07 de abril — Beato Germano José
07 de abril — Beato Germano JoséExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
A vida de Germano José é uma das mais encantadoras que há e, embora não se trate de um Santo canonizado, é uma prova eloquente do amor que Maria Santíssima vota aos meninos, que conservam puro seu coração e lhe têm devoção filial. Germano José nasceu em Colônia, cidade antiga da Alemanha e célebre pelo espírito religioso que nela sempre reinou. O pai de Germano José, um dos cidadãos mais considerados e abastados de Colônia, mas repetidos reveses e contratempos fizeram com que caísse em grande pobreza. No entanto, não descuidou da educação de seu filhinho. Germano José foi um daqueles meninos que, desde a mais tenra infância, parecem trazer em si o sinal de uma predestinação de santidade. Na idade de estudar, frequentou a escola e, entre os numerosos alunos, era ele o mais exemplar. Com muito cuidado, fugia dos companheiros que, em palavras e no proceder, manifestavam má educação e má índole. Tanto mais vezes procurava a igreja onde, ao pé do altar da Santíssima Virgem, ficava em doces colóquios com aquela a quem venerava como sua mãe. Encantador era o modo com que a criança de seis anos apenas conversava com Maria Santíssima. Certa vez trouxe-lhe uma maçã, e com a simplicidade de uma criança inocente, pediu a sua divina Mãe que a aceitasse. De fato, a imagem de Nossa Senhora se moveu, estendeu a mão para receber a singela oferta. Desde aquele dia, estabeleceu-se entre a Mãe de Jesus e o pequeno Germano José uma amizade profunda, como entre mãe e filho. Maria falava com a criança e esta procurava sua mãe, deliciando-se com ela em cordial e encantadora conversa. Quando, em um dia feriado, conforme seu costume, foi à igreja, para falar com sua Mãe, viu a Rainha do Céu rodeada de grande esplendor, tendo ao seu lado São João, que brincava com o Menino Jesus. Germano José, vendo aquela cena, de longe a contemplou com doce enleio. A Mãe de Deus chamou-o para perto de si e disse-lhe: "Vem cá, Germano José!" Mais que depressa, o menino subiu os degraus do presbitério, mas o gradil fechado impediu-lhe a entrada. "Eu não posso subir — disse Germano José a Maria Santíssima —, a porta está fechada e não há escada aqui para eu trepar". Maria convidou-o para que do gradil mesmo fizesse escada e subisse sem temor; ela mesma lhe ajudaria. Germano José transpôs o gradil, com alguma dificuldade e no descer, ao passar pelas pontas agudas que em cima havia, se feriu um pouco no peito. A ferida era insignificante, mas doía. Tendo assim penetrado no coro, Maria Santíssima deu-lhe a licença de brincar com o Menino Jesus. Se bem que com algum acanhamento, Germano José pôs-se a divertir-se com o divino infante, e Maria os acompanhava com seu doce olhar maternal. Passou-se assim o dia todo e, quando veio a tarde, Maria, a doce Mãe, ajudou o pequeno a ganhar de novo o alto gradil, por onde chegou ao corpo da Igreja. Germano José confessou que nunca sentiu maior satisfação que naquele dia.
Num dia de inverno, o pequeno Santo dirigiu-se descalço à igreja e, tiritando de frio, fazia suas orações no altar de sua Mãe. Esta o perguntou: "Germano José, por que andas descalço neste frio?" O menino respondeu: "Não tenho calçado". Então, Maria Santíssima disse-lhe, apontando para uma pedra: "Olha aquela pedra! Vai lá e encontrarás o dinheiro para comprar um par de sapatos". A criança obedeceu e achou o dinheiro prometido. Jubiloso, trouxe-o para Maria Santíssima o ver. Sua benfeitora acrescentou então: "Germano, todas às vezes que precisares de dinheiro para tuas necessidades, procura a pedra e acharás sempre o necessário". Germano José teve, assim, por muito tempo o que seu pobre pai não lhe podia fornecer. A fonte de renda era impossível que ficasse oculta. Os companheiros de Germano José, descobrindo seu segredo, foram também procurar aquela pedra, mas nada acharam. Os bolandistas referem outros fatos, ainda mais extraordinários, na vida de Germano José.
Tendo doze anos, Germano José empregou-se no convento dos Premonstratenses, em Steinfeld, e a muito pedido seu, foi aceito na comunidade, como noviço. Trabalhos e estudos tomavam seu tempo de tal forma, que quase não lhe ficava um minuto para suas devoções particulares, o que muito o entristecia. Sua divina Mãe lhe apareceu e o consolou com estas palavras: "Não te esqueças, Germano José, melhor não poderás servir a meu Filho e a mim, que fazendo os teus trabalhos na santa obediência e servindo a teus irmãos com muita caridade". Daí em diante, reinaram, como dantes, alegria e satisfação no coração de Germano José.
Pouco tempo depois, desta visão, os superiores incumbiram a Germano José dos trabalhos da sacristia. Como sacristão, teve ele muito tempo para se dedicar à oração e estar com sua divina Mãe. As comunicações entre Maria e Germano José foram tão frequentes, que dificilmente poder-se-á encontrar um Santo que tivesse sido tão privilegiado por Maria Santíssima, como o jovem premonstratense. As visões eram quase quotidianas. Também Germano José não perdia ocasião de cantar os louvores à Maria Santíssima e honrar sua divina Mãe. Em virtude desta devoção terníssima, os religiosos chamaram seu jovem companheiro de José, quando em casa o seu nome era só Germano. Julgando-se indigno de levar este nome, foi preciso Maria Santíssima o tranquilizar e lhe ordenar que aceitasse o nome de José. Esta circunstância fê-lo amar ainda mais a sua santa Mãe.
Não teria sido ele bom Filho de Maria, se não tivesse havido uma devoção sincera e ardente ao Santíssimo Sacramento. Frequentes vezes, de dia e de noite, visitava a Jesus na igreja. Raras vezes celebrava a Santa Missa sem derramar lágrimas de comoção, e muitas vezes foi observado que, rodeado de grande luz, permanecia no altar arrebatado em doce êxtase.
Apesar de tão privilegiado e cumulado de provas de predileção da parte de Deus e de Maria Santíssima, Germano José conservou-se sempre na mais edificante humildade. Se bem que nunca tivesse manchado sua alma com um pecado mortal, sua vida era uma contínua prática de penitência. Deus permitiu também que seu servo fosse atormentado pelas mais terríveis tentações e sujeito a dores fortíssimas. Germano José levou esta cruz com coragem e resignação à vontade de Deus.
Não longe de Steinfeld havia um convento de religiosas, as quais pediram ao superior de Germano José, que o mandasse, para durante a quaresma fazer o serviço religioso no convento. O superior não quis dar a pedida licença e a comunidade toda se externou também contrária à vontade das Irmãs. Germano José pediu pessoalmente ao abade que atendesse às religiosas, porque era esta a vontade de Deus, e obteve a permissão.
Quando entrou no convento das freiras, designou com sua bengala um lugar no chão, dizendo: "Aqui me haveis de sepultar". Embora ninguém supusesse que estas palavras tivessem cumprimento, os acontecimentos que seguiram, não deixaram dúvida que Germano José soube o tempo e o lugar do seu trânsito. Pouco tempo depois foi acometido de doença grave e morreu em 7 de abril de 1236. Antes de entregar sua alma a Deus, teve uma visão, que muito consolo lhe trouxe.
Seu corpo foi, de fato, enterrado no lugar que Germano José, semanas antes, tinha indicado; mas como os religiosos do seu convento o reclamassem, as Irmãs tiveram de o entregar, ao que se resolveram só depois de terem recebido ordem terminante do Bispo neste sentido. A exumação teve lugar na terça-feira depois de Pentecostes, e geral foi a grande surpresa, quando, ao tirar o caixão com os restos mortais do santo religioso, encontraram seu corpo intacto, sem o menor sinal de decomposição, o que era de se admirar, tanto mais, porque o lugar, onde tinha achado seu primeiro repouso, era bastante úmido. Muitos milagres foram observados, que Deus dignou-se de fazer, glorificando o túmulo do seu santo servo. Entre estes, mencionam os biógrafos a cura de diversas doenças e a ressurreição de alguns mortos.
Reflexões
O Bem-aventurado Germano José afligia-se, quando as obrigações do seu cargo não lhe davam o tempo que desejava ter para rezar. Maria Santíssima, porém, consolou-o, dizendo-lhe que o trabalho feito por obediência é sumamente agradável a Deus. Esta verdade não é menos consoladora para todos aqueles que procuram servir a Deus numa vida trabalhosa, que poucos minutos lhes dá para rezar. Saibam todos que o trabalho obrigatório, feito na reta intenção de servir a Deus, vale mais do que dias inteiros passados em orações, se bem que isto talvez lhes agrade mais. "Tudo por amor de Deus"; "tudo pela maior honra e glória de Deus"; "tudo por Vós, Sagrado Coração de Jesus", deve ser a intenção predominante em todos os nossos trabalhos. Desta maneira, nosso trabalho se transforma em oração, e dela terá o merecimento.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩