05 de março — Santas Perpétua e Felicidade, Mártires

05 de março — Santas Perpétua e Felicidade, Mártires
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Eis dois vultos eminentes entre as heroínas do cristianismo da Igreja dos primeiros séculos, dignas de louvor e admiração, por causa da constância e firmeza imperturbável na fé. Seus martírios coincidem com o governo do imperador Severo, e tiveram por teatro provavelmente a cidade de Cartago.

Perpétua, de família nobre, contava apenas 22 anos. Seus pais eram vivos ainda, quando viram morrer sua filha. De dois irmãos que teve, um era catecúmeno e o outro menor tinha morrido vitimado por um cancro no rosto. Perpétua era a predileta de seu pai, ainda pagão. Casada havia pouco tempo, tinha um filhinho de poucos meses.

Felicidade era de família menos nobre. Jovem, casada, e achava-se no sétimo ou oitavo mês de gestação, quando o juiz romano a citou perante o tribunal.

Quando o pai de Perpétua soube da prisão de sua filha, sem demora a procurou e tratou de afastá-la da religião de Cristo. Perpétua, porém, declarou-lhe que era cristã e como cristã havia de morrer. Poucos dias depois, recebeu, com outros catecúmenos, o Santo Batismo. Uma revelação de caráter sobrenatural não a deixou em dúvida sobre seu futuro, que era a morte gloriosa pela fé.

Na véspera do seu julgamento, teve outra visita de seu pai, o qual, pela segunda vez, tentou mudar a resolução da filha. “Minha filha — disse-lhe ele — tenha dó das minhas cãs; compadece-te de teu pai, se me queres dar a honra deste nome; não envergonhes a minha velhice perante a sociedade. Lembra-te do meu desvelo e do amor que te distinguiu entre os teus irmãos. Lembra-te de teus irmãos, de tua mãe e de teu filhinho, que sem ti não poderá viver. Curva a tua altivez e não sejas temerária; não vês que tua teimosia será a nossa perdição? Com que cara poderemos comparecer em público, se te acontecer uma desgraça?” Tendo dito isto, beijou-lhe as mãos, prostrou-se aos seus pés, chamando-a não de filha, mas de soberana. Foram momentos terríveis para o coração da filha. Vendo-se colocada entre o dever e o amor filial, consolou o pai com a lembrança da divina Providência.

No dia seguinte, as duas companheiras de martírio foram conduzidas à presença do juiz Hilariano e intimadas a sacrificar às divindades, intimação que resolutamente rejeitaram. Aludindo ao nome de Felicidade, o juiz perguntou: “Onde está a felicidade?” Esta respondeu: “Neste mundo ela não existe”. Interpelada sobre sua origem e família, informou: “Não tenho pai nem mãe, e os meus companheiros de martírio, que vês junto de mim, são os meus parentes mais próximos”.

O juiz chamou-lhe a atenção sobre o seu estado de gravidez, pedindo-lhe que tivesse pena do fruto das suas entranhas. “Sou cristã, — respondeu Felicidade — e como tal obrigada a desprezar tudo por amor de Deus. Faze o que bem entenderes, jamais me levarás a prestar homenagens aos deuses”.

Perpétua teve-se com a mesma firmeza. Outra vez, apresentou-se o pai, que, de combinação com o juiz, apelou novamente para os seus sentimentos filiais e maternais. Imóvel como um rochedo no mar, Perpétua confessou sua fé inabalável em Jesus Cristo. Vendo baldados todos os esforços em demover as Mártires das suas ideias, o juiz ordenou uma aplicação crudelíssima de flagelação. Depois de alguns dias, deviam ser atiradas às feras. Dúvidas surgiram, por causa do estado de Felicidade, pois as leis romanas proibiam a execução de mulheres em semelhantes circunstâncias. Perpétua e suas companheiras de martírio pediram a Deus que desse solução ao caso. Felicidade deu à luz uma criança, que foi entregue aos cuidados de uma irmã. Quando Felicidade, em seus sofrimentos, se desabafava em altos gemidos, um dos carcereiros lhe disse: “Se não tens força para sofrer isto agora, que será de ti na presença das feras?” Felicidade respondeu-lhe: “Agora estou sofrendo, entregue a mim mesma; naquele dia, porém, estará em mim outro alguém, que sofrerá em meu lugar, porque para Ele é que sofrerei”. Estas palavras significativas veem-se realizadas na vida de todos os mártires. Quem sofre e dá a vida por Deus e pela fé experimenta na hora suprema uma força e um sossego, que os pecadores não podem imaginar.

Estava marcado para a execução o dia 7 de março, aniversário do imperador Geta. Longe de aparentar tristeza, desânimo e temor, as santas mártires se apresentaram com semblantes alegres, como se fossem a um festim. Felicidade, poucos dias antes tão fraca e abatida, qual uma heroína triunfadora, foi ao encontro das feras que a esperavam na arena. O porte nobre de Perpétua causou admiração geral. À intimação de envergar vestimentas sacerdotais pagãs, como era de costume no anfiteatro, as mártires opuseram-se energicamente. Perpétua, fazendo-se intérprete dos sentimentos dos seus companheiros, disse: “Estamos aqui de livre vontade. Morremos para salvar a liberdade da nossa fé. Morremos, sim, mas com a condição de não sermos obrigadas a seguir as vossas praxes supersticiosas. É este o contrato que fizestes conosco”. Esta declaração franca e corajosa envergonhou os pagãos, que não importunaram mais as Mártires com semelhantes imposições.

Passando perto do juiz Hilariano, disseram-lhe: “Tu nos condenaste; pois fica sabendo que Deus te julgará”. A multidão, irritada com esta suposta injúria, exigiu em altos gritos um castigo exemplar, que foi imediatamente aplicado em forma de vergastadas. Afinal, foram conduzidos à arena.

A primeira vítima foi Saturo, atirado a um leopardo, que de tal maneira o ofendeu que foi literalmente batizado em seu próprio sangue. Suas últimas palavras dirigiram-se ao carcereiro Pudente, dizendo-lhe: “Adeus, meu irmão, lembra-te de minha fé. Tenha coragem”. Dizendo isto, tirou do dedo um anel, deu-lhe como lembrança de seu martírio e morreu.

Perpétua e Felicidade, em obediência ao costume, deviam ser despidas e atiradas a uma vaca brava. O povo, porém, tendendo a circunstâncias especiais, exigiu que se lhes desse algum agasalho.

Perpétua foi a primeira vítima da fera. Vendo que o pano que lhe haviam dado, para resguardá-la da nudez, havia-se rasgado, cobriu-se de novo. Se preocupava mais com a virtude do que com o martírio. Também se esforçou para pôr em ordem o cabelo desgrenhado e desalinhado, pois achava não ser conveniente a uma Mártir apresentar-se naquele estado, que parecia indicar tristeza e desânimo. Depois, pôs-se em pé e estendeu a mão à Felicidade, para esta se levantar também. Estavam assim de pé as duas heroínas, e os algozes não se atreveram mais a atirá-las novamente às feras, mas conduziram-nas a outro lugar, onde deviam ser executadas pela espada. Ao lado de Perpétua ia um catecúmeno. Como acordando de um profundo sono ou voltando a si, depois de um êxtase, olhou para as pessoas que estavam perto, como alguém que está fora de si e perguntou: “Onde está a vaca brava? Não seremos mais atirados a ela?” Disseram-lhe que já tinham combatido com a fera. Mas só deu crédito, quando lhe mostraram no seu corpo os sinais do cruel encontro e quando o catecúmeno Rústico lhe confirmou o que os outros haviam dito.

Havia um lugar no anfiteatro, onde costumavam ser conduzidas as vítimas que sobreviviam ao encontro com as feras. Gladiadores as esperavam, para dar-lhes o golpe de misericórdia com o punhal ou estrangulá-las. Para lá seguiram Perpétua, Felicidade e seus companheiros. O povo, porém, ávido de ver-lhes a morte, reclamou que fossem executadas na arena. Ouvindo a vozeria tumultuosa, as Mártires se levantaram do chão, onde estavam assentadas, e se dirigiram bem ao centro do anfiteatro.

Pela última vez, se abraçaram e beijaram, coroando assim o seu martírio com caridade e amizade. Sem dizer palavra, sem dar um grito ou gemido, todas caíram sob os golpes dos verdugos. Perpétua, porém, sentindo-se malferida, soltou um grito, agarrou a mão trêmula do assassino inexperiente e levou-o à garganta. No mesmo momento, caiu mortalmente ferida, com a carótida cortada. Esta cena deu-se no dia 7 de março, na cidade de Cartago. No quinto século, foram os corpos das Mártires encontrados na Catedral da mesma cidade.

Reflexões

Que exemplo heroico de virtude não vemos no martírio de Santa Perpétua e de sua companheira Felicidade! Que necessidade elas tinham de se sujeitar a sofrimentos tão atrozes, numa idade em que a natureza convida a gozar! Fácil lhes era fugir da perseguição, fácil evitar o bárbaro martírio, que as vitimou. Mas nenhum momento hesitaram em fazer o sacrifício de sua vida, dando a Deus a mocidade, com todos os bens e prazeres que do mundo poderiam esperar. Todas as idades pertencem a Deus; em todas as idades, o homem deve servir a Deus. Não é generoso, nem justo para com Deus, quem dá ao mundo os dias da mocidade, reservando-lhe apenas o fim da vida. Quem não aprendeu a ser piedoso e virtuoso na infância e na mocidade, dificilmente o será na idade madura. Se Jesus Cristo sacrificou sua infância e mocidade por nosso amor, não merece Ele que lhe retribuamos seu amor com nossa gratidão, santificando nossa mocidade, consagrando-a ao seu santo serviço?

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312