04 de maio — Santa Mônica, Viúva
04 de maio — Santa Mônica, ViúvaExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
A Santa viúva Mônica, cuja festa hoje a Igreja celebra, nasceu em 332. Seus pais, pessoas piedosas, confiaram sua educação a uma senhora idosa e virtuosíssima, por íntima amizade relacionada à família. Embora branda e suave no seu modo de educar a menina, com firmeza aplicou os princípios sãos da pedagogia cristã, acostumando sua educanda às práticas de uma mortificação prudente e moderada. Regra, cuja observação exigia e que por Mônica era fielmente observada, era não tomar alimento de espécie alguma a não ser na hora das refeições. Apesar deste regime salutar, deixou Mônica se levar por uma natural inclinação ao vinho. Recomendada pela sua sobriedade e seu espírito de mortificação, era ela de preferência mandada à adega, para buscar vinho a mesa. A ocasião de provar o precioso e saboroso líquido era demais propícia para que não fosse aproveitada pela menina. Como não houvesse nenhuma reprovação da parte dos pais, que, aliás, nada podiam suspeitar, Mônica adquiriu o costume de beber vinho.
Deus, porém, enfastiou-a de um hábito que mui facilmente poderia ter-se transformado em paixão perniciosa. Em uma daquelas contendas que soem haver na vida familiar e entre a criadagem, Mônica foi ofendida por uma palavra mordaz de uma criada, a qual num ímpeto de raiva chamou-a de beberrona e dizendo mais, que não haveria em casa quem não soubesse das suas libações clandestinas. Mônica, não tanto pela ofensa que sofrera, porém, mais pelo conhecimento do seu proceder incorreto, tomou a resolução de abster-se completamente do vinho, propósito que cumpriu rigorosamente.
Pouco depois recebeu o Santo Batismo, cuja graça ela conservou em toda sua vida pela pureza da fé e pela santidade de sua vida. Grande foi sua caridade para com os pobres. Sabendo que era difícil conservar-se na graça de Deus, evitava os divertimentos profanos, fugia das ocasiões perigosas e desprezava as exigências e extravagâncias da moda.
Tendo chegado à idade própria, seus pais casaram-na com um cidadão de Tagaste na África, de nome Patrício, que era filho de família ilustre, mas pobre, pagão e homem de sentimentos rudes. O caráter indômito e violento do marido era para a esposa uma fonte de sofrimentos e provações as mais duras. Mônica sofreu tudo com a maior paciência e mansidão, não respondendo a Patrício senão por obras de uma caridade sem limites e pela oração. Longe de se queixar ou de prestar ouvido às más línguas, que procuravam semear discórdia em seu lar, Mônica defendia seu marido e não tolerava que o difamassem em sua presença. Deus recompensou sua dedicação, tendo Mônica a satisfação de ver a conversão de seu marido. Do seu matrimônio teve Mônica dois filhos e uma filha. O mais velho, Agostinho, causou grandes amarguras à sua mãe, até que enfim pela sua conversão e completa mudança de vida se tornou sua glória.
Embora não deixasse faltar bons conselhos; embora o educasse nos princípios da religião católica, a vivacidade de seu filho, sua inconstância e volubilidade inspiraram-lhe sérios cuidados e lhe abriram uma expectativa pouco lisonjeira para o futuro. Por este motivo e, temendo ele perder a graça do Batismo, não o apresentou para ser batizado. Os fatos provaram, como eram fundados os receios da mãe. Agostinho desde os seus verdes anos inclinou-se para o mal e mais tarde filiou-se à seita dos Maniqueus.
Dezessete anos contava Agostinho quando perdeu seu pai. Para continuar seus estudos, dirigiu-se para Cartago. O coração de Mônica sofreu atrozmente com as notícias desoladoras que continuamente recebia de seu filho. O maior desgosto lhe era saber que se tinha entregue às práticas abomináveis dos Maniqueus.
Não havendo com que fazer mudar o coração de Agostinho, dirigiu-se a Deus em ardentes preces, implorando a graça da conversão do filho. Deus a consolou em visões misteriosas, mostrando-lhe a futura conversão de Agostinho. Confortada desta sorte, consentiu que ele ficasse morando em sua casa e se assentasse na sua mesa.
Nem assim deixou de rezar constantemente pela sua conversão, e pedir a outros que igual fizessem. Recomendou-o a diversos bispos, entre eles a um que tinha pertencido à seita dos Maniqueus. Este muito a animou, dizendo-lhe: “O coração de teu filho não está ainda preparado, mas Deus determinará o momento. Vá, e continua a rezar: é impossível que se perca um filho de tantas lágrimas.”
De fato soou a hora da conversão. Agostinho, que era lente da arte retórica de Cartago, começou a conhecer os erros da seita dos maniqueus, e experimentar nojo de seus vícios. De Cartago dirigiu-se para Roma e de lá para Milão, onde Santo Ambrósio era Bispo.
Mônica, sabendo da mudança de seu filho para Milão, o seguiu e teve o consolo de ouvir de Santo Ambrósio, que seu filho já era católico. Em 387 receberam ele, seu filho Adeodato e seu amigo Alípio o Santo Batismo.
Agostinho resolveu então voltar com sua mãe para África. Chegando em Ostia, disse-lhe ela: “Vendo-te hoje como cristão católico, nada mais me resta a fazer neste mundo.” Caiu uma doença grave e morreu, tendo alcançado a idade de 56 anos. Seu filho Agostinho, nas suas célebres “Confissões” erigiu um monumento indelével à memória de sua santa mãe. O Papa Alexandre III colocou o nome de Mônica entre os Santos da Igreja Católica. Sob o pontificado de Martinho V foi o corpo de Santa Mônica transportado para Roma e depositado na igreja de Santo Agostinho.
A devoção a Santa Mônica tomou novo incremento em nossos dias pela elevação da Santa à Padroeira das Associações das Mães Cristãs. De Santa Mônica podem as mães aprender, que interesse devem ter pela salvação de seus filhos.
Reflexões
1. A vida de Santa Mônica pode a todos servir de exemplo e modelo. Como donzela ela era modesta, recatada; amiga da oração, caridosa e compassiva para os pobres; só com o consentimento e mais por obediência a seus pais tomou estado. Como casada, era dedicada, paciente e conformada. Longe de se revoltar contra sua sorte, com paciência sofreu os defeitos de seu marido, procurando pela oração e pela caridade afastá-lo do mal. A seus filhos dedicou todo seu cuidado para educá-los cristãmente. Viúva, santificou-se pela prática de boas obras. Amiga da solidão, fugia dos divertimentos mundanos, e seu humilde trajar demonstrava a seriedade do seu caráter. Em tudo e por tudo observava ela os conselhos que São Paulo dá às viúvas: “Se alguma viúva tem filhos ou netos: aprenda primeiro a governar a sua casa, e a corresponder a seus pais, porque isto é aceito diante de Deus. Mas a que verdadeiramente é viúva e desamparada, espere em Deus, e esteja perseverante em rogar, e orar de noite e de dia. Porque a que vive em deleites, vivendo está morta.” (I Timóteo 5, 4-6).
2. Santa Mônica tinha mau marido e mau filho. Ambos se converteram, devendo-se atribuir sua conversão à paciência, à caridade, às penitências e orações da santa esposa e mãe. Aprendam do seu exemplo esposas e mães que se acham em condições idênticas e quase idênticas. A conversão de um pecador é um grande milagre, que de Deus pode se esperar só pelas obras de piedade e de caridade, nunca, porém, pela impaciência, por palavras pesadas, imprecações, pragas e maldições.
“Educai vossos filhos na doutrina e no temor de Deus”, ensina São Paulo. O temor de Deus, porém, não admite rancores, imprecações e vitupérios.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩