06 de julho — São Goar, Sacerdote

06 de julho — São Goar, Sacerdote
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

São Goar, natural da Aquitânia, foi filho de pais ilustres. Já na idade de seis anos, deu indícios inequívocos de futura santidade, mostrando-se avesso às puerilidades próprias desta idade e inclinado à vida religiosa. Com um cuidado extraordinário, zelava pela pureza do coração, manifestando grande repugnância por tudo que era pecado, principalmente o pecado abominável. Por meio da oração, pela recepção frequente da Sagrada Comunhão, conservou intacta a inocência batismal. Tendo feito os respectivos estudos, recebeu o santo Sacramento da Ordem. Pelas orações, a pregação e, antes de tudo, o exemplo modelar, fez com que muitos pagãos se convertessem ao cristianismo e grandes pecadores voltassem ao caminho da virtude.

Como, porém, as muitas visitas lhe tornassem incômodas e prejudiciais, resolveu sair da sua terra e servir a Deus na solidão. Assim aconteceu de se estabelecer perto de Oberwesel sobre o Reno, na diocese de Tréveris. Aí, com licença do bispo, erigiu uma capela e uma pequena casa para morada.

Atraídos uns pela curiosidade, outros pela santidade e grande caridade do sacerdote estrangeiro, os habitantes daquela região, pagãos ainda, vieram visitar o santo eremita, o qual, tornando-se-lhes missionário, conduziu muitos ao aprisco do Senhor.

A fama de São Goar espalhou-se largamente e suas prédicas foram corroboradas por numerosos milagres. São Goar, no intuito de ganhar muitas almas para o céu, recebia muito bem os que o visitavam, hospedava-os em casa e com a maior liberalidade lhes punha à disposição o que havia na despensa. O resultado foi a conversão de muitos pagãos. Deus, porém, permitiu que o proceder do seu servo fosse por outros mal interpretado, e daí resultasse para o santo eremita uma série de provações.

Dois comissários do bispo de Tréveris, que o foram visitar, receberam do Santo o acolhimento que este dava a todos os que o procuravam. Mas não foi o que entenderam. Relataram ao bispo que o eremita era um grande hipócrita, cuja vida não estava de acordo com as regras da moral cristã; que se banqueteava com os mundanos e os milagres que fazia, não eram senão embustes. O bispo deu crédito ao que lhe foi contado e deu ordem para que São Goar comparecesse à sua presença. Outra vez os dois comissários se dirigiram ao recolhimento do santo homem, que os agasalhou com a maior amabilidade, pelo que o censuraram, dizendo: “Não esperávamos encontrar uma mesa tão opípara, na casa de um homem que dizem ser tão santo”. — “Não diríeis isso, respondeu o Santo, se aceitásseis com caridade o que a caridade vos oferece”. No dia seguinte lhes preparou outra vez um bom almoço, o que eles, com aparentada indignação, recusaram, objurgando-o porque não pensava em outra coisa, senão em beber e comer. Negando-se assim ao almoço do santo homem, pediram que lhes desse alguma coisa, para no caminho comerem, no que foram atendidos e Goar deu a um pobre o almoço que havia preparado para os hóspedes. Depois, montaram a cavalo, em demanda de Tréveris. Goar passou o tempo quase todo rezando e recitando Salmos.

Era meio-dia, quando os dois companheiros sentiram um abatimento tal, que quase chegara a desfalecer. De todas as provisões que Goar lhes tinha dado, nenhum vestígio mais acharam, pelo que se lhes abriram os olhos e, por esta circunstância, conheceram um castigo do céu, pelas censuras ásperas e desapiedadas que fizeram ao santo homem. Ele, não só lhes perdoou a falta de caridade, mas ainda pediu a Deus que os socorresse. Apareceram da mata três corças, que mansinhas deixaram que Goar as ordenhasse. Com o leite das corças, os viajantes refizeram as forças. De adversários que eram, os comissários passaram a ser defensores do santo eremita, a quem pediram lhes perdoasse o que de má-fé contra ele haviam tentado. Chegados a Tréveris, relataram ao bispo o que no caminho se tinha dado e fizeram de Goar as mais elogiosas referências. O bispo, porém, permanecendo no juízo que de Goar formara, chamou-o à sua presença e, perante numerosa assistência de clérigos, o increpou de diversos vícios, em particular da embriaguez, intemperança e hipocrisia.

O santo sacerdote, humilde e mansamente, defendeu sua inocência, sem, porém, conseguir convencer ao Superior. Enquanto isto se dava, entrou o sacristão-mór da Catedral, tendo nos braços uma criança recém-nascida, que tinha sido achada na porta da Igreja. “Vens muito a propósito — disse o Bispo ao funcionário da Catedral; — agora há de se mostrar se Goar é homem de Deus ou não”. E, dirigindo-se ao santo eremita, o Bispo lhe disse: “Se nos puderdes dizer quem são os pais desta criança, acreditaremos na tua inocência e santidade; se não, serás tido como hipócrita e embusteiro”. Goar pediu ao Bispo que não o sujeitasse a essa provação — em vão: o Bispo insistiu.

Goar fez uma pequena oração, adiantou-se para a criança e disse-lhe: “Em nome da Santíssima Trindade, eu te mando que nos reveles os nomes de teus pais”. A criança imediatamente respondeu em voz alta: “Rusticus é meu pai e Flávia é o nome de minha mãe”. O Bispo, ouvindo estas palavras, caiu como fulminado aos pés de Goar, pedindo-lhe que perdoasse a falta. São Goar ficou muito pesaroso de ter, aliás, involuntariamente, concorrido para a descoberta do pecado do Superior e próximo. O Bispo renunciou à diocese e retirou-se da vida pública, entregando-se a obras de penitência.

O fato chegou aos ouvidos do rei Sigeberto. Este mandou chamar à sua presença o santo eremita, exigindo do mesmo que lhe narrasse o ocorrido.

Goar, porém, querendo salvar a reputação do Bispo, nada disse. Sigeberto, então, para exonerar a consciência do santo sacerdote e para mostrar que tudo já sabia, contou o que se tinha dado, pedindo, apenas, que Goar lhe dissesse se as informações que tinha eram concordantes com a verdade. São Goar respondeu: “Como Vossa Majestade já contou tudo, nada mais tenho a acrescentar”.

O rei mostrou-se tão edificado com esta resposta, que ofereceu a Goar a dignidade episcopal. Vendo que também era vontade do povo tê-lo por Bispo, Goar pediu a Deus que interviesse, porque não se julgava merecedor de tão alta dignidade.

Deus ouviu a oração do seu servo e mandou-lhe uma grave doença que durante sete anos o prendeu à cama. Passados esses sete anos, o rei renovou o pedido. Goar respondeu que só deixaria a cela quando fosse levado ao cemitério. Assim sucedeu. Acometido de outra doença, que o prostrou durante quatro anos e meio, o santo veio a falecer em 575. Quão preciosa foi essa morte aos olhos do Altíssimo, provam os inúmeros milagres, que lhe tornaram glorioso o túmulo.

Os restos de São Goar acham-se na Igreja do mesmo nome. Durante séculos, foi São Goar um dos santuários mais célebres da Renânia e lá iam peregrinações da Bélgica e da Suíça. Na Reforma a população de São Goar passou a ser protestante. A cidade, porém, conservou o nome do santo padroeiro. Muitos dos habitantes voltaram à religião católica.

Embora seja protestante ainda a Igreja de São Goar, a glória de Deus e do santo é anunciada pelos sinos, dos quais um traz a inscrição: “São Goar, confessor do Senhor, excelso sacerdote, benigno protetor, defendei-nos, que somos pecadores”.

São Goar é padroeiro dos hoteleiros, dos navegantes, dos oleiros e vinhateiros. É invocado em rasos de defesa do bom nome.

Reflexões

É digna de reparo a resposta que São Goar deu ao rei, que queria saber que castigo recebera o Bispo. O exemplo do Santo é a verificação da doutrina cristã, que aconselha o maior cuidado no julgamento das faltas do próximo, embora verdadeiras e reais. A denúncia de faltas alheias é lícita e pode até ser necessária e obrigatória, contanto que seja feita com reta intenção, e a pessoas que, pelo cargo de superior, podem e devem corrigir e castigar o delinquente. Pôr a descoberto crimes ocultos, relatá-los só a título de curiosidade e para causar sensação e, além disso, descobri-los a pessoas que nenhuma influência disciplinar ou educativa têm sobre o pecador — é reprovável, é difamação, é pecado e pecado grave, se o assunto apresenta alguma gravidade. Falar de faltas públicas não é difamar o próximo, mas é, muitas vezes, faltar à caridade.

O verdadeiro cristão, que quer merecer o título honroso de discípulo de Cristo, abstém-se completamente da censura e faz um contrato com a língua, de nunca dizer palavra que possa ofender a caridade.

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Na Judeia o profeta Isaías, dos grandes profetas o primeiro. É chamado o Evangelista do Antigo Testamento por causa das profecias messiânicas. Com razão se lhe outorga o título de príncipe dos profetas. Como nenhum outro levantou seu protesto contra a corrupção dos costumes, que teve seu início no mau exemplo da corte, formada pelo ímpio rei Acaz, o pior de todos que ocuparam o trono de Judá. Horrível martírio ditou-lhe o rei Manassés. Começando pelo alto da cabeça foi seu corpo serrado no meio. Isaías morreu com 80 anos de idade. 681 a.C. Dos quatro animais apocalípticos, aplicados aos grandes profetas, cabe-lhe o leão.

Em Fiesole, na Toscana, o martírio de São Rômulo, discípulo do apóstolo São Pedro.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii