06 de fevereiro — Santa Doroteia, Virgem e Mártir
06 de fevereiro — Santa Doroteia, Virgem e MártirExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
A Igreja festeja hoje o dia de uma das mais gloriosas esposas de Jesus Cristo: A vida e ainda mais a morte desta Santa é uma prova da verdade que vemos estampada na história da Igreja, que Deus se serve de preferência da fraqueza para confundir os fortes. É a mulher cristã, que destinada a esmagar a cabeça de Satanás, dá provas de um heroísmo que dificilmente encontramos entre os homens. Daí o ódio que Satanás vota à mulher cristã, ódio este, fundado no medo e na convicção da impotência.
Doroteia, filha de um senador romano, nasceu em Cesareia, na Capadócia. De educação distintíssima, Doroteia aliava à sua riqueza dotes invejáveis, naturais e sobrenaturais. Tinha o governador Fabrício recebido ordens imperiais para exterminar a religião cristã. Uma das primeiras vítimas foi Doroteia. Embora pouco aparecesse em público, ela era uma verdadeira apóstola de Cristo na atividade que desenvolvia entre os cristãos, animando-os à constância na luta contra os perseguidores. Citada perante o governador, este sem delongas exigiu que sacrificasse aos deuses. Pronta lhe veio a resposta: “Sendo cristã, só servirei a Deus, Rei do Céu e da Terra, não tendo para os deuses senão desprezo”.
Na discussão que seguiu a estas palavras, Fabrício, cativo da formosura de Doroteia, fingiu querer sujeitá-la à tortura, para torná-la mais condescendente. Doroteia, porém, disse aos algozes: “Que esperais? Fazei o que é vosso dever. Sofrer pelo amado do meu coração é delícia!” Fabrício, vendo que não conseguia seu intento, entregou a Mártir a duas irmãs, Cresta e Calixta, que, há pouco, haviam negado a fé. O resultado foi, que as duas apóstatas, movidas pela argumentação e pela oração da Santa, se arrependeram da sua falta e se apresentaram a Fabrício, declarando fidelidade a Cristo até à morte. A recompensa foi a condenação das duas irmãs à morte. Amarradas uma a outra, foram ambas queimadas vivas e metidas em enxofre fervente. Doroteia, longe de lastimar a sorte das suas companheiras, felicitou-as pela palma do martírio. Ela mesma foi estendida sobre o instrumento da tortura, barbaramente açoitada e de mil modos atormentada. Como que em desprezo das suas dores, Doroteia louvava a Deus em altas vozes e demonstrava grande satisfação. Perguntada por Fabrício porque se alegrava, respondeu-lhe: “Hoje é o dia mais belo da minha vida; pois, arrebatei duas irmãs das garras do demônio e ganhei-as para Cristo; regozijo-me por isto com os Anjos e Santos. Meu coração arde de desejo de estar com meu Esposo divino. Ah, Fabrício!, és tão inepto como teus deuses!”. Fabrício, fora de si, diante desta ofensa, condenou a santa Mártir à morte pela espada. A donzela, ouvindo a sentença, exclamou jubilosa: “Graças a meu Deus, que me chama às núpcias eternas!”. Era inverno e fazia muito frio. A natureza apresentava um aspecto triste e das árvores se viam os galhos desfolhados e secos. Em caminho para o lugar do suplício, Doroteia disse às amigas que a acompanhavam: “Como é triste a Terra, e sem vida: Feliz de mim, que vou para uma terra onde sopram ares mais suaves, onde é mais claro o brilho do sol, onde verdejam os campos, brotam fontes cristalinas, onde, no jardim de meu Esposo vicejam as flores, desabrocham os lírios em toda a sua formosura, se abrem as rosas em todo o seu fulgor e, amadurecem os frutos do Paraíso”.
Apanhou estas palavras Teófilo, jovem advogado, espírito folgazão e mordaz que não deixava passar ocasião, sem dizer uma sensaboria sobre a “superstição” dos cristãos. Disse à Doroteia: “Escuta, esposa de Cristo, manda-me algumas daquelas rosas e maçãs dos jardins e pomares de teu Esposo, de quem estás a falar tanto”.
Doroteia respondeu-lhe, embora lacônica, mas resolutamente: “O que desejas, hoje mesmo o terás; não duvides, que t’o mandarei”. Chegada ao lugar do suplício, Doroteia se ajoelhou e recomendou sua alma a seu divino Esposo. Enquanto estava rezando, apareceu-lhe um Anjo, em figura de um jovem formoso, que lhe ofereceu três maçãs belíssimas e outras tantas rosas de um aroma delicioso. Vendo o presente, Doroteia disse ao Anjo: “Peço-te o favor de levares isto a Teófilo e diz-lhe que são as frutas e flores que Doroteia lhe prometeu mandar do jardim do divino Esposo”. Dito isto, entregou-se a seu algoz que, com um único golpe de espada, pôs termo à existência terrestre da Santa.
Teófilo recebeu o presente de Doroteia na hora em que, rodeado de seus amigos, contava sua grotesca pilhéria. Qual não foi sua admiração e espanto, ao ter em suas mãos o penhor da promessa da santa Mártir: maçãs maduras e rosas em tempo de inverno! De mofador, tornou-se admirador do cristianismo e, esclarecido por uma luz divina, exclamou: “Não existe realmente outro Deus a não ser o dos cristãos. De hoje em diante só a Ele adorarei”. De fato, converteu-se.
Tendo Fabrício notícia desta conversão, mandou chamar Teófilo à sua presença, para em pessoa ter confirmação do ocorrido. Teófilo, de fato, declarou ser sua decisão absoluta, em seguir o exemplo de Doroteia e abandonar o culto dos deuses, ainda que lhe custasse a vida. Custou-lhe a vida, pois Fabrício o condenou à morte pela espada. A pena foi executada imediatamente e um martírio de pouca duração levou Teófilo à bem-aventurança eterna. Pouco antes da execução, Fabrício disse-lhe: “Poupa, desgraçado, a tua vida!”, ao que Teófilo respondeu: “E tu, mais desgraçado que eu, tem pena de tua alma. Pouco importa o corpo, contanto que salve a minha alma e entre no gozo de meu Deus”.
As relíquias de Doroteia e Teófilo acham-se em Roma, na Igreja consagrada à memória dos dois mártires.
Reflexões
1. O mau exemplo de suas irmãs e os maus conselhos de muitas outras pessoas não conseguiram afastar Santa Doroteia da lei de Deus. Muitos são os homens que, vendo-se rodeados de maus exemplos, os seguem e imitam, embalando a consciência com desculpas vãs, como se Deus não reparasse nas faltas cometidas no meio de um dilúvio de pecados. À justiça humana escapam muitos delitos e grande é o número dos criminosos que não experimentaram e nunca experimentarão o rigor dos tribunais. A Deus, porém, são patentes todos os pecados, os individuais, como os da coletividade, e cada um deve prestar contas à Sua justiça. Grande foi o número dos maus Anjos. Todos eles receberam castigo, e nenhum dos que se revoltaram contra Deus, ficaram no Céu. No Dilúvio, foi exterminada a humanidade toda, com exceção dos membros da piedosa família de Noé. Os habitantes de Sodoma e Gomorra pereceram todos, nas chamas da divina vingança. Assim foi, assim será sempre. Nenhum daqueles que contra Deus operam, praticando o mal, se esconderá dos raios de Sua justiça. Se andares com eles, com eles receberás tua paga. O grande número dos pecadores, longe de estatuir uma atenuante, mais provoca a ira de Deus, porque o pecado cometido por um número maior de homens, maior ofensa a Deus estabelece.
2. Os castigos de Deus são terríveis e eternos. Lembra-te desta verdade, principalmente quando a ocasião de pecar for grande e próxima. De pouco valor e efêmero é o que o demônio e o pecado te oferecem e prometem. As ameaças divinas, porém, são terríveis e terminam no fogo eterno. O prazer que o pecado proporciona, é curto e fugaz; mas as penas por ele provocadas e causadas são terríveis e sem fim.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩