04 de julho — Santo Ulrico, Bispo

04 de julho — Santo Ulrico, Bispo
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Santo Ulrico é uma das figuras mais salientes do episcopado alemão do século X. Pertencente à alta fidalguia do país, teve por pais Hupaldo (Ubaldo) e Thetlinga, duques de Kyburg e Dillingen. Tendo a idade própria, frequentou a escola de São Galo, onde fez os estudos humanistas. Recomendado por mestres e amigos, foi recebido na corte palacial do eminente Bispo Alberto de Augsburgo, que introduziu o inteligente jovem nos trabalhos da administração dos bens da diocese. Em Roma, para onde tinha feito uma peregrinação, teve a notícia da morte do Bispo, e disseram-lhe que viria a ser-lhe sucessor. De volta para Augsburgo, já encontrou um novo Antístite, na pessoa de Hiltin. Também este morreu e Ulrico foi apresentado ao Imperador Henrique I, como candidato idôneo à sede episcopal de Augsburgo. De acordo com a praxe daquele tempo, recebeu das mãos do imperador o báculo e a mitra, insígnias do poder episcopal, fazendo por sua vez a promessa de fidelidade ao monarca.

Como bispo, era exemplaríssimo no cumprimento dos deveres. Segundo São Paulo: “o primeiro dever do Bispo é ser medianeiro entre Deus e os homens, pela oferta de orações e sacrifícios”; Santo Ulrico era homem de oração. As primeiras horas do dia eram dedicadas à oração e ao sacrifício divino. Do mesmo modo, terminadas as completas, retirava-se para passar o resto do dia rezando. Manifestava um talento extraordinário em organizar festas eclesiásticas. A todos edificava pela piedade, como pela dignidade com que celebrava o Santo Sacrifício da Missa.

Fidalgo de alta linhagem, tinha o palácio aberto a todos que quisessem recorrer-lhe à hospitalidade. Clérigos e religiosos achavam cordial agasalho em casa do nobre Prelado. Os grandes do país eram recebidos com todas as honras devidas e, ricamente galardoados, saíam do palácio do episcopal senhor. No meio e apesar do esplendor da corte, Ulrico não se esquecia dos pobres. Pareciam ser os amigos prediletos do santo Bispo.

Íntimo era o laço que o ligava ao clero e ao povo. Duas vezes por ano reunia todo o clero e cada ano percorria a diocese.

Uma chaga na vida política daquele tempo era a investidura, sistema governamental que favoreceu muitos abusos e grande mal fez à Igreja de Deus na Europa. Os bispos eram em grande parte também príncipes seculares e como tais, vassalos do Imperador, obrigados a prestar-lhe os serviços: judicial, militar e pecuniário, serviços estes que o Imperador recompensava com a investidura, isto é, a entrega do báculo e da mitra, insígnias do poder episcopal. Este sistema era injusto e pernicioso, e a má influência só lhe podia ser atenuada, tendo no poder homens retos, respeitadores dos direitos eclesiásticos. Otão I era um deles e a Igreja Católica na Alemanha conta diversos Santos, entre os Bispos por ele eleitos e elevados ao poder episcopal. Assim não era difícil a Ulrico dar a César o que era de César e ser fiel servo do imperador.

A Ulrico eram aplicáveis as palavras que São Paulo dirigiu a Tito: “Convém que o Bispo seja sem crime, como dispenseiro que é de Deus; que não seja soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem propenso a espancar, nem amigo de sórdidas ganâncias; mas que seja hospitaleiro, benigno, sóbrio, santo, homem de temperança. Que abrace a palavra da fé, que é segundo a doutrina, para que possa exortar conforme a sã doutrina e convencer aos que a contradizem” (Tito 1, 7-9).

Embora não fosse monge, era grande amigo dos religiosos. Os conventos da diocese recebiam-lhe frequentes vezes a visita, e grande zelo tinha pela conservação, não só dos bens das casas religiosas, como também do espírito religioso nas mesmas.

Entre o povo deu grande impulso às romarias e ao culto das relíquias dos Santos.

O episcopado de Ulrico pertence ao século em que o centro da Europa se via constantemente inquietado pelas invasões dos Húngaros. Todos os anos, na época da colheita, vinham as hordas, ainda bárbaras, devastar as planícies e vales do império alemão. Embora batidos por diversas vezes, os imperadores alemães não tinham conseguido ainda uma completa vitória sobre aquele inimigo cruel. Chegou o ano de 955 e com ele, uma formidável invasão, tão formidável, que Otão, o próprio Otão, vencedor em tantas batalhas, chegou a desanimar. Ulrico, com seus homens, aparou o primeiro choque dos bárbaros contra a cidade de Augsburgo. Quando a luta se tornou mais encarniçada, viu-se o Bispo a cavalo, no meio dos combatentes, sem armas, só revestido de estola, animando os homens a resistir e defender a cidade contra os pagãos.

Veio a noite. De lado a lado foram tomadas as providências para o novo ataque, no dia seguinte. Ulrico era incansável, pondo a cidade em condições de poder valorosamente se defender, contra a onda furiosa dos atacantes. Bem cedo celebrou a Santa Missa, na qual deu a Santa Comunhão aos soldados. Os Húngaros começaram a luta com toda a fúria. Repentinamente, porém, desistiram, retirando-se apressadamente ao acampamento. Célere tinha corrido a notícia da chegada dum grande exército do imperador Otão. Os Húngaros prepararam-se para oferecer batalha. Ulrico uniu suas forças às do imperador. O dia 9 de agosto de 955 era dia de jejum para todos os combatentes cristãos e Ulrico, na presença de Otão e todo o exército, celebrou Missa solene. O dia 10 de agosto trouxe a decisão: a vitória e liberdade dos cristãos. Os Húngaros, apesar de resistência desesperada, foram derrotados. Otão fez a entrada triunfal na cidade de Augsburgo, onde foi recebido pelo Bispo, cujo irmão e sobrinho tinham morrido na batalha. O exército dos Húngaros dissolveu-se e os chefes principais terminaram a vida em Ratisbona, na forca. Nunca mais os Húngaros ousaram pisar no solo alemão e o império, desde aquela data, ficou livre das invasões. No império inteiro reinou grande alegria e na boca de todos estavam dois nomes só: o de Otão e do grande Bispo Ulrico, como “salvador da pátria”.

Ulrico viveu ainda 18 anos. À medida que se aproximava do fim da vida, redobrava as orações e penitências. Servia-lhe de leito o chão e de vestuário o cilício. Em 972 fez terceira viagem a Roma, onde se encontrou com o Papa João XIII. Na volta visitou em Ravena o amigo imperial Otão, que o recebeu com suma alegria. — Foi-lhe reservado grande desgosto na pessoa do sobrinho, Adalberto. Precisando de coadjutor, apresentou o sobrinho, que Otão elevou à dignidade de Bispo auxiliar, com direito de sucessão. Sem ser sagrado Bispo, Adalberto exerceu as funções episcopais, o que causou grande escândalo, pelo qual Ulrico teve de responder, perante os Bispos reunidos em Ingelheim. Adalberto, para não incorrer na grande excomunhão, renunciou e morreu pouco depois, de morte repentina.

Ulrico sentiu chegar a hora de despedir-se deste mundo e preparou-se para a morte de maneira, que edificou a todos. Perguntado que Bispo queria que lhe fizesse o enterro, respondeu que Deus não deixaria de mandar um. Num domingo ordenou que lhe trouxessem todos os bens. Eram apenas alguns roquetes, uns panos de mesa, duas capas e dez "solidéus" de prata. Tudo isto mandou repartir entre o clero e os pobres. No dia de São João Batista celebrou a derradeira Missa. Na noite de 4 para 5 de julho mandou espargir, em forma de cruz, cinza pelo seu quarto e sobre ela se deitou. Nessa posição humilde, enquanto os clérigos cantavam as Ladainhas, entregou a alma a Deus. Ulrico morreu a 4 de julho de 973, na idade de 83 anos, no 50° ano de vida episcopal. Como o Santo o predissera, chegou inesperadamente o Bispo São Wolfgang, que lhe fez o enterro eclesiástico, com todas as honras e depositou os restos mortais do amigo na Igreja de Santa Afra. O terceiro sucessor de Ulrico na Sé do Bispado de Augsburgo, o Bispo Luitolf, conseguiu do Papa João XV a canonização do seu antecessor.

Reflexões

Para conhecer o estado em que, segundo a vontade de Deus, devia viver, Santo Ulrico fora a oração e penitência que fazia, pediu conselho de outras pessoas. É esta uma medida de prudência, que devem tomar todos que, como Santo Ulrico, se acham em circunstâncias idênticas. A escolha do estado é uma coisa de suma importância, de que pode depender a felicidade na vida e na eternidade. Todos os estados são bons, mas não convêm a todos. Para quem não é chamado ao estado eclesiástico, a entrada no mesmo poderia causar a eterna condenação, como também ao perigo de perder-se eternamente se exporia quem abraçasse uma carreira secular, tendo Deus lhe reservado o sacerdócio ou o estado religioso. O mesmo deve-se dizer relativamente à vida no matrimônio ou fora dele. Não erra na escolha do estado quem a Deus se dirige, em fervorosa oração e recorre ao sábio conselho de pessoas competentes, em primeiro lugar do confessor. Quem assim não procedeu e se enganou na escolha do estado, procure emendar a falta, se isso possível for, ou então faça da necessidade virtude e santifique-se pelo fiel cumprimento do dever, levando a cruz com resignação e paciência.

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Na Palestina a memória dos profetas Oseias e Ageu. Oseias é entre o número dos profetas menores o primeiro. Viveu no tempo de Jeroboão II e dos seus sucessores. Levantou sua voz protestando contra a impiedade e os vícios reinantes em Israel. Ageu é o décimo dos pequenos profetas. Era contemporâneo de Zacarias, no 2° ano do rei Histaspes, 520 anos antes de Cristo. Seu livro trata da construção do templo.

Em Bourges, o martírio de São Laureano, bispo de Sevilha no século 6°.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii
04 de julho — Santo Ulrico, Bispo — Padre João Batista Lehmann