05 de janeiro — São Simeão Estilita
05 de janeiro — São Simeão EstilitaExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
É erro pensar que temos obrigação de imitar sempre o exemplo dos Santos. Em muitas coisas, não há dúvida, podem os Santos servir-nos de modelo e, um dos fins da leitura que fazemos da sua vida é animar-nos na prática das virtudes, como a humildade, a caridade, a penitência etc; virtudes que os Santos praticaram com heroicidade. O exemplo dos Santos deu a Santo Agostinho ânimo e coragem para continuar na prática do bem: “O que eles conseguiram, eu não o poderei conseguir?” O modelo perfeito, de todas as virtudes é Jesus Cristo, Nosso Senhor. Para entrarmos no céu, é preciso que sejamos imagens de Jesus, Filho de Deus. A imitação de Cristo é uma obrigação para todos, sem exceção. “Este é o meu Filho muito amado, a quem deveis ouvir” é a ordem de Deus Pai dirigida a todos nós. Ordem nenhuma recebemos para imitar aos Santos. De Jesus Cristo diz a Igreja: “Tu solus Sanctus” só vós sois Santo. Jesus é a luz e a verdade. Nos Santos pode haver e há imperfeições. Na vida dos Santos há exageros, e por esse motivo, nem sempre seus exemplos nos podem servir de modelo. Jesus Cristo quer ser e é modelo para todos os homens, de todos os tempos, o que se não pode afirmar quando se trata dos Santos. Só Jesus Cristo tem o direito de dizer: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”, e em outro lugar: “Se queres ser perfeito… vem e segue-me”. Quem dos Santos, e se fosse de todos o mais santo poderia como Jesus Cristo afirmar: “Quem me segue, não anda nas trevas, mas terá a luz da vida?”
Feito este preâmbulo, siga a leitura da vida de São Simeão Estilita. Natural da Síria, viu Simeão a luz do mundo em 390. Até a idade de quatorze anos sua ocupação era vigiar o gado no pasto. Ouvindo numa prática as palavras: “Bem-aventurados os tristes, porque serão consolados” surgiu em sua alma o desejo de servir a Deus na vida santa e perfeita. Para este fim entrou no convento. Só dois anos lá pôde ficar; seu modo de pensar e mais ainda sua inclinação à práticas de piedade e de penitência que aos monges pareciam exagerados e um tanto fora dos moldes da praxe comum, fizeram com que sua permanência se tornasse impraticável. Um outro convento abriu-lhe as portas. Dez anos passou Simeão no mais perfeito recolhimento, até que o abade o demitiu, porque receava uma perturbação da vida monástica como consequência das esquisitices do religioso, cuja práticas discordavam demais da regra por todos observada.
Simeão procurou então a solidão duma montanha muito alta, onde construiu uma cela sem coberta. Para que não lhe pudesse ocupar a ideia de se afastar daquele sítio, pôs no pescoço e no pé direito uma cadeia de ferro muito pesada, cuja outra extremidade estava presa na rocha. Não tardou que muito povo afluísse àquela montanha para ver e admirar o homem santo e dele receber conselhos e lembranças. As insistências suaves e convincentes do Bispo, Simeão concordou que lhe tirassem os grilhões. Como, porém, o afluxo das multidões o incomodasse, construiu uma coluna bastante alta, de 3 palmos de diâmetro, cercada de uma balaustrada de três palmos de altura. Esta coluna que não lhe dava comodidade alguma, nem lugar para se sentar ou deitar, serviu-lhe de morada durante sete anos. Corrido este tempo, Simeão fez uma coluna muito mais alta e nela morou 30 anos. O que nos parece extraordinário, extravagante em supremo grau, Deus aprovou, como comprova o dom de milagre que deu ao Santo. Da sua coluna Simeão desenvolveu uma atividade admirável para a salvação de muita gente, cristãos e pagãos. As conversões contavam-se aos milhares. Tribos inteiras de árabes e persas renunciaram à idolatria. Quem diria que a vida penitenciária do Estilita contribuísse como contribuiu poderosamente para o feliz êxito do Concílio de Éfeso, no qual os bispos orientais concordaram na condenação da heresia nestoriana?
Simeão morreu na idade de 70 anos e sobre sua coluna foi construída uma basílica.
Nota: Simeão teve muitos imitadores no Oriente, quase nenhum do Ocidente. O extraordinário e esquisito que há na vida desta classe de Santos tem sua explicação no caráter dos orientais que propende para manifestações de piedade exagerada, de penitências excêntricas e grotescas. A experiência ensina, que a perfeição pode ser adquirida por meios muito mais suaves que aqueles, que os estilitas empregaram, e que estes meios por mais esquisitos que sejam, nem por isso são os mais infalíveis. Em todo o caso é digna de admiração a força de vontade e constância heroica de que aqueles Santos deram prova.
Reflexões
1. Dos Santos, um cuja vida absolutamente não convida para ser por nós imitada, é São Simeão. O nosso tempo não tem compreensão para a maneira de penitência como São Simeão a praticou. No entanto a verdade que levou a São Simeão a servir a Deus dum modo aparentemente tão esquisito, nós a reconhecemos: é uma das verdades que tanto nos deve preocupar como preocupou o Santo de que tratamos: “Muitos são os chamados, mas poucos os eleitos” (Mateus XXII, 14). Muito deve nos interessar se pertenceremos aos eleitos ou se seremos excluídos da eterna bem-aventurança. Cristo ensina-nos dizendo: “Apertada é a porta e estreito o caminho que conduz à vida, e poucos são os que nele andam. Entrai pela porta estreita; larga é a porta e espaçoso o caminho, que leva à perdição, e muitos são os que nele se acham” (Mateus VII, 13). Palavras como estas, ditas por Nosso Senhor que não nos engana, devem necessariamente nos preocupar e nos convencer da necessidade absoluta de fazer penitência, se não numa coluna, como a praticou São Simeão, certamente de um modo que mais condiz ao meio em que vivemos. Longe de nos desanimar com a verdade proposta, temos bastante motivo de crer na certeza da nossa salvação. Se todos os homens sem exceção alguma são destinados para o céu; se todos igualmente de Deus recebem as graças suficientes para alcançar este fim; se está no poder de cada um fazer ou não o que Deus manda, claro está que também para nós é possível o prêmio eterno, que é a eterna glória. Perde-se quem quer. Procuremos estar sempre no meio daqueles poucos, de que Deus Nosso Senhor diz que se acham no caminho estreito que conduz à vida eterna.
2. O maior consolo na hora da morte deve ser uma vida passada na santidade e inocência do coração. Preciosa é a morte do justo! Preciosa porque traz à alma a felicidade há tanto almejada: a união eterna com Deus. A morte do justo é a rica colheita dos seus merecimentos, a recompensa de suas virtudes e sacrifícios feitos no serviço do Senhor. Não há mais nada que lhe possa arrebatar seu galardão. Com São Paulo pode o justo na hora da morte dizer: “Pelejei boa peleja, — acabei a minha carreira, guardei a fé. Pelo mais me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor justo Juiz me dará naquele dia” (II Timotéo IV, 7-8).
Seus merecimentos, suas virtudes, tudo que sofreu pelo amor de Deus, as vitórias sobre as tentações serão outros tantos mensageiros de paz que, rodeando o leito da morte, encherão de alegria e consolo a alma do justo. Sabendo-se na graça de Deus, confiadamente entrega-se à misericórdia divina, certo que terá na pessoa de Cristo não um juiz, mas um Salvador.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩