07 de maio — Santo Estanislau, Bispo e Mártir

07 de maio — Santo Estanislau, Bispo e Mártir
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Polonês de origem, nasceu Estanislau em Szczepanów, de pais piedosos e ricos, que consideravam seu primogênito como um presente do céu, visto que seu matrimônio tinha ficado sem filhos durante trinta anos. Estanislau recebeu uma educação primorosa, graça esta que retribuiu com um procedimento exemplaríssimo, dando, criança ainda, provas indubitáveis de futura santidade. Amor à oração, delicadeza de consciência e uma grande compaixão dos pobres, eram os traços característicos de sua alma juvenil.

Para completar seus estudos, os pais mandaram-no para Paris. Passados uns anos, na sua volta para Polônia, não encontrou mais seus pais em vida. Tomou a resolução de realizar um plano havia muito por ele acariciado: de entrar no convento. Com este intuito fez distribuição dos seus bens entre os pobres. O Arcebispo de Cracóvia, Lamberto, porém, conhecendo o grande talento de Estanislau, e julgando utilíssima sua cooperação na diocese, ofereceu-lhe o cargo de cônego. Nesta colocação trabalhou até à morte do santo Bispo, quando foi eleito sucessor do mesmo.

Em sua nova posição foi sua única preocupação cumprir bem o seu dever, dirigir bem a arquidiocese, ganhar as almas para o céu e santificar a sua própria alma. Sua caridade quase excessiva para com os pobres e necessitados, sua dedicação sem limites ao clero e fiéis, sua vida austera e modelar fizeram com que em toda sua arquidiocese fosse conhecido como o "santo Bispo".

Rei da Polônia era Boleslau II, monarca tirânico e devasso, odiado pela nação. Não havia, porém, quem tivesse tido coragem de lhe abrir os olhos. Estanislau teve esta franqueza apostólica. Em audiência que teve com Boleslau, com todo respeito e muita clareza, chamou a atenção do rei aos escândalos que o mesmo dava e pediu-lhe que, por amor de Deus, salvasse a sua alma. Boleslau prometeu emendar-se; continuou, porém, sua vida escandalosa. Quando sua desfaçatez chegou ao ponto de raptar a mulher de um fidalgo e a desonrar, Estanislau, qual outro São João Batista, disse-lhe: "Não te é lícito ter a mulher de teu próximo." Estas palavras fizeram amadurecer no coração do rei o plano de se livrar do censor importuno. Um fidalgo tinha, com consentimento do rei, vendido ao Arcebispo um terreno e recebido a importância da venda. Três anos o Arcebispo tinha estado de posse tranquila da sua propriedade legitimamente adquirida. Boleslau instigou os herdeiros do falecido fidalgo, antigo proprietário do terreno em questão, a processar o Arcebispo por ter-se apossado indevidamente daquela propriedade, e prometeu-lhes o seu apoio incondicional naquela demanda. Os herdeiros fizeram intimação ao Arcebispo para que restituísse a propriedade ou fizesse o pagamento da mesma. Estanislau, por sua vez, protestou contra a injusta acusação e citou em seu favor testemunhas. Estas, porém, nada depuseram porque o rei lhes tinha proibido testemunhar. "Pois bem, disse o Arcebispo ao rei e ao seu conselho, — se minhas testemunhas não querem ou não podem falar, daqui a três dias hei de apresentar-lhes uma, a quem deveis dar crédito — o vendedor mesmo." O rei riu-se desta ameaça, porque o antigo proprietário tinha morrido havia dois anos; no entanto, aceitou a proposta do Arcebispo. Estanislau passou três dias em oração e jejum. No terceiro dia, logo após a Missa, revestido das vestes episcopais, se dirigiu à sepultura do falecido proprietário, mandou que se retirasse a terra e exclamou em alta voz: "Pedro — era este o nome do defunto —, em nome da Santíssima Trindade, te ordeno para que te levantes e dês testemunho da verdade." E eis que, na presença de muito povo, o morto se levanta e acompanha o santo Bispo até à presença do rei e do seu conselho. Estanislau o apresentou e disse: "Aqui está a testemunha que prometi trazer à vossa presença. Ela vos dirá a verdade." Pedro levantou a voz e disse bem alto e claro: "Sim, senhores, eu vendi ao Arcebispo meu terreno livremente e recebi a paga à vista. Meus herdeiros não têm razão." Dito isto, Pedro voltou à sepultura, para continuar seu sono eterno. O Arcebispo, bem contra a vontade do rei, foi absolvido e teve sossego por algum tempo.

Boleslau, por seu turno, continuou sua vida escandalosa até que os grandes do país, cansados de ver o triste exemplo do rei, se dirigissem ao Arcebispo, com o pedido de apresentar ao monarca seus protestos e, em seu nome, exigir a emenda de vida. Estanislau prometeu-lhes procurar o rei e para isto preparou-se pela oração e jejum, durante alguns dias. Assim se apresentou novamente ao rei, falou-lhe do grande perigo que corria de perder sua alma, da condenação eterna, certa e inevitável, caso não se quisesse converter a Deus. Vendo, porém, que tudo era debalde, e o rei recebia suas admoestações com mofa e escárnio, ameaçou-o com a grande excomunhão. De fato, excomungou-o, porque o proceder de Boleslau, em vez de melhorar, tornou-se dia a dia mais escandaloso.

O tirano resolveu então a morte do Arcebispo, sem mais outros preâmbulos. Destacou para este fim um grupo de homens, que deviam assassinar o Arcebispo, na hora da Santa Missa. Efetivamente, os algozes entraram na capela arquiepiscopal, com a intenção de cumprir a ordem régia. Tomados, porém, de um pânico inexplicável, fugiram do santo lugar e declararam ao rei ser-lhes impossível levar a efeito sua ordem.

Boleslau mandou outros homens, e assim por três vezes seguidas, sem que eles conseguissem dar cumprimento à sua tarefa. Que acontece? O rei, possesso de ódio, ele mesmo se dirige à capela do Arcebispo, sequioso do sangue de sua vítima. Estanislau estava a celebrar o Santo Sacrifício da Missa, quando Boleslau entrou, e com um golpe terrível de espada, feriu a cabeça do santo Arcebispo, o qual morreu instantaneamente. O tirano, não satisfeito com sua obra, ordenou que o corpo de sua vítima fosse arrastado para fora e cortado em pedaços, a fim de que servisse de pasto aos corvos. A divina Providência, porém, dispôs contra a vontade do carrasco. Apareceram quatro águias, que se puseram de sentinela e guarda do corpo despedaçado do mártir, até que alguns homens tivessem a coragem de juntar as relíquias, para lhe dar honesta sepultura. Deu-se ainda mais um milagre. No momento em que os membros do corpo mutilado foram conjuntados, eles se uniram, perfeitamente, de modo que apareceu o corpo intacto do santo mártir. Este foi sepultado na Igreja de São Miguel, em Cracóvia, onde ficou dez anos. Agora ele descansa na Catedral de Cracóvia. O martírio de Santo Estanislau deu-se no ano de 1079.

Reflexões

1. Santo Estanislau procurou salvar o rei da perdição eterna. Baldados foram seus esforços, apesar de ter muitas vezes apontado para a condenação eterna, que infalivelmente seria a sorte do impenitente. Boleslau é o tipo do pecador que despreza os avisos de Deus e se entrega ao vício, sem temor e relutância. O ímpio chega ao ponto de não mais ligar importância ao pecado. "Seu coração endurece (Jó 41, 15.) como a bigorna do ferreiro". "Seu fim será terrível" (Eclesiástico 3, 27), diz o Espírito Santo. Quem estiver em pecado, trate de sair deste triste e perigoso estado. Peça a Deus que lhe dê a reta compreensão e a graça de se livrar das cadeias que o levam para o inferno.

2. Deus nem sempre castiga o pecado no momento em que este é cometido. Para muitos é isto motivo para mais livremente se entregarem às praxes pecaminosas, quando deviam se aproveitar da graça que Deus lhes oferece para fazer penitência em tempo. "O castigo será tanto mais doloroso e terrível, quanto mais tempo Deus deu para a conversão" (Santo Agostinho). "Se Deus protela o castigo, não queiras protelar também a penitência" (Santo Agostinho). "A misericórdia que Deus te oferece, dando-te tempo para fazeres penitência, é limitada. Não te é dado saber sua extensão, quanto à medida, nem quanto ao tempo." (Orígenes).

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312
07 de maio — Santo Estanislau, Bispo e Mártir — Padre João Batista Lehmann