06 de março — Santa Catarina de Bolonha

06 de março — Santa Catarina de Bolonha
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Natural de Bolonha, filha de pais notáveis pela sua posição social, Catarina recebeu uma educação aprimorada. Na idade de onze anos quis a vontade do pai que passasse para a corte do príncipe de Ferrara, onde havia de ser a companheira da jovem princesa Margarida d’Este. Catarina permaneceu dois anos em Ferrara e pela morte de seu pai entrou numa Congregação religiosa, que uma piedosa senhora, Lucia Mascheroni acabava de fundar. Seu único desejo era agradar a Deus numa vida santa e perfeita. Por uma graça especial, Deus livrou-a de um grande incômodo espiritual, dando-lhe a certeza do perdão dos seus pecados. Para que esta revelação não lhe fosse prejudicial, mostrou-lhe numa visão o Juízo Final com todas as circunstâncias com que nossa fé no-lo apresenta. A lembrança do que tinha visto, conservou-a no santo temor de Deus, preservando-a do menor pecado voluntário.

Tão prodigiosos progressos fez na santidade, que os superiores sucessivamente lhe confiaram o cargo de mestra das noviças e de abadessa do convento em Bolonha. Íamos longe se quiséssemos fazer uma descrição detalhada da vida admirável da Santa, das suas virtudes como dos privilégios extraordinários com que Deus a distinguiu. Tenham aqui lugar alguns fatos de destaque, que sua biografia relata e que, ao mesmo tempo, nos dão uma ideia do modo como Deus se comunicava a esta alma privilegiada.

Na noite de Natal de 1456, quando Catarina ainda se achava em Ferrara, pediu a superiora licença para passar a noite toda no coro. Catarina permaneceu em oração até às quatro horas da manhã quando, não no sono ou em visão, mas realmente lhe apareceu a Divina Mãe com o Menino Jesus, envolto em paninhos como qualquer outra criancinha. Maria entregou o Menino a Catarina que o recebeu com suma alegria, estreitando-o contra o coração e cobrindo-o de beijos. Eis outro fato muito singular que se deu com uma noviça, em Bolonha: trabalhando ela na horta, foi infeliz e, descautelosa no manejo da pá, decepou um dedo do pé. Catarina, sendo chamada, tomou na mão esquerda a parte cortada, aplicou-a ao pé mutilado, fez o Sinal da Cruz sobre o mesmo e qual não foi a admiração de todos os circunstantes, quando viram que o pé estava completamente curado. A vida da Santa está cheia de prodígios desta natureza.

Na prática de todas as virtudes era Catarina modelo perfeito. No amor de Deus parecia mais um Serafim que criatura humana. “Desde que deixei o mundo, — assim se exprimiu com uma das Irmãs — o meu único desejo tem sido cumprir em tudo a vontade de Deus e amá-lo de todo o coração”. Assunto predileto de suas meditações era a Sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, fonte inesgotável do amor divino. Horas inteiras permanecia imóvel aos pés do altar do Santíssimo Sacramento, engolfando seu espírito no mistério da Sagrada Paixão. — Desde pequena teve uma devoção terna a Maria Santíssima, protetora de sua inocência e pureza. A esta Divina Mãe e a sua assistência poderosa atribuía Catarina não ter sucumbido nas fortíssimas tentações contra a fé e a santa pureza, que a acometiam frequentemente.

Paralelo ao amor a Deus era em Catarina o amor ao próximo. Os pobres e doentes eram os primeiros objetos dos seus cuidados. Imensa compaixão tinha ela dos pobres pecadores e dos que se achavam em grande perigo de pecar. A muitos alcançava a graça da conversão e da perseverança. Grande admiração causou a conversão quase súbita dum malfeitor que, sendo condenado à morte, não só nenhum sinal teve de arrependimento, mas passava os últimos momentos a blasfemar. Sabendo Catarina da infelicidade do homem, pôs-se em oração, de que resultou o mesmo pedir um confessor e morrer na graça de Deus.

Cataria morreu em 1463 em consequência duma curta, mas dolorosíssima doença. Sofreu as dores com a mesma resignação e paciência com que sofria as da vida passada, bem como as calúnias e maledicências, de que tinha sido vítima mais de uma vez. Deus lhe revelou a hora da morte, para a qual se preparou com todo o fervor.

Seu corpo conservou-se em Bolonha. Vestida com o hábito da Ordem, a cabeça cingida com uma coroa de ouro, sentada num trono precioso, assim se apresenta até hoje ao visitante, que pasmo admira o fenômeno de um cadáver de 458 anos ter conservado a frescura e flexibilidade natural das articulações.

Reflexões

1. Catarina pediu e obteve a certeza do perdão dos seus pecados, certeza esta que nunca poderás ter em absoluto, nem tão pouco saberás com certeza se entrarás no Reino dos Céus. “Quem poderá dizer: meu coração está puro, estou livre do pecado?” (Provérbios 20, 9). “O homem ignora, se é objeto do amor ou do ódio” (Eclesiastes 9, 1). São Paulo quer que operemos com receio e com temor a nossa salvação. — Embora estas considerações nada tenham de animador, motivo não temos nós de entregar-nos ao desânimo, muito pelo contrário, tudo devemos fazer para nos salvar. Assim, é certo que a confissão contrita dos teus pecados te garante o perdão dos mesmos. É certo que a obediência à lei de Deus, a paciência e a conformidade com que levas tua cruz te conservam na amizade de Deus. É certo que Deus prometeu seu perdão àqueles que fazem penitência e observam os mandamentos. O homem, que faz o que Deus mandou, verá que Deus fará o que prometeu. O homem que vive como Deus quer, motivo não tem para desesperar de sua salvação.

2. Da meditação do último juízo, Santa Catarina tirou um medo salutar, que lhe incutiu horror do pecado e a confirmou na prática do bem. De fato, a lembrança do Juízo Final é um dos meios mais eficazes para afastar o homem do pecado e conservá-lo no caminho da virtude. “Deus é o juiz justo, forte e paciente” (Salmos 7, 11), diz o Salmista. Perante Deus, não há acepção de pessoas e todos serão julgados conforme merecerem. A justiça terrena falha — a divina é perfeita, imparcial e onipotente. Se nos lembrássemos sempre do dia que nos levará à presença de Deus para recebermos a última e justíssima sentença, da qual dependerá nossa sorte na eternidade, maior seria o nosso cuidado em evitar o pecado, que é ofensa a quem será nosso juiz. “Não perca de vista — diz a Imitação de Cristo — o fim e as condições em que te haverás na presença do juiz, a quem nada é oculto, que não se deixa abrandar por presentes nem desculpas aceitará, mas fará o juízo com toda justiça”. São Gregório escreve: “Meus caríssimos irmãos, lembrai-vos daquele dia terrível! Chorai os vossos pecados! Emendai a vossa vida, regenerai os vossos costumes”.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312