06 de abril — São Guilherme, Abade

06 de abril — São Guilherme, Abade
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Guilherme nasceu em Paris, no ano de 1105, de família nobre, e foi, criança ainda, confiado aos cuidados de seu primo Hugo, que era abade de St. Germain. Em tão boa escola, era natural que Guilherme, dotado de boa inteligência, fizesse rápidos progressos não só nas ciências, como também na virtude. Tendo alcançado a idade canônica, foi recebido no cabido da Igreja de São Pedro e São Paulo, chamada também de Santa Genoveva. Infelizmente, não encontrou entre os membros do cabido o espírito que devia reinar numa coletividade deste gênero. Os cônegos, apesar de sacerdotes, levavam uma vida pouco digna de sua alta missão. Guilherme, notando isto, não se associou aos maus elementos; pelo contrário, continuou as práticas de vida religiosa, como as tinha adquirido no convento, não se deixando abalar pelo escárnio e pela crítica zombeteira dos seus colegas. O bom procedimento e a vida exemplaríssima de Guilherme tanto os incomodou, tanto os exasperou, que puseram em jogo todos os meios, para eliminá-lo da colegiada. Guilherme sofreu com paciência as injustiças que lhe eram feitas, e feliz se sentiu, quando lhe foi oferecida uma prebenda fora da cidade, onde, sem causar incômodo a outros, pôde dedicar-se a uma vida só de Deus.

Aconteceu que aqueles cônegos, por decreto do Papa Eugênio III e por ordem do rei Luís VII, foram expulsos e substituídos por cônegos agostinianos. Odo, o abade desta nova família monástica, dirigiu amável convite a Guilherme, para que se incorporasse na Ordem Agostiniana. Embora fosse muito inclinado à vida religiosa, Guilherme externou suas dúvidas sobre o passo que Odo lhe aconselhava, sendo a maior de abandonar uma colocação tão rendosa, como possuía. Odo, ao ouvi-lo falar desta dificuldade, apontou para o crucifixo e disse a Guilherme: "Deus, que por nosso amor deixou o Céu, não merece que, por seu amor, abandonemos as coisas deste mundo?" Esta resposta, inesperada como lhe veio, confundiu o santo homem, o qual, caindo de joelhos, pediu perdão do seu apego desordenado e aceitou o convite do Superior. Guilherme entrou na Ordem Agostiniana e foi, como religioso, modelo perfeito de santidade para todos.

Algum tempo depois, apareceu-lhe Nosso Senhor Jesus Cristo, em sonho, e disse-lhe: “Guilherme, é minha vontade que procures uma terra longínqua e desconhecida. Muitas tribulações e perseguições te esperarão, mas tenha ânimo; eu estarei contigo, e quando estiveres bastante idoso, te chamarei à eterna bem-aventurança. Guilherme, intimamente consolado com a garantia da eterna salvação, fez o protesto de seguir para onde a vontade divina o quisesse, e de tomar sobre si tudo que a divina Providência determinasse; mas não sabia que país era aquele, que reclamava sua presença. Esta incerteza desapareceu quando recebeu de Absalão, Bispo de Roskilde, na Dinamarca, o convite para o cargo de Visitador, no convento dos cônegos agostinianos, em Eskilsø, na ilha Zeelandia.

Com o consentimento dos Superiores, seguiu, com três companheiros, para o lugar que a obediência lhe tinha indicado.

O Bispo Absalão recebeu-o de braços abertos. Não tão cordial foi a recepção que teve no convento. Os cônegos que, havia tempo, não mais observavam a regra da sua Ordem, não podiam olhar com bons olhos o visitador, a quem outro motivo não podia ter trazido, senão o de reformar os costumes dos religiosos e levá-los novamente ao caminho do seu dever. Mil dificuldades opuseram à obra da reforma, mil dissabores causaram ao visitador.

Em sua irritação e malvadez, chegaram ao ponto de forjar o plano de vendê-lo como escravo ou fazê-lo desaparecer. Guilherme não se deixou intimidar. Com firmeza, insistiu na fiel observância da regra e na abolição de abusos que se tinham insinuado na Comunidade. O que exigia dos outros, ele mesmo observava com todo o rigor, não ligando importância nenhuma ao desprezo, às ameaças e maus tratos de que era alvo da parte dos religiosos. Ao mesmo tempo, procurou, com muita prudência, com modos afáveis, ganhar a simpatia ou pelo menos o respeito dos confrades rebeldes. Estes, vendo de um lado o bom exemplo do seu Superior, de outro lado sua caridade, sua condescendência, abandonaram pouco a pouco sua atitude hostil e tornaram-se dóceis e obedientes. Guilherme teve a satisfação de ver-se diante da necessidade de fundar um outro convento, que se encheu de bons religiosos.

Noventa e um anos contava Guilherme, quando teve em sonho a visão de um venerável ancião, que lhe disse: “Viverás ainda sete”. Guilherme, na suposição de se tratar de um aviso de morte próxima, preparou-se para deixar o mundo. Sete dias passaram e nenhum sinal da morte aparece. Quando assim se foram sete semanas, sete meses e no fim do sétimo mês, Guilherme se sentiu forte e bem-disposto, não lhe parecia mais fora de dúvida que aqueles sete significaram sete anos.

No sétimo ano, adoeceu gravemente. Seu corpo cobriu-se de úlceras e o santo servo de Deus sofreu horrivelmente. Como nas perseguições, também nos dias da doença, Guilherme conservou sua paciência imperturbável. No meio das suas dores, dizia, como Jó: “Se recebemos de Deus benefícios, não devemos aceitar de suas mãos também o que nos é desagradável? Faça-se o que o Senhor determinar. Bendito seja o nome do Senhor!”

Guilherme morreu santamente em 6 de abril de 1203, no dia da Páscoa, depois de ter recebido os Santos Sacramentos.

Papa Honório III canonizou-o no ano de 1224.

Reflexões

Não só as coisas agradáveis vêm de Deus, como também as doenças, sofrimentos, pobreza, etc. "O bem e o mal, vida e morte, pobreza e riqueza — tudo tem sua origem em Deus", diz o Sábio do Antigo Testamento. (Eclesiástico 11, 14). É preciso, porém, que ponderemos o seguinte: Sofrimentos que nos vêm, sem que haja a concorrência de um pecado, partem diretamente de Deus. É Ele que nos manda, para o nosso bem. Se em companhia dos sofrimentos aparecer um pecado, como, por exemplo, nas perseguições, ou como só é acontecer nos negócios do mundo, não é o pecado, como tal, que Deus intencionou que se praticasse. Vontade sua, porém, é que soframos com paciência. Deus não quer o pecado, que o ofende, mas também não cerceia a livre vontade dos homens, que o cometem. Assim é que devemos aceitar resignados as contrariedades, que Deus permite que nos surjam, do pecado dos homens. Assim procediam os Santos do Antigo Testamento, como Jó; assim procedia São Guilherme, imitando desta forma o próprio Jesus Cristo, que chamou sua Paixão e Morte um cálice, que seu Pai lhe dera. "Não beberei o cálice, que meu Pai me deu?" (João 18, 11).

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312