetas, cuja leitura fez luz no seu espírito e o conduziu ao conhecimento de Jesus Cristo. Não muito tempo depois, teve ocasião de observar e admirar a grande virtude e constância dos cristãos por ocasião de uma grande perseguição de que foram vítimas. Justino se fez cristão, dirigiu-se para Roma, onde recebeu o sacramento da Ordem.

Uma vez sacerdote da Igreja católica envidou todos os esforços na propaganda da fé entre os pagãos e na defesa da mesma contra os inimigos. Num memorando, dirigido ao imperador romano, procurou desfazer os graves preconceitos que existiam contra os cristãos. “Os cristãos – escreveu ele – vivem na carne; mas não segundo a carne; perseguidos pelo mundo, amam a todos; nos outros são condenados os vícios, que neles se descobrem; nos cristãos é perseguida a inocência, que não é reconhecida; são martirizados até a morte e a morte dá-lhes a vida; pobres, que são, enriquecem a muitos outros; falta-lhes tudo, e possuem tudo em abundância; são tratados com desprezo e nisto sentem-se honrados”. Justino é enumerado entre os mais vigorosos apologistas da fé católica nos primeiros séculos da Igreja. Seus escritos apresentam a doutrina em toda a sua pureza, mostram os santos mistérios em toda a sua beleza e majestade, e conservam as fontes puríssimas da tradição apostólica.

Sua vida estava em perfeita concorrência com seus escritos. Seu zelo verdadeiramente apostólico mereceu-lhe o desagrado de muitos filosóficos do seu tempo, entre eles de Trifón e Crescêncio. O primeiro, o judeu mais sábio de sua raça, teve que reconhecer a superioridade da argumentação de Justino; o segundo, filósofo cínico e ímpio, ficou tão desmoralizado, que perdeu a estima de todos e do próprio imperador Antonio. Crescêncio jurou vingança a seu adversário e denunciou-o ao imperador Marco Aurélio, por causa da religião cristã. Justino, citado perante o tribunal, respondeu: “Outro Deus não reconheço a não ser aquele que criou o céu e a terra”. À censura do prefeito Rústico, de ser discípulo de Jesus Cristo, replicou: “Não pode ser censurado aquele que obedece às leis de Jesus Cristo. Para mim é uma grande honra, e prefiro antes morrer, que o negar”. Rústico perguntou-lhe ainda: “Crês, que entrarás no céu?” Justino: “Não só creio, eu o sei, e disto tenho tanta certeza, que não me cabe a menor dúvida”. À ameaça de ser condenado à terrível flagelação, Justino respondeu firmemente: “Um homem de bem não abandona sua fé para abraçar o erro e a impiedade. Maior desejo não tenho, senão de padecer por aquele que entregou a vida por mim. Os sofrimentos enchem a nossa alma de confiança na terrível justiça divina de Nosso Senhor Jesus Cristo, perante o qual por ordem de Deus, todo o mundo deverá comparecer. Faze o que tencionas fazer; inútil é insistir conosco para que prestemos homenagens aos deuses”. A estas palavras seguiu a flagelação e decapitação de Justino e de muitos outros cristãos, no ano de 167.

Justino deixou à Igreja livros preciosíssimos, escritos por ele, os quais constituem um tesouro inigualável do tempo apostólico, um monumento indestrutível da doutrina imutável da nossa santa Igreja.

Reflexões

São Justino não achou seu contentamento na religião pagã. Que satisfação podia oferecer um culto, que incensava os vícios, exigia vítimas humanas e cujos mistérios mais acatados eram orgias e bacanais da pior espécie? De fato: a religião dos povos mais civilizados adorava deuses, que eram símbolos dos vícios mais abjetos. Roma, Atenas, Corinto tornaram-se centros da mais revoltante idolatria. Só na Grécia existiam nada menos que noventa templos dedicados á luxúria. Dos sábios Egípcios dizia-se, com escárnio, que semeavam seus deuses nos jardins. Que aproveita toda a sabedoria, se falta a luz do céu, e se os homens, cegos pelas suas paixões, preferem as trevas do paganismo à luz das verdades eternas? Muitas graças devemos a Deus, que nos libertou da tirania de Satanás, tendo-nos dado pais cristãos, que nos educaram na luz da religião divina. Quem muito recebe, grandes contas deve dar a Deus. Se em vez de filhos das trevas, somos filhos de Deus, como tais devemos viver, se não quisermos que nos espere um juízo pavoroso. Graves são as palavras de Jesus no Evangelho: “Ai de ti, Corozaim, ai de ti Betsaida, porque se em Tiro e Sidônia se tivessem obrado as maravilhas, que se obraram em vós, muito tempo há que teriam feito penitência em cilício e em cinza. Todavia eu vos digo: Para Tiro e Sidônia haverá menos rigor no dia do Juízo, do que para vós. E tu, Cafarnaum, porventura elevar-te-ás até ao céu? Hás de ser abatida até ao inferno: porque se nas cidades de Sodoma se tivessem feito os milagres que se fizeram em ti, talvez houvessem permanecido fiéis até este dia” (Mateus 11). Tudo isto nos será aplicado, se a nossa vida não estiver de acordo com a nossa santa religião e as graças que recebemos dia por dia.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312