03 de setembro — Santos Mártires Gorgônio, Doroteu e os companheiros

03 de setembro — Santos Mártires Gorgônio, Doroteu e os companheiros
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

A história dos Santos Mártires, cuja memória a Igreja hoje celebra, é prova patente do grande poder da graça de Jesus Cristo. Nada em sua vida podia fazer prever a grande distinção que Deus lhes reservara, destinando-os ao martírio. Homens que, como eles, viviam na corte imperial e ocupavam lugares importantes nas imediações do Imperador, não eram geralmente possuidores de qualidades que os pudessem tornar merecedores da admiração e da confiança do povo.

A corte imperial era, e todos o sabiam, teatro das mais vis paixões e dos mais abomináveis vícios. Cristãos que eram, Gorgônio, Doroteu e os companheiros, faziam exceção a essa regra.

Foram convertidos do paganismo, graças às orações e instruções de Luciano, como eles, alto funcionário da corte imperial. O exemplo de virtude que os neoconvertidos davam, fez com que também outros abandonassem o paganismo e aceitassem a religião de Luciano. Parece que entre os catecúmenos figuravam a esposa e a filha de Deocleciano, cujas altas posições de imperatrizes as salvaram das humilhações do cárcere e do martírio.

Doroteu e Gorgônio eram amigos íntimos do Imperador, de cuja confiança gozavam ilimitadamente. Diocleciano, embora soubesse que eram cristãos, dava-lhes o afeto de pai e confiava-lhes os bens, a segurança de sua pessoa e família.

Essa posição privilegiada, a vida na corte com todas as tentações e perigos, de modo algum influenciou na honradez de caráter e firmeza de virtude dos santos. Deus permitiu que tivessem uma ocasião de mostrar completo desapego das coisas deste mundo e que preferiam sofrer por Jesus Cristo a gozar das delícias e honras da corte.

Galério Maximiano, também Imperador e genro de Diocleciano, era inimigo implacável do Cristianismo. Empenhou toda a influência até conseguir do imperial sogro a publicação de dois decretos desfavoráveis aos cristãos. Estavam os dos Imperadores em Nicomédia, quando o palácio imperial se incendiou. Embora fosse ele próprio o incendiário, Galério Maximiano soube fazer convergir todas as suspeitas do crime contra os cristãos. Em combinação com os ministros amigos de Diocleciano, teriam sido eles os malfeitores.

Diocleciano deixou-se facilmente convencer da verdade da terrível acusação e deu ordem para que todos os funcionários cristãos fossem duramente castigados.

Quinze dias depois, irrompeu novo incêndio no palácio, tendo sido Galério outra vez o mandante. Se na primeira vez conseguira convencer o sogro da culpabilidade dos cristãos, desta vez essa acusação formal enfureceu sobremaneira o colega imperial. Todos os cristãos em serviço palaciano, inclusive aqueles a que mais amizade devotara, foram entregues à pena de morte. Não satisfeito de tê-los sumariamente processado, ordenou que fossem barbaramente açoitados e de muitas outras maneiras maltratados.

Gorgônio, Pedro e outras pessoas de destaque na corte foram intimados a render homenagens divinas a ídolos, o que firmemente recusaram. O Imperador lançou à Gorgônio de “ter abusado de sua confiança”. Este respondeu-lhe: “Nunca lhe fui infiel. Minha religião não me permitiria tal coisa. Não seria bom servidor de Jesus Cristo, se não o fosse igualmente de meu Imperador. Mas minha religião veda-me adorar a falsos deuses, e antes entregaria corpo e vida do que cometer esse crime”.

Dos sofrimentos que esses fiéis empregados do Imperador passaram, dá-nos uma ideia a descrição que fez deles Euzébio, relatando o martírio de Pedro. Suspenderam-no, rasgaram-lhe as carnes com harpões de ferro e deitaram sal e vinagre nas feridas. Depois puseram sobre grelhas com carvões em brasa, queimando-lhe horrivelmente os pés. O mártir, porém, preferiu sofrer tudo a negar a fé. Torturas iguais foram aplicadas a Gorgônio e Doroteu, sem que os algozes conseguissem fazê-los apostatar. Vendo frustrarem-se-lhes todos os esforços, estrangularam-nos. Os cristãos enterraram os corpos dos mártires. O Imperador ordenou a exumação e as relíquias foram atiradas ao mar, para assim evitar que os cristãos lhes dispensassem “honras divinas”.

O corpo de Gorgônio, foi mais tarde sepultado na Catedral de São Pedro, em Roma.

Reflexões

“Não seria bom servidor de Jesus Cristo, se não fosse fiel ao meu Imperador” — disse Gorgônio ao juiz pagão. É dever de cristão prestar obediência às autoridades civis. As palavras de Jesus Cristo e dos Apóstolos são claras a esse respeito. “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” — diz Nosso Senhor. Obedecei aos homens por amor de Deus; obedecei à autoridade, que é colocada por Deus, para recompensar os bons e castigar os maus. Não há autoridade no mundo que não venha de Deus. Quem se opuser à autoridade legitimamente estabelecida e contra ela se rebelar, contra Deus se rebela. A obediência que devemos à autoridade, não se baseia no temor, mas no dever que a consciência nos impõe. Por isso é que pagamos tributo; porque os representantes da autoridade são ministros de Deus. “Pagai, pois — diz São Paulo, a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra”. A obediência é fruto das duas virtudes principais do Evangelho — Caridade e Mortificação. A primeira bane de nós toda a desconfiança, quando a outra nos defende contra a soberba e a teimosia. Não é obediente quem se queixa, apesar de não se levantar contra a autoridade. Aquele que nos manda amar aos próprios inimigos, espera de nós que não deixemos aninharem-se em nosso coração ódio e malquerença contra os nossos superiores. É obrigação nossa acatar e defender o nosso governo, sempre que isso não vá de encontro aos mandamentos da lei de Deus. O bom cristão rezará pelas autoridades, para que Deus as proteja e ilumine. “Advirta aos cristãos — escreve São Paulo a Tito — que sejam sujeitos aos Príncipes e Magistrados, que lhes obedeçam e estejam prontos para toda a boa obra” (Tito 3, 1).

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii