04 de junho — São Quirino, Bispo e Mártir

04 de junho — São Quirino, Bispo e Mártir
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

São Quirino foi Bispo de Siscia, cidade situada sobre o Save na Hungria. São Jerônimo menciona mui honrosamente seu nome no ano de 309 de sua Crônica. São Prudêncio chama-o um excelente mártir. Fortunato enumera-o entre os mais célebres mártires de Jesus Cristo. Seu martírio deu-se no ano 303 ou 304. As atas do seu martírio nos apresentam a história do seu triunfo.

Quirino, tendo conhecimento de uma perseguição que pessoas importantes da cidade iam mover contra sua pessoa, retirou-se clandestinamente, mas apesar das suas precauções, caiu nas mãos dos seus inimigos que o levaram ao tribunal. O juiz Máximo censurou-lhe a fuga, a que Quirino respondeu: "Eu fugi, em obediência à palavra do divino Mestre; pois está escrito: Se vos perseguem numa cidade, fugi para uma outra." (Mateus 10, 23). Máximo: "Quem te deu esta ordem?" — Quirino: "Jesus Cristo, que é Deus verdadeiro". Máximo: "Não sabes tu, que as ordens imperiais te teriam descoberto em qualquer parte, até no mais recôndito esconderijo? Já fizeste a experiência. E aquele, que dizes ser verdadeiro Deus, nenhuma defesa te poderia ter dado nem livrado das mãos do imperador". Quirino: "O Deus, a que nós adoramos, está sempre conosco, onde quer que nos achemos e bem pode defender-nos. Ele comigo estava quando me prenderam, e ainda está ao meu lado. É Ele que me fortalece, é Ele que por minha boca te responde". Máximo: "Para que este palavrório? Com isso queres só protelar a execução das ordens dos monarcas e tornas-te culpado de desobediência. Lê as suas disposições e cumpre o teu dever". Quirino: "Para estas leis, por serem ímpias, tenho só desprezo. Elas contrariam as leis de Deus porque exigem que servos de Deus sacrifiquem aos falsos deuses. Deus está em todo lugar, no céu, na terra e debaixo da terra; Ele está acima de todas as criaturas, compreendendo-as todas em si; é Ele que conserva todas as coisas". Máximo: "A velhice enfraqueceu teu cérebro; por isto que te deixas seduzir por sonhos e fantasias. Decide de vez. Aqui tens incenso para o queimares aos deuses. Se te negares a isto, não esperes outra coisa senão toda a sorte de injúrias e cruel morte". Quirino: "Injúrias só me honram e a morte me trará a vida eterna. Eu só venero o altar de meu Deus, sobre o qual já muitas vezes lhe ofereci oblações de agradabilíssimo perfume". Máximo: "Não sabes o que dizes; sacrifica aos deuses!" Quirino: "Nunca; jamais prestarei homenagem aos demônios".

Em vista desta recusa formal, Máximo condenou-o à pena da flagelação. Enquanto se executava esta ordem crudelíssima, Máximo disse ao mártir: "Ainda não reconheces o poder dos deuses romanos? Obedece e serás sacerdote de Júpiter". Quirino: "Estou no meu papel de sacerdote, oferecendo-me ao Deus verdadeiro como holocausto". Máximo, vendo a ineficácia de sua medida brutal, mandou encarcerar de novo sua vítima. Quirino, porém, pediu a Deus: "Graças vos dou, meu Deus, que vos dignastes de conceder-me a honra de sofrer por vosso nome. Fazei com que todos que se acham comigo neste cárcere, conheçam que adoro ao Deus verdadeiro, e que fora de vós não há outro". Esta oração foi ouvida. Pela meia-noite encheu-se o cárcere de uma luz brilhantíssima, que foi observada por todos que lá se achavam. O carcereiro Marcelo prostrou-se aos pés do santo Bispo e disse-lhe, entre lágrimas: "Rogai ao Senhor por mim! Eu creio, que não há outro Deus a não ser aquele que tu adoras". Quirino instruiu-o na doutrina cristã e imprimiu-lhe o santo caráter em nome de Jesus. Parecem estas palavras dizer que Marcelo recebeu o Batismo e a Confirmação. Não estava no poder de Máximo condenar à morte o fiel servo de Deus; por isso, submeteu-o à jurisdição de Amâncio, governador de Sabaria, uma das primeiras províncias da Panônia. No caminho para aquela cidade, Quirino deu a bênção a algumas cristãs, que tinham vindo oferecer-lhe algum alívio. No mesmo momento caíram as cadeias das suas mãos e pés.

Amâncio abriu novo inquérito e insistiu com Quirino para que abandonasse a religião de Cristo. Quirino, porém, respondeu-lhe: "Confessei a Deus verdadeiro em Siscia e nunca adorei outro. Eu trago seu nome no meu coração e poder algum me poderá dele separar". Vendo, afinal, frustradas todas as suas tentativas, Amâncio pronunciou a sentença de morte contra Quirino, condenando-o a ser atirado ao rio tendo uma mó atada no pescoço.

Esta sentença teve pronta execução. Deu-se, porém, um incidente que causou grande pasmo em todos que se achavam presentes. Em vez de ir ao fundo, o santo ficou sentado sobre a água e nesta posição dirigiu palavras de conforto aos fiéis, exortando-os à constância na sua fé. Receando de perder a coroa do martírio, pronunciou a seguinte oração a Jesus Cristo: "Admirável é, Senhor Jesus, que sustendes o curso dos rios, como fizestes com o Jordão, ou que dais poder aos homens de andar sobre as águas, como o destes a São Pedro. Vede este povo, que veio só para admirar o que de maravilhoso em mim fizestes: dai-me, ó meu Deus, o que só me resta a desejar, e o que é desejável sobre todas as coisas: a felicidade indizível de morrer por vós". Imediatamente foi ao fundo e as águas se fecharam sobre ele. Seu corpo foi encontrado perto do lugar onde tinha afundado. As relíquias de São Quirino foram mais tarde transportadas para Roma.

Reflexões 

Como o alimento é necessário para o sustento do corpo, assim a fé na vida eterna é indispensável para nos conservar no espírito da paciência, do sacrifício e da cruz. Os mártires consideravam esta vida como preparação para a vida eterna e, em vista da futura recompensa, que os esperava, sofreram com ânimo e heroísmo os horrores da morte. Saber que o sofrimento se converterá em gozo; saber que este corpo, sujeito a mil dores, um dia ressuscitará cheio de glória, é a maior consolação na tribulação. Tenho a certeza — diz São Paulo — que os sofrimentos deste tempo não podem ser comparados à magnificência que em nós se revelará." (Romanos 8, 18). "Soframos e reinaremos." (II Timóteo 2, 12). Sabemos que aquele que ressuscitou ao Senhor Jesus, também a vós com Jesus nos ressuscitará." (II Coríntios 4, 14). Meditando com fé estas expressões, a nossa cruz se nos afigurará menos pesada, e com santa resignação a levaremos, certos de que um dia será a nossa glória no Céu.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312
04 de junho — São Quirino, Bispo e Mártir — Padre João Batista Lehmann