08 de novembro — São Godofredo, Bispo († 1118)
08 de novembro — São Godofredo, Bispo († 1118)Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Tristes andavam por muitos anos os pais de São Godofredo, por não possuir um herdeiro de sua nobreza e de seus enormes bens. Deus, afinal, lhes ouviu as orações, dando-lhes um filho, a quem puseram o nome de Godofredo (paz de Deus). Cinco anos contava o filhinho, quando os pais o confiaram aos cuidados de santos e prudentes monges. Estes descobriram na alma do educando o gérmen de uma vocação superior. Godofredo, desde pequeno, se distinguia dos companheiros, por um grande amor às práticas monásticas, à oração, ao trabalho e ao estudo. Com os anos, o entusiasmo pelas coisas de Deus mais ainda se lhe aprofundou no espírito e, não pensando mais em voltar para a casa paterna, resolveu servir a Deus como sacerdote da Igreja.
Decorrido o ano da provação, foi admitido à profissão e couberam-lhe, por ordem dos superiores, os serviços da enfermaria. Enfermeiro mais dedicado, mais caridoso e mortificado não era possível imaginar-se. Todo o consolo, todo o alívio que podia dispensar aos doentes, Godofredo lhes dava. Tratando da saúde corporal, não se descuidava da saúde da alma dos enfermos entregues ao seu cuidado. Havendo perigo do doente morrer, com a maior caridade o preparava para a digna recepção dos santos Sacramentos. Com 25 anos de idade ordenou-se sacerdote. As grandes virtudes, prudência e extraordinária habilidade de Godofredo em tratar dos negócios mais complicados eram tão conhecidos, que o arcebispo de Reims não hesitou em encarregá-lo de uma missão delicadíssima e penosa, como era a de tomar a direção de um convento, cuja disciplina sofrera um grande afrouxamento. Godofredo justificou brilhantemente a confiança, que em sua competência haviam depositado. Em poucos anos o espírito religioso daquela comunidade se elevou a tal ponto, que causou admiração a todos. Era o efeito do bom exemplo, da palavra convincente, caridosa e enérgica do superior.
O convento de Godofredo tornou-se até centro de piedade dos mosteiros da redondeza, e era para ali que membros de outras comunidades se retiravam, para desfrutar da sábia direção do superior.
Godofredo era deveras um religioso, no sentido rigoroso da palavra. Sempre recolhido, da boca não lhe saía uma palavra inútil, os olhos não se lhe fixavam em objetos por mera curiosidade. Em certa ocasião, quando lhe ofereceram uma refeição escolhida e melhor, disse: "Não sabeis que a carne se rebela, quando é acariciada?"
Quando lhe ofereceram a abadia de Reims, respondeu da seguinte maneira: "Deus me livre de desprezar minha esposa pobre, para dar preferência a uma outra rica!" Mas quando morreu o arcebispo de Amiens, ou, segundo outros, quando este renunciou ao cargo, o clero e o povo concordaram em aclamar Godofredo como sucessor, e de fato foi unanimemente eleito. Foi, entretanto, necessária ordem estrita do Papa, para que Godofredo se resignasse a aceitar o cargo.
A dignidade episcopal em coisa alguma alterou o modo austero de vida de quem antes era monge. Pelo contrário, sendo Bispo, Godofredo mais ocasião achou para trabalhar pela glória de Deus, pela prosperidade da Igreja e pelo bem dos pobres. A estes, o palácio do Bispo oferecia entrada franca. Os pobres com ele partilhavam a mesa. Muitas vezes lhes prestava serviços bem humildes e nunca se retiravam sem terem recebido boa esmola.
Uma vez apareceu um leproso, quando Godofredo estava à mesa. Como pedisse comida, o bispo chamou-o perto de si, fê-lo tomar lugar à mesa e ordenou que lhe servissem o peixe que estava sobre a mesa. Como o copeiro relutasse em obedecer, o bispo disse-lhe: "É admissível que em minha mesa haja abundância, quando Cristo nos seus pobres passa fome?"
Em outra ocasião se encontrou com um mendigo seminu. Não dispondo de dinheiro na hora, Godofredo tirou a capa e deu-a ao pobre.
Inimigo declarado do pecado, com paciência e energia verberava os vícios dos ricos e poderosos. A estes não poupava, exortando-os apostolicamente e ameaçando-os com os castigos do céu.
Foi este zelo que indispôs contra ele alguns dos piores e tanto ódio lhe nutriram, que resolveram matá-lo. Fizeram-lhe oferta de vinho envenenado. O plano, porém, foi descoberto e falhou.
Vendo Godofredo que era infrutífera a pregação, resolveu demitir-se, para não ocupar inutilmente por mais tempo um cargo de tamanha responsabilidade.
Clandestinamente se retirou para a grande Cartuxa, para ali passar sossegadamente os últimos anos de vida. Ao Conselho eclesiástico de Bellovaco escreveu, pedindo humildemente que o exonerasse do cargo e elegesse outro bispo. O Conselho, porém, não lhe consentiu na retirada e mandou dois comissários, que o reconduziram à Sé. O povo recebeu-o com grande regozijo. Como os vícios continuassem a vicejar, levando muitas almas à perdição, e não vendo o bispo o menor indício de emenda e conversão, antes pelo contrário, percebendo que a palavra apostólica era recebida com desprezo, anunciou à cidade castigos iminentes, que de fato não tardaram. Houve então um período de piedade, de penitência e conversão, mas de pouca duração. Numa viagem a Reims, Godofredo adoeceu gravemente. Sentindo-se no fim da vida, recebeu com muito fervor os santos Sacramentos e morreu em 8 de novembro de 1118, no mosteiro abacial de São Crispim, em Soissons, onde foi sepultado.
REFLEXÕES
Servir a doentes é uma obra de misericórdia e caridade, que terá grande recompensa espiritual, justamente por causa da grande soma de mortificações que acarreta. O enfermeiro, entretanto, não deve limitar os cuidados somente ao corpo. O enfermo precisa, além da assistência material, de atenções que objetivam o espírito, a alma. Levantar o ânimo do enfermo, animá-lo à paciência, à conformidade com a vontade de Deus, rezar com o doente é tarefa a que o enfermeiro verdadeiro não se deve subtrair. Se a doença é grave e deixa prever o desenlace final, o enfermeiro deve redobrar os esforços. Com muita caridade falará ao enfermo da conveniência ou necessidade de mandar chamar um sacerdote, para com calma pôr em ordem os negócios da alma e receber os santos Sacramentos, que tanto alívio dão ao pobre doente. Quantos já morreram sem este conforto e sofrem na eternidade as consequências do descuido do enfermeiro! É um dos preconceitos mais perniciosos e diabólicos que aponta a visita do sacerdote e a recepção dos Sacramentos como agouro da morte. O católico verdadeiro, também no leito da morte não se assusta com a visita do sacerdote. Pelo contrário, lhe é uma das visitas mais agradáveis. Se é de supor que o doente, aliás sendo católico, se assuste com a presença do sacerdote, é o caso de ponderar o que é melhor: esclarecer o enfermo sobre o seu estado e convidá-lo a receber os santos Sacramentos ou deixá-lo nos pecados, concorrendo assim para uma possível condenação? É preferível que o enfermo, embora se assuste um pouco, morra na graça de Deus, a que fique bem tranquilo, talvez na ignorância da gravidade do seu estado e, entrando na eternidade, encontre um juiz terrível, com um fim desastroso e irremediável.
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Na perseguição diocleciana, a morte de Cláudio, Nicóstrato, Simproniano, Castório e Simplício, afogados no Tibre.
Em Bremen, o primeiro bispo daquela cidade, São Willehad, discípulo de São Bonifácio.
Em Roma, a memória do Papa Deusdedit.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩