08 de janeiro — São Fulgêncio de Ruspe, Bispo

08 de janeiro — São Fulgêncio de Ruspe, Bispo
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Cartago é o berço deste impertérrito defensor da Fé Católica. Seus pais eram cristãos. Tendo perdido bem cedo seu pai, a mãe cuidou de dar ao filho uma educação de acordo com as normas da religião. Não só seus belos talentos, como sua modéstia, sua docilidade, o grande respeito que mostrava para com sua mãe, fizeram com que fosse estimado por todos. Apesar de vantajosas colocações que se lhe ofereceram, Fulgêncio para fugir dos perigos do mundo, resolveu entrar num convento. A leitura de um sermão de Santo Agostinho sobre a vaidade do mundo e a brevidade da vida, determinou-o a pôr em execução seu plano, sem demora. Dirigiu-se ao bispo Fausto, que era superior dum convento em Byzacene. Este não o quis aceitar, receando que uma pessoa nas condições de Fulgêncio não se pudesse ajeitar com a vida austera do convento. Fulgêncio respondeu-lhe com humildade: “Aquele que me inspirou a vontade de lhe servir, poderá dar-me a força de vencer a minha franqueza.” Fausto, admirado desta resposta tão criteriosa, admitiu-o. Logo, porém, que a mãe soube da resolução de seu filho e da sua entrada na vida religiosa, correu ao convento e, com ímpeto e grande pranto exigiu a volta de Fulgêncio. Este, porém, venceu a tentação e ficou firme na sua vocação. O amor de Deus fê-lo vencer a voz da natureza. Seus bens entregou ele a sua mãe, para que os administrasse até que seu irmão mais novo pudesse assumir esta responsabilidade.

A vida de Fulgêncio no convento foi a de um religioso modelo. De todos o mais humilde e obediente, ninguém como ele se penitenciava.

A perseguição do rei vândalo Hunerico obrigou-o a abandonar o convento e procurar agasalho em outra parte. Nas suas viagens chegou à Sicília e Roma. Passados dois anos voltou para África, onde em obediência a uma ordem do bispo Fausto, tomou a direção dum convento. Muito contra sua vontade teve de aceitar o cargo de Bispo de Ruspe, uma das cidades mais populosas da África. Nesta sua posição nada mudou nos seus hábitos religiosos. As práticas de piedade, as obras de mortificação e penitência, ficaram suas fiéis companheiras até a morte. Como Bispo defendeu a Fé contra os erros do arianismo e exortou seus fiéis à perseverança na religião verdadeira. Sua administração episcopal sofreu um grande abalo pela perseguição do rei vândalo Trasamundo, que o obrigou a comer o pão do exílio em companhia com outros bispos católicos. Na Sardenha, para onde foram desterrados, viveram em santa comunidade até que a morte do tirano lhes permitiu o regresso para sua terra. Neste ínterim Fulgêncio escreveu diversos tratados contra a heresia ariana. Recepção carinhosa esperou os pastores exilados na sua volta em Cartago. São Fulgêncio dedicou-se então de corpo e alma à reorganização de sua diocese, na qual durante a sua ausência tinham-se dado diversas irregularidades. Com brandura e firmeza procurou abolir abusos, e restabelecer a ordem onde as circunstâncias o exigiam.

As virtudes que mais caracterizaram a gerência deste santo Bispo foram a humildade, a mansidão e a paciência. Nunca se ouviu de sua boca uma palavra que revelasse egoísmo, nunca lhe escapou uma expressão que pudesse melindrar, entristecer ou ofender o próximo. Não cedia aos impulsos da impaciência, por mais difícil que fosse guardá-la. Seu lema era sempre sujeitar-se à vontade de Deus nos lances mais duros da vida. Sua caridade para com o próximo parecia não ter limites. O vivo interesse que tomava pelo bem-estar material e espiritual dos seus súditos, garantiu-lhe a simpatia e o amor de todos.

Avançado na idade e sentindo a proximidade da morte, Fulgêncio se retirou para um pequeno convento na ilha Circina. Sua ausência foi muito sentida pelos seus diocesanos, que com insistência reclamaram seu regresso. Seus dias eram contados. Uma doença grave e dolorosa minou-lhe o caminho para o túmulo. Modelo de todas as virtudes, na sua doença de morte o santo Bispo edificou a todos com sua paciência e resignação. Tendo chegado a hora extrema, mandou reunir todos os seus sacerdotes e exortou-os novamente à perseverança na fé verdadeira e ao zelo no serviço de Deus. Pediu perdão a todos que tivesse ofendido ou magoado; mandou distribuir entre os pobres os poucos bens, que lhe tinham ficado, e entregou sua alma ao Criador. Fulgêncio morreu com 65 anos de idade; e seu corpo foi, contrário ao costume daquele tempo, sepultado na Catedral, porque geral era a convicção de sua grande santidade. Suas relíquias foram em 714 transportadas para Bourges, na França.

Reflexões

1. Humildade, paciência e mansidão são, na verdade, três virtudes admiráveis. São Fulgêncio, seguindo o exemplo de seu Divino Mestre, as exercitou na maior perfeição. Como as praticas tu? Se te exaltas sobre os outros, se falas constantemente dos teus merecimentos, se procuras com muito afã que os outros te elogiem, se ambicionas honras e dignidades do mundo, onde está a humildade? — Se tratas com aspereza a teu próximo, se o injurias e difamas, se o ofendes com vis calúnias e indignas maledicências — onde está então a mansidão? — Se, em vez de sofrer, com resignação uma injustiça que te foi feita; se, em vez de levar tua cruz com conformidade na vontade de Deus, contra ela te levantas e prorrompes em altas queixas e murmurações — onde está a paciência? — Seja tua resolução para o futuro: De hoje em diante não me exaltarei sobre meu próximo. Nada direi para me enaltecer e gloriar, nem procurarei o elogio dos homens. Tratarei a meu próximo com respeito e caridade, nunca com aspereza e injustiça. Na dor e no sofrimento, quer corporal, quer espiritual, nenhum sinal de impaciência hei de dar, mas pedirei a Deus que me dê a graça de sofrer com paciência e santa resignação.

2. Deus não nos revela a hora da nossa morte. Por que não? “Para que não tomemos liberdade no pecar e não relaxemos na prática de boas obras” (Santo Atanásio). Vontade de Deus é, que estejamos sempre preparados para comparecer em sua presença. “Deveis cingir os vossos rins e guardar as lâmpadas acesas em vossas mãos. Sede semelhantes aos servos, que esperam a seu Senhor, ao voltar das bodas, para que, quando vier, e bater à porta, logo lhe abram” (Lucas 12, 35-36). “Se o pai de família soubesse a hora em que viria o ladrão, vigiaria e não deixaria minar a sua casa” (Lucas 12, 39). “Vigiai, porque não sabeis a hora, nem o dia” (Mateus 25, 13). Prepara-te, pois, com toda prudência, para que, quando a morte vier, te encontre vigilante.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312