05 de junho — São Bonifácio, Bispo e Mártir

05 de junho — São Bonifácio, Bispo e Mártir
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

São Bonifácio, o grande apóstolo da Alemanha, era natural da Inglaterra. No batismo recebeu o nome de Winfrid, que mais tarde (pelo Papa Gregório II) foi mudado em Bonifácio.

Bonifácio nasceu no ano de 680, em Kirton, no Devonshire. Tendo apenas cinco anos, manifestou o desejo de estudar num convento e receber instrução religiosa pelos sacerdotes. O pai se opôs à esta vontade do filho. Ficando, porém, gravemente doente e atribuindo a enfermidade à sua resistência aos desejos deste, e, portanto, considerando-a um castigo de Deus, deu seu consentimento e ficou curado imediatamente. Não só achou Winfrid o que procurava, a instrução na religião e nas ciências: como sentisse uma forte inclinação para a vida monástica, entrou na Ordem Beneditina, à qual seus mestres pertenciam. Tendo alcançado a idade de 30 anos, recebeu o sacramento da Ordem. Grande deve ter sido a estima em que o tinham seus confrades; pois estes, unanimemente, o elegeram para sucessor do Abade, que havia falecido. Bonifácio, porém, não aceitou a dignidade, que a confiança dos seus confrades quis conferir-lhe. Alegando um forte desejo de pregar o Evangelho aos pagãos, obteve a licença de, com alguns companheiros, se dirigir à Roma, para se pôr à disposição do Sumo Pontífice. Gregório II recebeu-o mui cordialmente e deu-lhe amplas faculdades de missionário apostólico. Bonifácio, seguindo um impulso de seu coração, escolheu a Alemanha para campo de sua missão. De Roma dirigiu-se diretamente à Baviera e Turíngia, onde a fé cristã se achava em completa decadência, devido à grande familiaridade que reinava entre cristãos e pagãos.

Seis meses trabalhou Bonifácio na Turíngia, pregando, instruindo e chamando os cristãos à emenda de sua vida e à reforma dos seus costumes. O resultado foi mui consolador; pois a Turíngia toda abandonou a idolatria e voltou às práticas da religião cristã.

Antes da sua viagem à Roma, Bonifácio tinha iniciado sua pregação na Frígia. O resultado, porém, era tão pouco animador que foi preciso interromper sua missão. Chegou, entretanto, a notícia da morte de Radbod, duque da Frígia, o homem que mais se opusera à pregação da doutrina cristã. Removido este obstáculo, Bonifácio achou favorável a ocasião de recomeçar seu trabalho naquele país.

Obedecendo à uma voz interior, chamando-o para o apostolado da Frígia, dirigiu-se a Utrecht, onde, em companhia de Willibrordo, primeiro bispo daquela localidade, passou três anos pregando e trabalhando, na cidade e fora.

O resultado foi a completa extinção da idolatria naquela região e um florescimento belíssimo da religião de Cristo. Willibrordo, vendo as grandes aptidões de Bonifácio, manifestou o desejo de tê-lo como sucessor, na direção da diocese. Bonifácio, porém, alegando ter do Papa recebido a missão de pregar o Evangelho na Alemanha, fugiu de Utrecht e dirigiu-se para Hessen. Dentro de pouco tempo, milhares de idólatras largaram suas superstições e abraçaram o cristianismo. Tão abundante era a messe, que Bonifácio viu-se impotente para a recolher sozinho. Chamou, então, da Inglaterra, em seu auxílio, missionários e freiras. Construiu igrejas e conventos, e abriu escolas.

Num relatório que mandou à Roma, expôs o estado e o progresso da sua missão.

Sumamente admirado pelos grandes resultados obtidos na cristianização da Alemanha, o Papa Gregório II desejou conferenciar pessoalmente com Bonifácio. Na sua segunda viagem à Roma, o missionário foi recebido pelo representante de Cristo com grandes honras e foi nesta ocasião que Gregório lhe conferiu a sagração episcopal, mudando seu nome de Winfrido para Bonifácio. Bonifácio fez nas mãos do Papa o juramento de defender sempre a pureza da fé e a unidade da Igreja e voltou para a Alemanha com uma recomendação pontifícia para Carlos Martello.

Bem enraizada estava a idolatria nos corações dos alemães e precisou de muito trabalho, sacrifício e orações, para trazer aquela nação ao aprisco do Divino Pastor. Em Goslar existia um carvalho, árvore multissecular, de que os germanos pretendiam possuir a força de Odin e que gozava de grande veneração. Em vão São Bonifácio se esforçou para convencer o povo da fraqueza dos deuses e da falsidade do culto de Odin. Muito menos conseguiu que os idólatras deixassem de prestar culto àquele carvalho. O pavor deles se apoderou quando um dia viram São Bonifácio se dispor a derrubar o célebre santuário nacional. Nem pedidos, nem ameaças puderam demover o Apóstolo do seu intento. Os germanos já previam sua morte certa, e apavorados fugiram do lugar, para não serem alcançados pelo raio fulminante de Odin. São Bonifácio só uma machadada vibrou contra o tronco gigantesco do carvalho, quando ele se abriu em quatro partes, que com fragor caíram por terra. Este milagre abriu aos pagãos os olhos e, convencidos da impotência dos seus deuses, abandonaram a idolatria. A madeira do célebre carvalho serviu para a construção de uma igreja que São Bonifácio dedicou a São Pedro. Outra igreja foi construída na Turíngia, lugar onde São Bonifácio teve uma aparição de São Miguel, que o animava a continuar corajosamente nos seus trabalhos apostólicos.

Negócios importantes obrigaram-no a ir, pela terceira vez, à Roma. Gregório III recebeu-o mui paternalmente, deu-lhe grandes faculdades e privilégios e revestiu-o da autoridade de núncio apostólico. De volta para a Alemanha, demorou-se na Baviera, onde criou seis bispados. Célebres tornaram-se os conventos de Fritzlar Erfurt, Amöneburg e Fulda, todos eles fundados por São Bonifácio.

Estes conventos não eram só casas de oração, mas eram outras tantas escolas e seminários, onde se preparava a falange gloriosa de futuros missionários.

Em 747 a Santa Sé incumbiu a São Bonifácio da administração da arquidiocese de Mogúncia. Durante sete anos foi Pastor daquele rebanho, quando em 754 soube que grande parte dos Frisões tinham abandonado a fé e voltado à antiga idolatria. Com consentimento do Santo Padre, entregou os negócios de sua diocese a seu discípulo Lullo, e com alguns companheiros corajosos e dedicados, entre eles Eobano e Adelar, fez a longa viagem à Frísia. Sua chegada foi abençoada por Deus. Ao verem seu antigo missionário, muitos Frisões fizeram a sua conversão. Imensa foi a satisfação de São Bonifácio, pois uma messe tão abundante era além das mais lisonjeiras esperanças. Para confirmar na fé o seu rebanho, Bonifácio marcou um dia, em que todos deviam receber o sacramento do Crisma. Não havia Igreja que comportasse os fiéis, tão enorme era a concorrência dos que desejavam ser crismados. Foram, então, feitas grandes toldas à maneira de acampamento, onde o povo se acomodasse. Chegou o dia do Crisma, dia também da morte do grande Apóstolo. O inimigo de Deus não pode ver de bons olhos a obra do bispo-missionário. No momento em que este e seus companheiros se dispunham a administrar o sacramento da Confirmação, apareceu um bando de facínoras, a mando do sumo sacerdote pagão, para assassinar os servos de Deus. Bonifácio, percebendo seu maligno intento, deu graças a Deus por ter-lhe reservado morte tão honrosa e gloriosa e animou os seus companheiros a aceitarem a morte por Cristo. Com os santos Evangelhos na mão, dirigiu-se aos seus inimigos, os quais não lhe deixaram tempo para pronunciar uma só palavra. Com o punhal no coração, o santo Bispo caiu por terra e expirou.

Com ele foram assassinados mais 52 dos seus companheiros.

Assim terminou a vida de São Bonifácio, do grande Apóstolo da Alemanha. Oxalá Deus conserve o espírito desse grande Santo e dê à Igreja sempre Bispos e sacerdotes que, como São Bonifácio, não procurem senão a propagação da fé, a renovação do espírito de Jesus Cristo em si, seus súditos, a santificação de sua própria alma e das almas que lhe são confiadas.

O corpo de São Bonifácio foi levado à Utrecht, onde passou para Mogúncia, para afinal achar sua sepultura definitiva em Fulda.

Muitos milagres se observaram no seu túmulo, fato que muito concorreu para que São Bonifácio se tornasse um dos Santos mais populares e venerados na Alemanha.

O rei Luiz I, da Baviera, erigiu na sua capital suntuosa basílica, em homenagem ao Apóstolo da Alemanha.

Desde muitos anos, é o túmulo de São Bonifácio o lugar onde os Bispos da Alemanha, de tempo em tempo, se reúnem para, sob os auspícios de seu grande modelo e protetor, realizar suas conferências episcopais.
 
Reflexões
 
Eis a vida de um grande missionário; vida cheia de trabalhos, de perigos, de perseguições, no meio de povos bárbaros, destituídos da cultura cristã. A tudo isto São Bonifácio se sujeitou e sofreu o martírio, para tornar-se cada vez mais semelhante a Jesus Cristo.

Que fazes tu no serviço de Deus e pela santificação de tua alma? Não és um escravo do egoísmo, do orgulho e do comodismo? Não acontece que a menor contrariedade que surge, te faz perder a paciência e os outros sofrerem? Se assim é, pouca ou nenhuma semelhança com Jesus tua alma apresenta. Para seres curado do egoísmo, do orgulho e do comodismo, não existe melhor remédio do que a contrariedade, a tribulação. Que estas não faltam, é uma prova de que Deus te ama; do contrário, te entregaria aos teus caprichos e pecados.

A tribulação é uma mestra excelente, que faz com que nos convençamos da nossa insuficiência e fraqueza e nos ensina a virtude.

Não há como a tribulação, que nos ensina a sermos humildes, despretensiosos e condescendentes. Quem não se humilha na tribulação, não achará outra ocasião. Na tribulação a alma acha seu Deus e nele põe sua confiança, como diz o Salmista: “Porquanto em mim esperou, livrá-lo-ei; protegê-lo-ei, porquanto conheceu meu nome. Chamará a mim e eu o ouvirei; com ele estou na tribulação e livrá-lo-ei e glorificá-lo-ei” (Salmos 90, 14-15).

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312