07 de dezembro — Santo Ambrósio de Milão, Bispo, Confessor e Doutor da Igreja

07 de dezembro — Santo Ambrósio de Milão, Bispo, Confessor e Doutor da Igreja
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Entre os grandes doutores da Igreja, é Santo Ambrósio um dos que ocupam os primeiros lugares. Extraordinário em ciência, inigualável na arte retórica, poeta fecundíssimo, Príncipe modelar da Igreja, Santo Ambrósio é o vulto mais eminente do clero católico no século quarto. Nasceu em Tréveris, onde viu a luz do mundo em 340. O pai de Ambrósio era governador de grande parte da Itália, Espanha, França e Alemanha. Pela morte do pai, a família de Ambrósio mudou-se para Roma. Ambrósio começou os estudos e decorridos poucos anos, já seu nome, como orador e poeta, estava na boca de todos. Tantos eram os triunfos, que alcançava nos tribunais de Roma, que o governo resolveu mandá-lo para o norte da Itália, como governador daquela parte do Império, com residência em Milão. Pela morte de Auxêncio, bispo de Milão, a cidade foi teatro de lutas apaixonadas entre católicos e arianos. Ambrósio, como governador, julgou ter o dever de intervir naquela questão, que ameaçava degenerar em guerra religiosa.

Pela firmeza, prudência e circunspecção, mas antes de tudo pela eloquência arrebatadora, conseguiu que os ânimos serenassem e acabassem as contendas. Deu-se na mesma ocasião um fato extraordinário, que impressionou profundamente tanto os católicos, como arianos. Ambrósio mal tinha terminado o discurso, diante de muito povo, quando uma criança levantou bem alto a voz e disse: “Ambrósio é nosso Bispo!” Católicos e arianos atônitos entreolharam-se e, a multidão, que enchia o templo, rompeu na aclamação uníssona: “Ambrósio será nosso Bispo!” Embora este protestasse contra a manifestação da vontade do povo, embora alegasse que não era batizado ainda, a multidão não se deixou demover daquela atitude, e mais alto ressoaram as aclamações: “Ambrósio é nosso Bispo!” O Imperador Valeriano, colocando-se ao lado do povo, empenhou-se com sua autoridade, para que Ambrósio aceitasse a dignidade episcopal. Ambrósio, porém, fugiu de Milão, mas, passados alguns dias, foi pelo povo levado em triunfo à cidade, onde então sucessivamente recebeu os sacramentos do Batismo e da Ordem.

Uma vez bispo, entregou-se às obras da caridade, revelando, ao mesmo tempo, um zelo apostólico extraordinário. A grande fortuna desapareceu-lhe nas mãos dos pobres e o jejum que guardava, era tão rigoroso e desapiedado, que os discípulos se julgaram obrigados a dirigir-lhe o pedido de poupar a saúde. Ambrósio respondeu: “Muitos já morreram pelo excesso no comer, porém, ninguém ainda jejuando.” Três coisas Ambrósio propôs-se:

A celebração cotidiana da Santa Missa, a pregação dominical e a luta contra a heresia e os maus costumes. Únicos em beleza são os tratados que escreveu sobre a castidade e virgindade das donzelas, que, movidas pelas instruções de Ambrósio, deixaram em grande número o mundo, para abraçar a vida religiosa. As pregações do Santo Prelado eram tão abençoadas por Deus, que inúmeros hereges se lhe prostraram aos pés, pedindo absolvição do erro e readmissão no seio da Igreja. O maior triunfo da vida apostólica de Santo Ambrósio é a conversão de Santo Agostinho, o qual, ouvindo a palavra evangélica do santo Arcebispo, o procurou e abjurou a heresia do Maniqueísmo.

A sombra acompanha a luz. Era natural que o demônio e respectivos sequazes movessem guerra ao homem de Deus. Uma inimiga fidalga surgiu-lhe na pessoa da Imperatriz Justina, adepta fanática do Arianismo. Furiosa por causa da grande influência do Arcebispo, por essa paixão nada poupou, para fazê-lo desaparecer. Dinheiro, intrigas, maledicências, calúnias e perseguições disfarçadas e abertas eram as armas a que recorreu aquela mulher, para conseguir o diabólico plano.

Todas estas tramoias falharam, ante a dedicação e amor, que o povo tributava ao bispo. Justina fez valer a autoridade de mãe junto ao filho, o Imperador Valentiniano II, que exigiu de Ambrósio a entrega de uma das igrejas aos arianos. Ambrósio respondeu-lhe: “As praças do mundo pertencem ao Imperador, as igrejas ao Bispo. Se esqueceste, que és príncipe católico, eu te mostrarei que sou bispo católico! Não serei traidor do rebanho de Cristo, e não entregarei o templo de Deus aos falsificadores da fé. Se quiseres minha fortuna, toma-a; minha vida está em tuas mãos, mas não a entregarei senão nos degraus do altar”.

Justina escumava de ódio e mandou sicários, com ordem de assassinar o Arcebispo. Este, porém, defendido pelos fiéis, saiu incólume de todos os perigos. Um dos facínoras, experimentou o castigo de Deus, no momento em que ia apunhalar o Arcebispo; o braço ficou-lhe duro. Ambrósio não só lhe perdoou o crime, mas ainda lhe curou o braço e despediu-o, dando-lhe conselhos paternais.

O Imperador Valentiniano II, destronado pelo general Máximo, foi por Teodósio o Grande restabelecido no poder. Fiel ao costume observado em Constantinopla, Teodósio também em Milão escolhera lugar na igreja perto do altar. Ambrósio, vendo nisto uma arrogância indébita, intimou-o a descer para onde estavam os demais fiéis. “Pela púrpura és Imperador, mas não sacerdote”, disse a Teodósio, o qual, longe de levar a mal esta franqueza, disse aos amigos: “Afinal, achei um homem que me disse a verdade. Conheço só um digno de ser bispo, e este é Ambrósio”.

Em 390 a plebe de Tessalônica tinha linchado o governador imperial. Teodósio, num acesso de furor, decretou a morte de todos os habitantes daquela cidade. As instâncias de Ambrósio, desistiu da execução da sentença. Mais tarde, porém, esquecido da palavra dada ao Arcebispo, cometeu o crime bárbaro. Ambrósio, inteirado do ocorrido, excomungou Teodósio e condenou-o a fazer penitência pública. Quando, apesar da excomunhão, em dia de grande festa, Teodósio se dirigiu ao templo, para assistir aos santos mistérios, encontrou na porta Ambrósio, em ornato episcopal, vedando-lhe a entrada.

“Tuas mãos estão ainda gotejando do sangue de justos, — disse ao Imperador, — e tu te atreverás a levantá-las a Deus? Terás a ousadia de receber o corpo de Deus na boca, que proferiu uma sentença tão horrível?” Teodósio animou-se a replicar: “Não pecou também o rei David?” Ambrósio respondeu: “Como imitaste a David no pecado, imita-o também na penitência!” Teodósio humildemente aceitou o que o Arcebispo lhe impôs e durante oito meses fez penitência pública.

Ambrósio morreu em 397, depois de ter precisado o dia do trânsito. A morte do grande Bispo foi muito sentida por todos e considerada um desastre para a Itália. Stilicão, o célebre general do Imperador, chegou a dizer: “Se este homem morre, a Itália está perdida.” Grande foi a alegria da cristandade toda, quando em 1871 foram descobertas as relíquias de Santo Ambrósio, que se julgavam perdidas; pois durante 1.000 anos se ignorava o lugar onde tinham sido depositadas.

REFLEXÕES

“Não temo a morte, porque temos um bondoso Senhor” — disse Santo Ambrósio. Sim, temos um Senhor de uma misericórdia ilimitada. Consolem-se com esta verdade aqueles, que durante a vida procuram fazer o bem e servir a Deus com toda a fidelidade. É coisa sabida, que o demônio procura inocular o desânimo nas almas dos fiéis servidores de Deus. A lembrança dos sacrifícios, das orações e das boas obras, a lembrança das confissões bem feitas, pelo contrário, deve enchê-las de ânimo. Com Santo Ambrósio, digam confiadamente: “Nós temos um Senhor muito bondoso.  Nele pus toda a minha confiança e esperança. Não hei de ser confundido” O exercício da esperança é utilíssimo, para aqueles que se vêm tentados pelo desânimo e pelo desespero, quando a consciência lhes dá o testemunho de terem cumprido o dever. “O Senhor é minha luz e minha salvação, a quem devo, pois, temer? O Senhor é o protetor de minha vida, diante de quem temerei? Ainda que exércitos se levantem contra mim, meu coração não temerá. Não aparteis de mim a vossa face! Vós sois meu protetor; não me abandoneis e não me desprezeis, vós, meu Deus e Salvador! (Salmo 26: 1, 3, 9)”. “Por vós clamei, Senhor. Disse: vós sois minha esperança e minha porção na terra dos viventes” (Salmo 141: 6). “Coração de Jesus, em vós confio!”

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Em Alexandria, na perseguição de Décio, a morte de Santo Agathon, soldado. O ódio do povo se dirigiu contra ele, quando procurava evitar que os cadáveres dos mártires fossem profanados. 250.

Em Meaux, na França, a santa virgem Burgundofara, abadessa do convento de Faremoutier. É invocada contra moléstias dos olhos e a cegueira, porque uma religiosa cega recuperou a vista no momento que tocou nas relíquias da Santa. 657.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii