07 de março — Santo Tomás de Aquino, Confessor e Doutor da Igreja
07 de março — Santo Tomás de Aquino, Confessor e Doutor da IgrejaExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Filho do conde Landulfo d'Aquino, nasceu Tomás em 1225 no castelo de Roccasecca, perto da cidade d'Aquino e do célebre mosteiro beneditino Monte Cassino, onde principiou também seus estudos. Mais tarde frequentou a universidade de Nápoles e em 1243, bem contra o gosto de sua família, pediu admissão na Ordem de São Domingos. Para livrá-lo das importunações dos seus parentes, os superiores da Ordem mandaram-no para Paris. Seus irmãos, porém, opondo-se tenazmente a esta determinação, levaram-no à viva força para o castelo de Monte San Giovanni Campano, onde passou um ano, até que adquirisse a liberdade devido à intervenção de sua mãe. De Paris passou a Colônia, onde ouviu as preleções de filosofia e teologia do célebre Alberto, o Grande. Mais tarde vemo-lo em Paris na qualidade de “leitor” e, obedecendo ao chamamento dos Papas Urbano IV, Clemente IV e dos seus superiores, lecionou teologia em Roma, Bolonha e Nápoles. Convidado pelo Papa Gregório X, para tomar parte no segundo Concílio de Lyon, morreu em viagem na abadia dos Cistercienses em Fossanova, no ano de 1274.
Se é lícita a comparação dos Santos com as estrelas do firmamento, das quais cada uma ocupa um lugar determinado e das demais se difere pelo volume e brilho, Santo Tomás entre todos os habitantes da Sião Celeste se destaca de tal maneira, que nem no Antigo, nem no Novo Testamento se encontra quem possa competir com ele, quer como Doutor, quer como religioso de qualquer Ordem religiosa. A outras Ordens Deus deu grandes missionários, como São Francisco Xavier e Anchieta à Companhia de Jesus; santos Bispos e Cardeais como São Boaventura à Ordem dos Frades Menores; Santo Tomás é sábio e mestre, e talvez fosse por sua grande inclinação ao estudo que entrasse na Ordem de São Domingos, Ordem que tão admiravelmente une a ciência com o serviço de Deus na vida regular.
Honras e dignidades, que repetidas vezes lhe foram oferecidas, Santo Tomás recusou-as todas a fim de exclusivamente poder dedicar-se à ciência. O estudo e o ensino nas ciências teológicas eram por ele considerados o fim principal da sua vida. Seu espírito estava sempre absorto em questões especulativas, tanto que às vezes era preciso sacudi-lo para fazê-lo voltar a realidade da vida. Assim se explica um fato que se deu com o Santo, quando este em certa ocasião se achava à mesa de São Luís IX, em Paris. Completamente esquecido do meio em que se encontrava, exclamou:
“Afinal achei: uma prova irrefutável contra os maniqueus!”
Sua vida toda se passou no gabinete de estudo ou na sala de escola e sua fama de mestre de primeira ordem era igual na Itália, França e Alemanha.
Dotado de talento fora do comum, dedicava-se ao estudo e ao ensino com um zelo que causava admiração a todos. Seu saber era não só vastíssimo, mas antes de tudo sólido e, o que constitui um grande merecimento do Santo, baseado na doutrina de Cristo, na revelação, nos santos livros e na doutrina dos Santos Padres. Sua sabedoria era ordenada e humilde, e alheias lhe eram tendências revolucionárias e inovadoras que estigmatizam tantos outros talentos, que se colocaram e colocam no serviço da incredulidade e do erro. O que mais encanta na doutrina de Santo Tomás é a universalidade dos assuntos que apresenta, a profundeza e solidez com que os estuda, a clareza e firmeza com que os explana. Não há nenhuma dificuldade no dogma que não ache solução, nenhum erro que não encontre refutação nos escritos de Santo Tomás. Tão reconhecido é o valor do santo Mestre que se lhe conferiu o título honroso de “Doctor Angelicus”.
Tomás de Aquino não só foi teólogo e filósofo, mas também Santo. Antes de tudo era ele um bom religioso que, apesar e no meio dos estudos, não se dispensava das práticas de piedade adotadas e seguidas por sua Ordem. Santificando o estudo, o estudo o santificou, fazendo-o conhecer cada vez mais a beleza e perfeição de Deus. Principiando o estudo pela oração, a esta recorria, quando naquela se lhe apresentavam dificuldades. Foi ele mesmo que confessou ter aprendido muito mais ajoelhado ao pé do Crucifixo que curvado sobre os livros. À sua ciência aliava-se uma humildade que a todos edificava. Não havia companheiro mais dedicado que frei Tomás, que era modelo de paciência, mansidão e alegria espiritual na comunidade. A uma acusação malévola que se lhe fez para depreciar seu grande talento, respondeu com a maior equidade: “Deve ser assim mesmo, porque me vejo na necessidade de estudar sempre”.
A bondade de coração, sua piedade sólida e profunda, seu belo talento na poesia manifestaram-se nas relações com sua irmã e uma sobrinha, que tomaram o véu, e na sua amizade a Reinaldo, seu companheiro e secretário, nas suas prédicas e no ofício do Santíssimo Sacramento composto por ordem do Papa Urbano IV. Neste belíssimo ofício Tomás é teólogo, bibliólogo e poeta; nele a fé, o amor e o entusiasmo pelo maior dos Sacramentos acham a expressão mais concisa, mais perfeita e mais poética. Todos os anos na oitava do Corpo de Deus ressoam jubilosos nas Catedrais e Igrejas do mundo inteiro os versos inspirados do hino “Lauda Sion”, hino de beleza incomparável. Não há cristão que não conheça o “Tantum Ergo”, que se canta na ocasião da Bênção do Santíssimo Sacramento, hino tão simples, tão singelo e, no entanto, como nenhum outro expressivo.
A obra monumental, que concretiza toda a doutrina, obra em que Santo Tomás depositou a riqueza e vastidão do seu saber, é a “Suma Teológica”, obra esta, que, como as majestosas Catedrais góticas daquele tempo, se eleva acima de todas as elaborações congêneres.
É para admirar, se lemos que Frei Tomás foi considerado a luz do seu século? É para se admirar do afã com que as primeiras universidades disputavam sua cadeira? Seus contemporâneos tecem-lhe os maiores elogios, preconizando-o de primeiro Mestre depois de São Paulo e Santo Agostinho. Frei Tomás gozava de declarada simpatia dos Papas Urbano IV, Clemente IV, e Gregório X e São Luís IX, rei da França, pedia seu conselho nas questões políticas mais intrincadas. De nada valeria tudo isto, se Deus mesmo não tivesse distinguido seu servo com sua amizade. Em 1273, estando Tomás em Nápoles a escrever a última parte de sua “Suma Teológica”, Deus o distinguiu com uma visão, e lhe dirigiu estas palavras: “Escreveste muito bem de mim, Tomás, que recompensa desejas ter?” Tomás respondeu: “Nenhuma a não ser a ti mesmo, Senhor”. Depois desta visão sobreveio-lhe um tédio tal que não se animou a completar sua obra. Em comparação ao que tinha visto em Deus, todas as suas obras se lhe afiguravam mesquinhas e de nenhum valor.
Sua morte encheu de luto o mundo cristão inteiro. Todas as universidades dedicavam-lhe honrosíssimos epílogos, e a de Paris, que mais dolorosamente experimentou a falta do Mestre, pediu para si a exímia honra de possuir os restos mortais do Santo Doutor. Suas obras, quanto mais se espalhavam, mais admiradores encontravam. A Igreja mesma as reconheceu e recomendou. Foi a “Suma Teológica” de Santo Tomás que já duas vezes reconduziu o mundo científico das veredas do erro ao caminho da verdade e nele o conservou: uma vez no século XVI e outra em nossos dias, quando Leão XIII, em 1879, apresentou seu autor como padroeiro dos estudos superiores e de todas as escolas católicas. Maior honra a Igreja não podia conferir ao humilde dominicano, — posta de lado a canonização — que, como fez na ocasião do grande Concílio de Trento, colocar no altar a “Suma Teológica” ao lado da Sagrada Escritura. Com a morte de Tomás de Aquino começou também sua veneração que teve sua culminância na canonização efetuada em 1323 pelo Papa João XXII e a sua elevação à honra de Doutor da Igreja em 1567 por Papa Pio V. Os restos mortais do grande Santo descansam em Toulouse.
Reflexões
1. Santo Tomás lutou valorosamente para se ver livre da tentação que uma depravada mulher lhe armara — e venceu. Oxalá seu exemplo tivesse imitação da parte daqueles que se veem em condições idênticas. Se a pessoa tentada e perseguida recorresse à defesa natural que todos têm: de gritar e chamar por socorro, a vitória seria certa, e o tentador não mais se atreveria a levar adiante sua perversidade. O que afugenta o ladrão, é a vigilância, são os gritos de alarme da pessoa que se vê assaltada, e que se põe a defender seus bens que estão em perigo de lhe serem roubados. Há uma joia mais preciosa que a virtude? Há um ladrão mais pernicioso que aquele que no-la quer arrebatar? Se defendemos a nossa propriedade com toda a energia que o momento exige, a nossa virtude não merece ela a mesma defesa, quando a vemos em perigo?
2. A duas perguntas que lhe foram dirigidas, Santo Tomás deu respostas acertadíssimas e dignas de atenção. A primeira foi: “Que certeza temos da nossa salvação?” Santo Tomás respondeu: “Salva-se quem quer”. Não a simples veleidade, uma vontade vaga, indecisa dá-nos a salvação, mas a vontade firme e resoluta, que se impõe às nossas paixões, fazendo-as calar, é que nos põe no caminho da virtude e da observação da lei de Deus. — A segunda pergunta foi: “Como é possível viver santamente no meio dos perigos deste mundo?” A resposta: “Lembrando-se muitas vezes das contas que devemos dar a Deus da nossa administração”. É a fé que nos ensina a verdade da prestação de conta que cada um deve dar a Deus. Ai daquele que não tiver suas contas em ordem; ai daquele que não souber responder a Deus onisciente, justo e santo! Lembra-te da responsabilidade que tens perante Deus, e incólume passarás por entre os perigos que o mundo te prepara.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩