08 de Março — São João de Deus, Confessor
08 de Março — São João de Deus, ConfessorExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
São João de Deus, fundador dos Irmãos de Caridade, nasceu em 1495, em Montemor-o-Novo, em Portugal. Na idade de oito anos abandonou a casa paterna e foi durante 22 anos pastor em Oropesa. Também tomou parte numa campanha contra a França. Uma queda que levou do cavalo o enfraqueceu, e acusações difamantes privaram-no da confiança dos seus patrões. Assim voltou a ser pastor. Em 1532 alistou-se no exército austríaco e esteve na guerra contra os turcos. Quando voltou para Portugal não encontrou mais os seus pais vivos. Triste e, ao mesmo tempo, arrependido do seu passado, fez o propósito de cumprir futuramente os deveres de cristão. Pela terceira vez entrou em serviço de pastor para depois acompanhar à África um fidalgo exilado e sustentar a família do mesmo com o trabalho das suas mãos. Poucos anos depois procurou ganhar a vida na Espanha, pondo à venda livros e quadros. Um sermão que ouviu de São João d’Ávila, fê-lo mudar de rumo para começar uma vida extraordinariamente santa. Tudo que possuía, deu aos pobres e aos presos. O sentimento de contrição dos seus pecados levou-o a praticar ações tão esquisitas, que era havido e tratado por louco. Como tal, foi tido e maltratado no hospital até que os conselhos de São João d’Ávila o determinaram a modificar seu proceder. João dedicou-se então ao serviço dos doentes. Para este fim fundou em Granada um pequeno hospital, e tratava os enfermos com tanta caridade e dedicação que lhe foram oferecidos os meios para aumentar o estabelecimento. Um incêndio destruiu a Santa Casa. João permaneceu durante meia hora no meio das chamas, salvando doentes e móveis. Este fato extraordinário, geralmente considerado milagre, consolidou ainda mais as simpatias que já possuía. Em pouco tempo saia das ruínas novo hospital, maior que o primeiro. Sua caridade não se limitava aos doentes do seu estabelecimento, procurava de preferência pobres e doentes em suas casas, levando-lhes o auxílio de que necessitavam. Particular interesse votava aos pobres infelizes, escravos do pecado. Seus conselhos, orações e principalmente sua caridade efetiva reconduziu a muitas destas pobres criaturas ao caminho do dever e da virtude.
Não havia em Granada, quem não se admirasse da atividade espantosa do homem, que poucos anos antes era qualificado como doido. O Arcebispo começou a se interessar pela obra de João, e pessoas não faltaram que se oferecessem ao benfeitor da humanidade para tomar parte nas suas obras caritativas. João nunca tinha pensado em fundar uma Ordem, mas o Bispo de Tuy, presidente da câmara real de Granada, animou-o a dar a sua fundação um caráter religioso e vestiu-lhe o hábito, impondo-lhe o nome de João de Deus. Só seis anos depois da morte de João foi composta uma regra e em 1570 os primeiros religiosos de sua Ordem emitiram os santos votos.
Era a caridade personificada para com os outros, e para si João reservava o rigor, a penitência. Na mortificação e oração achava força contra as tentações. Muito perseguido, nunca lhe veio o sentimento de vingança: “Hei de perdoar aos inimigos — dizia ele — se quiser salvar a minha alma, isto mais cedo ou mais tarde, neste caso perdoarei já de uma vez”.
Em tempo de uma grande inundação, o Santo tinha exposto sua vida na obra da salvação de muitas pessoas. A consequência foi uma grave doença que lhe abriu as portas da eternidade. Em certa ocasião, acusado da facilidade com que aceitava no hospital doentes e pobres, entre estes, pessoas de má vida, o Santo respondeu ao Arcebispo de Granada o seguinte: “O Filho de Deus veio a este mundo para salvar os pecadores, e nossa obrigação é auxiliá-lo nesta sua missão de convertê-los. Para isto temos a oração e os conselhos. Eu seria infiel a minha vocação, não cumprindo este dever. Para minha confusão confesso, que neste hospital não sei de outro pecador a não ser de mim, que não sou digno de comer o pão dos pobres”. Esta resposta, com muita naturalidade e humanidade, comoveu ao Arcebispo, que ainda uma vez pôde convencer-se da grande santidade de João. João de Deus morreu em 8 de março de 1550. Sua canonização teve lugar em 1690.
Sua Ordem floresce em muitos países. Na Espanha seus filhos têm o título de Hospitaleiros, na França são chamados Irmãos de Caridade, na Alemanha têm o nome Irmãos da Misericórdia e na Itália todos os conhecem com o título de Fate Bene Fratelli ou Bon Fratelli.
Reflexões
1. “Se é verdade, que devo perdoar aos inimigos, sob pena de perder a minha própria alma, então perdoo já a todos que me ofenderam”. Assim falava São João de Deus e muito acertado andou em proceder deste modo. A ira e o ódio são duas paixões perigosíssimas, que, uma vez aninhadas no coração, o levam a todos os desvarios, e quanto mais tempo ali se alojarem, quanto mais forem atendidas e animadas, mais terríveis se tornarão. Com elas no coração, não se salva, porque onde há ira e ódio, não há perdão, não há caridade, não há misericórdia. Urge, pois, fazer violência e arrancá-las, custe o que custar. É melhor perdoar logo, do que deixar crescer a paixão do ódio e a dificuldade de a exterminar. “A ira mora no coração do tolo” (Eclesiastes 7, 9). “Não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Efésios 4, 26).
2. “Tende compaixão de vós mesmos”, dizia São João de Deus, quando ia pedindo esmolas. Ele queria dizer que a pessoa que dá esmola, é benfeitor de si mesma. Quem é misericordioso, obterá misericórdia. “O homem misericordioso faz bem à sua alma” (Provérbios 11, 17). O Evangelho diz: “Dá ao pobre, e terás um tesouro no céu” (Marcos 10, 21). O pobre, a quem é dada a esmola, recebe um benefício material e passageiro; quem dá esmola recebe a bênção de Deus e a recompensa eterna. “Vinde, benditos de meu Pai, e possuí o reino, que vos foi preparado desde o princípio do mundo, pois eu tive fome, e vós me destes de comer” (Mateus 25, 34- 35).
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩