06 de junho — São Norberto, Bispo e Confessor
06 de junho — São Norberto, Bispo e ConfessorExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Xanten, pequena cidade do ducado de Cleves, é a terra de São Norberto, que viu a luz do mundo em 1080. Seus pais, Heriberto e Hedwiges, eram distintos igualmente pela origem e pela piedade. A seu filho proporcionaram uma educação muito boa, que fez com que o menino, de temperamento vivo, se tornasse querido por todos. Chegado à idade em que devia escolher seu estado de vida, Norberto determinou-se para o serviço eclesiástico. Recebeu o Subdiaconato e com ele um canonicato em Xanten, com grandes rendimentos. A riqueza ameaçava ser sua perdição. Moço, simpático, rico, cheio de vida, correu atrás das vaidades, até que Deus, que o tinha reservado para coisas maiores, lhe abriu os olhos. Um dia, só acompanhado por um pajem, fez uma viagem a cavalo. No meio do caminho foram surpreendidos por forte temporal.
Um formidável raio caiu bem defronte de Norberto. O cavalo espantou-se e jogou longe seu cavaleiro. Norberto ficou como morto por mais de uma hora. Voltando a si, apresentou-se ao seu espírito a sorte que o teria esperado se tivesse morrido fulminado. Qual outro São Paulo, exclamou: “Senhor, que quereis que eu faça?” E parecia-lhe ouvir uma voz a lhe dizer: “Foge do pecado, pratica a virtude; procura a paz e salva tua alma”. Vivamente impressionado pelo que acontecera, tomou a firme resolução de deixar o mundo e dedicar-se unicamente a uma vida em Deus e por Deus. Suas ricas vestimentas trocou-as por uma hábito penitenciário, e amargamente chorou seus desvarios. Por seu mestre na vida espiritual escolheu a Conon, abade do mosteiro beneditino de São Sigiberto. Tendo chegado o tempo da ordenação, apresentou-se ao Arcebispo Frederico de Colônia, com o instante pedido de recebê-lo entre os candidatos ao sacerdócio. O Arcebispo acedeu ao seu pedido, se bem que não pudesse esconder seu estranhamento, por vê-lo agora, pedir com tanto ardor, o que, quando se lho tinha oferecido, recusara sempre. Recebeu o diaconato e o presbiterato no mesmo dia, falta de que pediu perdão ao Papa Gelásio II. Ordenado sacerdote, voltou à abadia de São Sigiberto, onde, em preparação à sua primeira Missa, fez um retiro espiritual de quarenta dias, sob a direção do abade Conon. Passado este tempo, voltou a Xanten, para ocupar seu lugar entre os cônegos da Igreja.
Estes o pediram que fizesse o sermão por ocasião da Missa solene, em uma festa que se celebrava. Norberto falou sobre as vaidades do mundo, da brevidade da vida, com uma eloquência tal, que muitas pessoas se converteram. Muitas vezes, dirigiu sua palavra eloquente aos seus confrades, exortando e esconjurando-os para que não se ocupassem com outra coisa, a não ser a glória de Deus e sua própria salvação. Alguns deles se irritaram com isto e votaram-lhe ódio. Um dos sacerdotes chegou até ao ponto de cuspir-lhe na cara, afronta que Norberto com a maior calma sofreu.
Para impedir que continuasse a pregar, levaram denúncias ao abade Conon, ao Arcebispo e ao Legado apostólico, incriminando-o principalmente de ter usurpado direitos, que não lhe competiam e usado de vestes que discordavam das usuais. Norberto, porém, tão bem se defendeu, que a acusação reverteu em confusão para seus inimigos.
Para não ser mais alvo dos dardos de almas invejosas, resolveu ausentar-se por algum tempo. Procurou o Arcebispo de Colônia, em cujas mãos restituiu todos os seus benefícios e rendimentos. Em seguida vendeu todos os seus bens e deu o dinheiros aos pobres. Sabendo que o Papa Gelásio se achava em São Gilles, na Provença, para lá se dirigiu, e obteve a licença da pregação.
À sua palavra ardente correspondia sua vida austera. Andava sempre descalço, vestia-se pobremente, e jejuava com todo o rigor. De toda parte, afluíam os fiéis, para ouvir suas prédicas, e numerosas eram as conversões por elas causadas. Os habitantes de Valenciennes pediram-no que permanecesse mais tempo com eles. Norberto, que a princípio não tencionava atender a este pedido, viu-se obrigado pela doença grave e morte de três seus companheiros. Um dos primeiros homens que se confiaram à sua direção, foi o venerável Hugo de Fosses, esmoler do Bispo de Cambrai. Mais tarde, veio a ser seu biógrafo e primeiro sucessor no governo do mosteiro “Praemonstratum” (pratum, monstratum, prémontré).
O Papa Calixto II, sucessor de Gelásio II, convocou um Concílio em Reims, com o intuito de nele serem estudados os meios de debelar os grandes males, que naquele tempo oprimiam a Igreja. Norberto naquela ocasião se apresentou ao Papa com o pedido de poder continuar com suas prédicas em toda a parte do mundo cristão. Com aquela época coincide também a fundação da sua Ordem, na diocese de Laon.
De volta de uma viagem a Roma, donde trouxe a aprovação da regra da sua Ordem, a pedido do Bispo de Cambrai, dirigiu-se a Antuérpia, onde o herege Tranchelin, qual lobo rapace, causava grandes estragos no rebanho do Senhor. Tranchelin negava o Santíssimo Sacramento, atacava a autoridade episcopal e ridicularizava os sacerdotes e sua missão. Inteligente, sarcástico e eloquente, soube dar aos seus discursos um sabor agradabilíssimo para aqueles que no sacerdócio católico conheciam um entrave para sua licenciosidade. Rico e devasso, dava grandes banquetes, conseguindo com isto engodar os papalvos e fazer-se querido pelos homens de caráter fraco.
Às suas ordens estavam três mil homens, prontos para trucidar aqueles que se opusessem à sua doutrina. Sua fama de Santo era tal que muitas pessoas bebiam a água em que Tranchelin tinha lavado as mãos. Norberto conseguiu abalar a coluna da heresia e libertar a cidade daquela peste. Para demonstrar sua gratidão, os cônegos de Antérpia cederam à Ordem de Norberto sua própria igreja, dedicada a São Miguel, e passaram para uma outra de Nossa Senhora, que hoje é a catedral.
No ano de 1127 vemos o Santo Premonstratense no trono episcopal de Magdeburgo. Foi preciso uma ordem positiva do Núncio Apostólico Gerhard, para o mover a aceitar esta dignidade. Sua resolução firme de reformar a disciplina no seu clero trouxe-lhe grandes perseguições.
Tomou parte ativa no Concílio que o Papa Inocêncio II tinha convocado para Reims, em 1131.
Norberto e São Bernardo tomaram a defesa de Inocêncio, contra o antipapa Anacleto, o qual foi anatematizado pelo Concílio.
Norberto morreu em Magdeburgo, em 1134, tendo administrado aquela diocese durante oito anos. São Bernardo, Pedro, o Venerável e outros escritores daquela época afirmam ter ele sido o homem mais santo e eloquente do seu século. Seu corpo foi depositado na Igreja da sua Ordem em Magdeburgo. Como, porém, esta cidade aceitou a heresia de Lutero, o imperador Fernando II deu ordem para que os restos mortais de São Norberto fossem transportados para Praga, capital da Boêmia. Lá se acham até hoje na igreja dos Premonstratenses.
O Papa Gregório XIII inseriu em 1582 o nome de Norberto no Catálogo dos Santos da Igreja.
Reflexões
São Norberto, que na sua mocidade ia atrás das vaidades e loucuras do mundo, converteu-se em consequência de um raio, que o derrubou, deixando-o sem sentidos. O maior obstáculo que se opõe à obra da santificação de uma alma, é geralmente a esperança e o desejo de achar a felicidade nos bens visíveis e passageiros do mundo. No afã de os possuir, a alma se afasta cada vez mais do seu último fim, que é Deus. Enquanto não sobrevier uma grande decepção, o homem se entrega de corpo e alma ao trabalho de garantir-se da posse desses bens. Quando em lugar dos almejados prazeres, aparecer uma decepção dolorosa, a alma acorda como de um profundo sono e compreende que está num caminho errado. Esta desilusão é para muitos o primeiro passo à conversão. Pela tribulação, pelo sofrimento é que Deus chama o pecador, e assim procedendo, lhe faz uma grande caridade.
Quem ama os prazeres do mundo e suas vaidades, deve, como São Norberto, trilhar o caminho da penitência e da mortificação, cortar os laços que o prendem ao espírito do século. Grande é o sacrifício, dolorosa é a separação, mas certa também é a recompensa, a paz da alma em Deus.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩