05 de fevereiro — Santa Águeda, Virgem e Mártir

05 de fevereiro — Santa Águeda, Virgem e Mártir
, ,

Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Santa Águeda é uma das mais gloriosas heroínas da Igreja primitiva, cuja intercessão é invocada diariamente no Cânon da Santa Missa. Natural de Sicília, pertenceu a uma das famílias mais nobres do país. De pouca idade ainda, Águeda consagrou-se a Deus pelo voto da castidade. O governador Quinciano, tendo tido notícia da formosura e grande riqueza de Águeda, acusada do crime de pertencer à religião cristã, mandou-lhe ordem de prisão. Águeda, vendo-se nas mãos dos perseguidores, exclamou: “Jesus Cristo, Senhor de todas as coisas, vós vedes o meu coração e lhe conheceis o desejo. Tomai posse de mim e de tudo que me pertence. Vós sois o Pastor, meu Deus; eu sou vossa ovelha. Fazei que seja digna de vencer o demônio”. Levada à presença do governador, este, vendo sua extraordinária beleza, ficou tomado de violenta paixão pela pobre cristã, à qual se atreveu a importunar com propostas indecorosas. Águeda, indignada, rejeitou suas impertinências desavergonhadas e declarou preferir morrer a macular seu nome de cristã. Quinciano aparentemente desistiu do seu plano diabólico, mas, para conseguir seus fins, mandou entregar a donzela a Afrodísia, mulher de péssima fama, na esperança de, na convivência com esta pessoa, Águeda tornar-se mais acessível. Enganou-se. Afrodísia nada conseguiu, e depois de um trabalho inútil de trinta dias, pediu a Quinciano que afastasse Águeda de sua casa.

Começou então o martírio da nobre siciliana. Tendo-a citado perante seu tribunal, apostrofou-a com estas palavras: “Não te envergonhas de rebaixar-te à escravidão do cristianismo, quando pertences à nobre família?” – Águeda respondeu-lhe: “A servidão de Cristo é liberdade e está acima de todas as riquezas dos reis”. A resposta a esta declaração foram bofetadas tão barbaramente aplicadas, que causaram forte epistaxes. Depois desta e de outras brutalidades, a santa Mártir foi metida no cárcere com graves ameaças de ser sujeita a torturas maiores, se não se resolvesse a abandonar a religião de Jesus Cristo.

O dia seguinte trouxe a realização. O tirano ordenou que a donzela fosse estendida sobre a catasta, seus membros fossem desconjuntados e o corpo todo queimado com chapas de cobre em brasa, e seus peitos atormentados com torqueses de ferro e depois cortados. Referindo-se a esta última brutalidade, Águeda disse ao juiz:

“Não te envergonhas de mutilar na mulher o que tua mãe te deu para dele tirares o alimento?”

Após esta tortura crudelíssima, Águeda foi levada novamente ao cárcere com ordem expressa, para que não lhe fosse administrado tratamento algum, a fim de curar suas feridas. Deus, porém, que confunde os planos dos homens, veio em auxílio de sua pobre serva.

Durante a noite apareceu-lhe um venerável ancião, que se dizia mandado por Jesus Cristo, para aliviá-la e curá-la. O ancião, que era o Apóstolo São Pedro, elogiou-a por causa da sua firmeza e animou-a a continuar impávida no caminho da vitória. A visão desapareceu e Águeda, com muita admiração, viu curadas todas as suas feridas. Cheia de gratidão, entoou cânticos, louvando a misericórdia e bondade de Deus. Os guardas, ouvindo-a cantar, abriram a porta do cárcere e, vendo a santa Mártir completamente curada, fugiram cheios de pavor. As companheiras de prisão de Águeda aconselharam-lhe a fuga, aproveitando a ocasião tão propícia para isto. Ela, porém, disse: “Deus me livre de abandonar a arena antes de ter segura em minha mão a palma da vitória”.

Passados quatro dias, foi novamente apresentada ao juiz. Este não pôde deixar de exprimir sua admiração, vendo-a completamente restabelecida. Águeda deu-lhe a explicação: “Vê e reconhece a onipotência de Deus, a quem eu adoro. Foi Ele quem curou minhas feridas e me restituiu os meus seios. Como podes, pois, exigir de mim, que o abandone? Não – não poderá haver tortura, por mais cruel que seja, que me faça separar-me de meu Deus”. O juiz não mais se conteve. Tremendo de ódio, e fora de si, deu ordem para que Águeda fosse despida e revolvida sobre cacos de vidro e brasas acesas. A santa Mártir sujeitou-se a mais esta ordem bárbara. De repente, sentiu-se um forte tremor de terra. Uma parede, bem perto de Quinciano, desabou e sepultou os amigos íntimos do juiz. O povo, presenciando isto, disse em altas vozes: “Eis o castigo que veio, por causa do martírio da nobre donzela. Larga a tua inocente vítima, juiz perverso e sem coração!” Águeda voltou ao cárcere e, chegando lá, pôs-se de joelhos e pediu a Deus nestes termos: “Senhor, que desde a infância me protegeste, extinguistes em mim o amor ao mundo e me destes a graça de sofrer o martírio, ouvi as preces de vossa serva fiel e aceitai a minha alma”. Deus ouviu a voz de sua filha e recebeu-a em sua glória no ano de 252.

Santa Águeda é invocada pelos cristãos contra o perigo de incêndio.
 
Reflexões
 
1. Trinta dias de contínua e calculada tentação não abalaram o ânimo e a virtude de Santa Águeda. Se nós procedêssemos sempre com a mesma prudência, se quiséssemos usar as mesmas armas, com que Santa Águeda alcançou a vitória sobre os inimigos que procuraram a perda de sua alma, também seríamos vencedores. As armas que estão sempre à nossa disposição e devemos manejar com destreza, são a oração, o jejum e a lembrança de Deus. A lembrança de que Deus está presente e vê os nossos pensamentos, as nossas obras, é capaz de dar-nos conforto na luta e persistência na peleja. “Ninguém daqueles que acreditam na presença de Deus em todo o lugar correrá perigo de cometer um pecado, nem pensará em praticar um ato pecaminoso”, diz São Basílio. Com Suzana, tentada por dois juízes, homens de má catadura, dirá também, quando o tentador o perseguir: “É melhor cair em vossas mãos, sem que cometa o pecado, do que pecar na presença do Senhor” (Daniel 13).
 
2. Santa Águeda consagrou-se a Deus e, em tenra idade, fez o voto de castidade. Mais tarde, ela fez a experiência de que Deus não permite tentações que superem as nossas forças. Embora fossem terríveis as tentações a que o demônio e maus homens a sujeitaram, Águeda ficou firme. A esperança no Salvador deu-lhe forças quase sobre-humanas. A fidelidade, jurada a Deus, era-lhe seguro penhor da assistência forte e valente do seu divino Senhor. Feliz o cristão que, como Santa Águeda, consagrar-se a Deus e se conservar fiel no cumprimento de sua promessa. Terá a felicidade de não ficar em contato com o vício e seu coração se conservará livre da influência do demônio. Suas mãos, puras que são, podem elevá-las confiadamente ao céu e Deus ouvirá as suas orações. Nos combates, ele tem a seu lado aquele que venceu o mundo. Por ele defendido, guiado e protegido, pode um mundo de inimigos se levantar e ameaçadoramente o atacar, a vitória será certa, a coroa garantida.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312
05 de fevereiro — Santa Águeda, Virgem e Mártir — Padre João Batista Lehmann