05 de agosto — Santa Afra e suas companheiras

05 de agosto — Santa Afra e suas companheiras
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

A perseguição da religião de Cristo, decretada por Diocleciano e Maximiano, estendera-se aos territórios compreendidos pela denominação de Augusta Vindelicorum e Rhaetia. Em Augsburgo, cidade mais importante da Augusta Vindelicorum, existia certa mulher mal afamada pelos costumes dissolutos. Chamava-se Afra. Como a mãe Hilária, era pagã e tinha por seu culto predileto o de Vênus, divindade a que a progenitora a consagrara.

Deus, em sua misericórdia, lançara o olhar redentor à pobre pecadora, que atenta à graça divina, encontrou o perdão e se converteu a uma vida santa.

Obrigados a fugir da fúria da perseguição, que avassalava a Espanha, dois santos homens, Narciso e o diácono Félix, abandonaram a península ibérica e chegaram a Augsburgo, onde procuraram hospedagem em casa de Afra, que os recebeu com muita gentileza, supondo, porém, que fossem pessoas do mundo, como tantos da habitual freguesia.

Antes de se assentarem à mesa, Narciso e Félix recitaram uma oração, que chamou a atenção da hoteleira. Indagando da procedência dos hóspedes, soube que Narciso era bispo cristão. Este conhecimento encheu-a de vergonha de si própria e de um temor estranho, que até então nunca experimentara. Sentindo-se indigna de hospedar um bispo em sua casa, cheia de confusão, lançou-se aos pés de Narciso e confessou-lhe as desordens de sua vida. Narciso, movido de compaixão e, ao mesmo tempo, desejoso de livrar aquela alma das cadeias do pecado, prometeu-lhe o perdão, animando-a a ter confiança na divina graça. “Como poderei ficar livre dos meus pecados, que são numerosíssimos?” — perguntou Afra. Narciso respondeu-lhe: “Crê e recebe o batismo. A salvação será tua herança”. Animada desta promessa, Afra chamou as companheiras Digna, Eunômia e Eutrópia e disse-lhes: “O homem que veio hospedar-se em nossa casa, é um Bispo dos cristãos. Ele me disse que, crendo eu em Cristo e recebendo o batismo, ficaria livre dos meus pecados. Que achais que devemos fazer?” Elas responderam: “A senhora é que nos manda. Fomos companheiras no pecado e estaremos prontas para acompanhá-la no caminho da penitência, para obtermos o perdão das culpas”. A noite toda passaram-na com os santos homens, em oração. No dia seguinte, Afra contou à Hilária o que tinha acontecido e pediu-lhe que desse abrigo aos dois hóspedes, contra os perseguidores. Hilária, de boa mente, atendeu ao pedido da filha e assim Narciso e Félix passaram para a casa da mãe. Hilária recebeu de Deus a graça da conversão, confessando os pecados ao santo Bispo. Em preparação ao santo batismo, Narciso ordenou que todas fizessem um jejum de sete dias, para no oitavo dia serem solenemente recebidas no seio da Igreja de Cristo.

Assim se fez e Afra, a mãe e as companheiras tornaram-se cristãs.

Tal fato não podia ficar desconhecido. A autoridade, tendo notícia da conversão de Afra ao Cristianismo, citou-a perante o tribunal, exigindo-lhe que voltasse ao culto dos deuses. “Rende homenagem às nossas divindades, — disse-lhe o juiz — pois melhor é viver do que morrer no meio de tormentos”. Afra respondeu: “Fui uma grande pecadora, porque não conhecia a Deus; agora, porém, meu desejo é preservar-me das faltas, que infelizmente cometi”. O juiz: “Vai ao templo e sacrifica”. Afra: “Jesus Cristo é meu Deus. Tenho-o constantemente diante de meus olhos; a Ele é que confesso os meus pecados dia por dia e, sendo indigna de oferecer-lhe um sacrifício, queria, para honrar-lhe o santo nome, sacrificar-lhe a minha pessoa, para que este corpo, profanado pelo pecado, seja purificado pela penitência”. O juiz: “Pensas que não sei quem és? Sacrifica aos deuses. Pessoas de tua laia não podem ter amizade com o Deus dos cristãos”. Afra: “Nosso Senhor Jesus Cristo disse que veio do céu para salvar os pecadores. Os Evangelhos contam que uma pobre pecadora, que se lançou aos pés do Divino Mestre, d’Ele recebeu o perdão dos pecados. Jesus Cristo mostrou-se amigo dos pecadores e com eles se sentou à mesa”. O juiz: “Sacrificando aos deuses terás amigos, e nada te faltará”. Afra: "Não quero mais saber do vil ganho. O que possuí, quis dá-lo aos pobres; joguei-o fora, porque não o quiseram aceitar". O juiz: "Jesus Cristo nem tão pouco te quererá". Afra: "Confesso que não sou digna do nome de cristã, mas Jesus usou de misericórdia comigo e recebeu-me entre os fiéis". O juiz: “Deves sacrificar aos deuses e terás muitas felicidades". Afra: "Minha felicidade está em Jesus Cristo, que na hora da morte prometeu o paraíso ao bom ladrão". O juiz: "Rende homenagem aos deuses ou na presença dos teus admiradores sofrerás cruéis vergastadas''. Afra: "Envergonho-me dos meus pecados e de mais nada". O juiz: "Digo-te ainda mais uma vez: ou sacrificas, ou pagarás com a vida a desobediência". Afra: "É justamente este o meu desejo, de ser achada digna de sacrificar a minha vida por Deus". O juiz: "Pois seja como queres. Serás submetida a cruéis tormentos e queimada viva". Afra: "Sofra meu corpo mil penas, porque manchado está pelo pecado; mais minha alma, quero que fique livre dos sacrifícios diabólicos".

O juiz lavrou a sentença do seguinte teor: “Ordenamos que a hetaira Afra, que se diz cristã, seja queimada viva, por ter-se negado a sacrificar aos deuses”.

Imediatamente os algozes se apoderaram da pobre vítima, levaram-na a uma ilha do rio Lech e amarraram-na a um poste. Afra, vendo os preparativos para o martírio, olhos molhados de lágrimas e elevados ao céu, rezou assim a Deus: "Deus onipotente, Jesus Cristo, que viestes ao mundo chamar não aos justos, mas aos pecadores, livrai-me por meio deste fogo que destruirá meu corpo, daquele fogo eterno, que atormenta corpo e alma". Os algozes ajuntaram lenha em redor da mártir e puseram fogo: Afra disse ainda estas palavras: "Graças vos dou, meu Jesus, porque vos dignastes de aceitar o sacrifício de minha vida, vós que morrestes na cruz, em satisfação dos pecados do mundo inteiro. A vós ofereço este meu sacrifício, vós que viveis com o Padre e o Espírito Santo".

As três companheiras, Digna, Eunômia e Eutrópia presenciaram a cena da margem do Rio. Como Afra, tinha recebido o batismo das mãos do Bispo Narciso. O corpo de Afra, embora horrivelmente queimado, foi por elas e a mãe Hilária, com todas as honras, sepultado num lugar sacro. O juiz, sabendo da conversão das companheiras de Afra, convidou-as a voltarem à religião pagã. Como nada conseguisse, condenou-as também à morte pelo fogo. Companheiras de Afra no pecado, seguiram-na na penitência e na conversão e com ela receberam a palma do martírio.

A cidade de Augsburgo venera em Santa Afra sua padroeira.

Reflexões

A admirável conversão de Santa Afra é mais uma afirmação da verdade, que a Sagrada Escritura ensina nestas palavras: "Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva" (Ezequiel 33, 11). Ele, que nenhuma vantagem aufere do seu amor infinito, continuamente manifesta aos pecadores misericórdia e o desejo de perdoar, em vez de tomar vingança, daqueles que o ofendem. "Tanto amor Deus teve ao mundo, que por ele entregou seu Filho Unigênito! (João 3, 16). Há um amor igual a este no mundo? Se Deus deu em sacrifício seu próprio Filho, certo é que não quer a morte do pecador. Sirvam estas considerações para levantar o nosso ânimo, quando tivermos a infelicidade de cair em pecado. De qualquer natureza e gravidade que forem os nossos pecados, se deles nos arrependermos e emendarmos a nossa vida, Deus nos perdoará de boa vontade e novamente nos aceitará por filhos queridos.

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Em Roma, festa de Nossa Senhora das Neves. É o aniversário da consagração da basílica, que o Papa Libério construíra no monte Esquilino, dedicada a Nossa Senhora (Santa Maria Maior) por Sisto III, em 440. O milagre das neves é uma lenda medieval. A festa foi estabelecida por Pio V.

Em Ascoli Piceno, o bispo e mártir Emídio; sagrado bispo pelo Papa São Marcelo I, foi mandado para Ascoli Piceno, onde, na perseguição diocleciana, recebeu a coroa do martírio.

Em Châlons-en-Champagne São Mémio. Romano de nascimento, foi sagrado bispo por São Pedro. Como bispo missionário da fé cristã converteu a população daquela cidade de que era pastor.

Na Inglaterra o santo rei Osvaldo.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii
05 de agosto — Santa Afra e suas companheiras — Padre João Batista Lehmann