08 de dezembro — Festa da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria
08 de dezembro — Festa da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem MariaExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
O pecado do primeiro homem transmitiu-se a todos os descendentes. Como um fogo devorador, devastou tudo e qual veneno mortífero infeccionou o mundo inteiro. Só uma criatura ficou isenta desta perdição universal: Maria Santíssima, a Virgem Mãe de Deus. A festa hodierna apresenta-nos este mistério, como manifestação gloriosa da bondade e da onipotência de Deus. Maria concebida sem pecado original, eis a doutrina da Igreja Católica, eis a fé que jubilosos confessamos.
A Igreja Católica definiu o dogma da Imaculada Conceição, baseando-se sobre as expressões da Sagrada Escritura e da tradição. Os livros bíblicos estão cheios das mais belas figuras, que se referem a Maria Santíssima, a Mãe do Salvador. Figura de Maria Santíssima foi a arca de Noé, (Gen. 6) que flutuou sobre as ondas do dilúvio, ficando salva da perdição universal. A sarça ardente de Moisés (Êx. 3, 2) é imagem de Maria Santíssima, porque ardendo, o fogo não a consumia. Na torre de Davi, (Cant. 4, 4) fortemente edificada e defendida contra todos os ataques inimigos, vemos simbolizada a Imaculada, contra a qual não puderam prevalecer os inimigos mais ferozes. — Maria é o horto fechado (Cant. 4. 12.) aos estranhos e inimigos, que não conseguiram devastá-lo. — A celeste Sião (Apoc. 21, 18) é ainda a bela visão, que extasia o profeta de Patmos, ao ver a cidade edificada de ouro puríssimo, dardejando raios de luz brilhantíssima.
Nos livros bíblicos encontramos expressões as mais claras, que a exegese católica com muita felicidade aplica à Mãe do divino Salvador. “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre tua e sua descendência e ela te esmagará a cabeça.” (Gen. 3, 15). O inferno é impotente diante da Mãe de Deus, que triunfará sobre Lúcifer. A cabeça da serpente é o pecado, e em Maria não há pecado. — “Sois toda formosa, minha amiga e em ti não há mácula” (Cant. 4, 7). Maria é formosa, formosíssima, imaculada, e, portanto, isenta do pecado original. “O Senhor possuiu-me no princípio dos seus caminhos” (Prov. 8, 22). Estas palavras se referem a Maria e afirmam que nunca esteve sujeita à lei do pecado. Deus a possuiu desde o princípio, razão esta porque o demônio nenhuma influência lhe pôde ter sobre o coração.
“Cheia sois de graça.” (Luc. 1, 28). Cheia de graça é Maria Santíssima, o receptáculo dos dons do Espírito Santo, tesouro infinito e abismo insondável de todos os bens e, por isto, acima de tudo que é pecado.
A doutrina do dogma da Imaculada Conceição acha defesa também na tradição da Igreja. Os escritos dos Santos Padres estão cheios de louvores a Maria Santíssima, dos quais o maior é sempre a sua mais alta prerrogativa, que é a Imaculada Conceição. Santo Efrém chama a Maria “a Virgem Imaculada, ilibada de toda a mácula do pecado, puríssima.” Santo Ambrósio, referindo-se a Maria, diz que é aquela, que “pela graça divina ficou isenta de toda a mácula do pecado.” São Cipriano afirma: “Maria é diferente de todas as criaturas humanas: se lhes é igual em natureza, não tem a culpa que as mácula”. Santo Agostinho escreve: “Se falo do pecado, não penseis que quisesse ou pudesse referir-me à Virgem Mãe de Deus.” Santo Anselmo declara: “É razoável supor na Santíssima Virgem uma pureza tal, que fora de Deus não pode ser imaginada outra maior”.
A praxe da Igreja antiga em nada difere da doutrina dos Santos Padres. Os Papas dos primeiros tempos da Igreja permitiram a celebração de festas em honra da Imaculada Conceição, a invocação de Maria Santíssima sob este título. Consentiram que províncias e reinos inteiros escolhessem a Virgem Imaculada por padroeira e protetora. Deram aprovação a associações que se formaram, sob o título da Imaculada Conceição, e aplaudiram o zelo e a piedade daqueles que erigiram altares e igrejas em honra da Imaculada Conceição, ou por um voto solene, se comprometeram a defender sempre a Santíssima Virgem, concebida sem pecado original. A Igreja mesmo elevou à festa de primeira classe o dia da Imaculada Conceição, inseriu no prefácio e na Ladainha Lauretana as palavras “Imaculada Conceição”, para assim documentar a fé neste augusto mistério.
O Papa Pio IX, em 8 de dezembro de 1854, na presença de 200 Príncipes da Igreja e uma grande multidão de povo cristão, pronunciou solenemente a doutrina da Igreja sobre a Imaculada Conceição. Essas palavras, que ecoaram jubilosamente nos corações de todos os católicos do mundo, foram as seguintes: “Declaramos, anunciamos e determinamos que a doutrina que diz ter sido Maria, a Santíssima Virgem, desde o momento de sua conceição, por graça e privilégio excepcional de Deus e em atenção aos merecimentos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, preservada de toda a mancha do pecado original, é por Deus revelada e como tal deve ser aceita e firmemente acreditada pelos fiéis. Se alguns, o que Deus não permita, se atreverem a divergir desta nossa definição, saibam e conheçam que, por sentença própria, se condenaram e naufragaram na fé, separando-se da unidade da Igreja”.
Esta definição oficial da Igreja frisa três pontos: 1) Maria ficou isenta do pecado, desde o primeiro momento de vida; 2) Esta graça e privilégio extraordinário foram-lhe concedidos por uma distinção especial divina, em atenção aos merecimentos do Salvador; 3) Todo e qualquer que não aceitar este artigo de fé, peca gravemente e se exclui da Igreja Católica.
Pela nossa fé na Imaculada Conceição, honramos a Igreja, que é a representante de Deus na terra, a mestra da verdade.
E crendo, não corremos perigo de errar, porque a Igreja é a coluna e a base da verdade. Ela goza da assistência do divino Espírito Santo, que lhe foi prometido por Cristo e com ela ficará até ao fim dos tempos. A Igreja não nos engana, e é impossível que nos ensine o erro. Reconhecendo-a como mestra infalível da verdade, sujeitamos o nosso entendimento às suas decisões e cremos na Imaculada Conceição, por ela definido como dogma.
O amor que temos a Maria, faz que, com fé jubilosa, acreditemos na doutrina da Igreja, que eleva a Mãe de Deus sobre todas as criaturas humanas. O dogma da Imaculada Conceição mostra-nos Maria em toda a formosura. Maria é aquela, em que as insídias da serpente não acham objetivo. Maria se nos apresenta como a esposa dos Cânticos, por cuja formosura o esposo se encanta. Maria surge diante de nós, como a bela aurora, formosa como a lua e eleita como o sol. Criatura nenhuma com Maria Santíssima se compara, em santidade e perfeição. Pela beleza, atrai os corações de todos, e todos os olhares se lhe dirigem, cheios de admiração e amor.
O dogma da Imaculada Conceição apresenta-nos Maria em toda a sua dignidade. Ela é a esposa imaculada do Espírito Santo, desde o primeiro momento de sua existência, adornada com o amor do Altíssimo e enriquecida com as mais admiráveis graças. Que dignidade!… Desta dignidade não podia prescindir. Seria possível o Filho de Deus, o Santo dos Santos, operar a grande obra da Encarnação nas entranhas de uma mãe que fosse sujeita, por um momento sequer, à lei do pecado e consequentemente à influência e ao poder do demônio?
A Imaculada Conceição é, de todas as prerrogativas de Maria Santíssima, a mais alta, e é este o dogma sublime, que tanto honra e eleva a Santíssima Virgem e enche de gozo e alegria os corações de seus filhos.
Como o “lírio entre os espinhos” (Cant. 2, 2) como a Imaculada! Agradeçamos a Deus, que revestiu de tanta glória a Mãe do seu Filho Unigênito. Por uma vida santa e pura, procuremos tornar-nos dignos filhos de uma tão excelsa Mãe.
REFLEXÕES
Por um privilégio especialíssimo, Maria Santíssima ficou isenta da culpa original. A alma da Mãe foi criada no estado da graça santificante e nesta permaneceu. Graça igual não recebeste. Concebido em pecado, em pecado nasceste. Mas Deus purificou tua alma, no sacramento do batismo. Milhares e milhares não tiveram esta graça. Morreram sem o batismo, no estado de pecado. No céu não puderam entrar, porque nada de impuro lá entra. Porque te concedeu Deus, em sua infinita bondade, a graça do batismo? Quanta gratidão deves, pois, a Deus tão bondoso, por te ter dado tamanha distinção! O batismo, porém, é somente a primeira graça que recebes do Criador, para alcançares a vida eterna. Deve-se unir a uma vida santa, de perfeito acordo com os mandamentos da lei de Deus. “Aquele que disse ser necessário o batismo, o renascimento da água e do Espírito Santo, disse também: se vossa justiça não for maior que a dos fariseus e escribas, não entrareis no reino dos céus!” (Santo Agostinho).
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Em Alexandria, o martírio de São Macário, no tempo da perseguição de Décio.
Em Tréveris, Santo Euchário, discípulo de São Pedro e primeiro bispo daquela cidade.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩