04 de janeiro — São Tito, Bispo e Confessor
04 de janeiro — São Tito, Bispo e ConfessorExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
É para lastimar que os historiadores eclesiásticos dos primeiros tempos da Igreja tão pouca menção fazem da vida, das virtudes e obras de São Tito, daquele admirável coadjutor de São Paulo nas suas viagens apostólicas. Os primeiros cristãos em seu fervor na prática das virtudes e sua única aspiração de servir a Deus e santificar sua alma, pouca ou nenhuma importância ligaram a tornar conhecidas as obras dos seus santos e as transmitir à posteridade.
Tracejando a vida de São Tito, temos por guia a Primeira Epístola que São Paulo dirigiu aos Coríntios. O que o Apóstolo das Gentes aí diz do seu auxiliar, é bastante para formarmos dele o mais alto conceito. São Paulo chama-o seu irmão, seu filho, seu auxiliar e companheiro. Referindo-se ao consolo que a companhia de Tito lhe proporcionava, usa de expressões as mais tenras e chega a dizer que custou-lhe achar o sossego de espírito quando não o encontrou em Trôade como esperara.
A dar fé ao testemunho de São João Crisóstomo e de outros, era Tito natural de Corintho, filho de pais pagãos. Quando São Paulo em suas viagens aportou pela primeira vez em Corintho, foi Tito um dos primeiros que pediram o Santo Batismo. O Apóstolo, reconhecendo no jovem neófito um espírito superior dotado de qualidades excelentes físicas e morais, acolheu muito grato o desejo de Tito de, como ele, poder trabalhar na propaganda da Fé.
O ano de 51 levou os dois grandes missionários a Jerusalém, onde os Apóstolos, sob a presidência de São Pedro, realizaram o primeiro Concílio, em que foi discutida a questão da observação da Lei Mosaica. Pelos fins do ano 56, cumprindo ordem de seu Mestre, se dirigiu de Éfeso a Corintho, para restabelecer a união periclitada por algumas opiniões errôneas. Recebendo-o com todas as honras, os cristãos de Corintho se esforçaram para tornar-lhe agradável a estada em seu meio. Discípulo do grande Apóstolo que era, quis apenas aceitar o que lhe parecia indispensável para seu sustento. Sua intervenção produziu os melhores resultados entre os partidos que se tinham formado na sua cidade natal. As tendências separatistas desapareceram, os cristãos se uniram e, o homem contra quem São Paulo tinha lançado a excomunhão foi recebido de novo no grêmio da Igreja. Tito relatou a seu mestre o êxito da sua missão. Um ano depois voltou a Corintho para receber as esmolas que os fiéis tinham arrecadado para os pobres de Jerusalém.
São Paulo, que tinha sido preso em Roma, no ano de 63 voltou ao Oriente, para solvendo seu compromisso, visitar as igrejas recentemente formadas. Nesta sua viagem chegou à ilha de Creta e lá pregou a doutrina. Tendo lançado a semente, deixou a Tito como Bispo, confiando aos seus cuidados o desenvolvimento da igreja daquela ilha. Pouco tempo Tito ficou na Creta, quando Paulo em 64 precisou de seus serviços em Nicópolis no Epiro. Antes de partir, nomeou bispos e sacerdotes que dirigissem as diversas comunidades na ilha cristianizada. Uma Epístola que Paulo lhe escreveu, traz sábios conselhos, avisos e instruções práticas sobre os deveres dum bispo na administração de sua diocese.
No ano de 65 foi mandado à Dalmácia, onde pregou o Santo Evangelho e onde até hoje é venerado como apóstolo daquele país. Da Dalmácia voltou para Creta, onde na idade de 97 anos terminou sua vida apostólica. Seu corpo achou o descanso na igreja da capital e metrópole Gortyna. Depois da destruição de que a cidade fora vítima pelos Sarracenos em 823, nada mais se achou das suas relíquias, senão a cabeça. Esta foi transportada para Veneza e depositada na Igreja de São Marcos.
Reflexões
1. São Tito levou uma vida de pureza e castidade. Hoje há muitos que perderam a fé na possibilidade de conservar esta virtude tão preciosa. Na realidade, a castidade é uma joia, que é encontrada raramente. Tanto mais apreciável ela é. Se nos perguntarmos, porque hoje a castidade é tão rara, achamos duas razões: a liberdade que predomina na educação moderna; a facilidade com que são atendidas todas as reclamações dos sentidos e a falta do temor de Deus. A impureza campeia onde se ressente a falta do espírito do sacrifício e da oração. Em muitas almas a semente mortífera da impureza foi lançada na mais tenra idade devido ao descuido dos pais. Na maioria dos casos, porém, o veneno entrou pelo contato contínuo de más companhias, pela influência irresistível de más leituras e, pela assistência de diversões livres, principalmente nos cinemas. A impureza tem a seu favor uma circunstância fatalíssima: a nossa condescendência natural, a nossa inclinação ao mal, geralmente chamada a concupiscência. Se esta inclinação fatal não for paralisada por uma resistência enérgica da nossa parte, ela nos arrasta e prepara-nos a queda. Sem dúvida muito pode contra a tentação a firmeza do caráter, e felizes aqueles que, à mão de uma educação sã e racional conseguiram dar ao seu caráter uma resistência que o coloque acima dos instintos baixos da natureza. O sentimento de dignidade e de honra pessoal pode sem dúvida preservar uma pessoa de quedas lastimáveis, mas não é suficiente para garantir-lhe a constância perfeita na virtude da castidade. A experiência neste ponto não deixa dúvida alguma sobre a fraqueza humana, que é muito grande. Em referência a esta fraqueza diz com muita verdade a Sagrada Escritura: “Aquele que se julga isento do perigo, está prestes a cair.” A vigilância deve necessariamente se aliar a oração e a recepção dos Santos Sacramentos. “Sabendo por experiência — diz o profeta Davi — que não me era possível conservar a virtude da castidade, recorri à oração.” É o caso de todos nós. — Como a nossa natureza, devido a sua caducidade, tem um inimigo terrível, cujo nome é mundo, a prudência aconselha e exige o maior cuidado, a maior precaução no contato com este pirata da inocência. Legião são os meios de que o mundo lança mão para nos arrastar ao turbilhão das paixões, e ai daquele que por imprudência, por falta de vigilância e oração se deixar prender nas suas malhas.
2. O exemplo de São Tito ensina-nos como devemos trabalhar pela salvação do próximo, fazendo uso da língua quando as circunstâncias o aconselham. Uma pessoa de autoridade deve falar quando se trata de defender a inocência oprimida, e aplicar as leis da justiça, sem se deixar acovardar pelos ditames do respeito humano. O pai de família não só é obrigado a edificar seus familiares pelo bom exemplo na prática do bem; sua posição exige que, oportunamente saiba repreender, castigar, dar bom conselho, consolar e levantar os ânimos daqueles que lhe são confiados. Quanto bem não pode causar uma boa palavra dita na ocasião oportuna! Quantos males não são afastados de uma família, quando o pai ou a mãe com sua palavra persuasiva e caridosa sabem dirigir os ânimos de seus filhos! Incalculável também, é o mal produzido por maus conselhos, conversas contra a caridade, a religião e a justiça. Quanta não será a responsabilidade daqueles que, obrigados pela sua posição a edificar e educar, abusam da sua autoridade pelos excessos de uma linguagem ofensiva a Deus! Grande sabedoria é falar e calar oportunamente. As nossas conversas devem ser sempre inspiradas e dirigidas pelos princípios do cristianismo, isto é, pela lei da caridade e da justiça. Isto não acontecendo, será que de muita conversa nos havemos de arrepender.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩