03 de outubro — Santa Teresinha do Menino Jesus († 1897)
03 de outubro — Santa Teresinha do Menino Jesus († 1897)Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Nota do livro: Extraído do livro “História de uma alma, escrita por ela mesma”. Trad. do R. P. Armando Lochu, S. J. (Livraria Salesiana – S. Paulo).
Se Deus dá à Igreja Santos e Santas, não menos verdade é, que uma das primeiras condições de futura santidade é, fora da graça de Deus, a santidade dos progenitores. É justamente esta circunstância particular que se observa em relação à Santa Teresinha do Menino Jesus. Eram santos os pais.
Luís José Estanislau Martin, aos vinte anos, teve ardente desejo de tomar o hábito de São Bernardo, mas reconhecendo que os desígnios da Divina Providência eram outros, desistiu do plano. Zélia Guérin, jovem de muita piedade e de caráter enérgico e franco, aspirava a ser admitida entre as Irmãs de São Vicente de Paulo, e para este fim solicitou entrada na Congregação das mesmas, em Alençon. As superioras reconheceram não ser esta a vontade de Deus e, sem hesitação, disseram-lhe sua opinião a este respeito. Zélia, resignando-se com esta decisão, repetia muitas vezes no íntimo da alma esta prece:
“Meu Jesus, já que não sou digna de ser vossa esposa, como minha irmã querida2, abraçarei o estado de matrimônio, para cumprir a vossa vontade santíssima. Peço-vos, porém, encarecidamente, sejais servido conceder-me muitos filhos e que todos vos sejam consagrados”.
Deus, em sua paternal bondade, reservava para esta alma predileta o virtuoso jovem já mencionado e, graças a circunstâncias visivelmente providenciais, realizou-se o enlace matrimonial de ambos, em 12 de julho de 1858, na igreja de Nossa Senhora de Alençon. Por muitos meses, sendo este o íntimo desejo de Luís Martin, viveram como irmãos, até que se convenceu ser melhor compartilhar da aspiração da virtuosa esposa, de poder oferecer a Deus os frutos do abençoado matrimônio. Fez sua a súplica do casto Tobias, que assim rezara: “Se torno esposa nesta terra, bem sabeis, ó meu Deus, que o faço levado unicamente pelo desejo de obter uma posteridade, na qual o vosso nome seja bendito por séculos sem fim”.
Houve Deus por bem aceitar com agrado a santa disposição do piedoso casal e deu-lhe nove filhos, que no santo Batismo tiveram os seguintes nomes: Maria Luísa, Maria Pauline, Maria Leónie, Maria Helena (falecida aos cinco anos e meio de idade), José Maria, Maria José, João Batista, Maria Céline, Maria Melania Teresa (falecida três meses depois do nascimento) e Maria Francisca Teresa.
Depois do nascimento das quatro filhas mais velhas, era ardente o desejo do piedoso casal de ter um filho, que futuramente servisse a Deus como missionário, e nesta aspiração dirigiram-se confiadamente a São José. As orações foram ouvidas e o coração dos pais encheu-se de doce júbilo, quando lhes nasceu o primeiro filho, a quem deram o nome de José Maria. Mas os pensamentos do Senhor não são os nossos, nem os seus são os nossos caminhos. Assim aconteceu que, ao cabo de cinco meses apenas, o pequeno José trocasse este deserto pelos tabernáculos do Senhor.
Empenhados em alcançar do céu para sua família um sacerdote, um missionário, os pais instaram novamente com ardentes súplicas e grande lhes foi a alegria quando um outro pequenino José veio tomar o lugar do irmãozinho falecido. Nove meses se passaram e também esta florzinha se viu transplantada para os canteiros celestes.
Desistiram então de pedir ao céu outro missionário. Contudo realizou-se plenamente o desejo na pessoa da última filha, de todas a mais abençoada e privilegiada, alma providencial, a quem Deus deu uma missão grandiosa, verdadeiramente divina.
Nos pais os filhos viam o exemplo de cristãos santos. Amigos da oração, todas as manhãs se reuniam aos pés do altar e à mesa eucarística. Rigorosamente observavam a lei do jejum e da abstinência, eram escrupulosos na santificação do domingo, faziam com assiduidade as práticas de piedade, como a leitura espiritual e a oração em comum. Não faltavam, certamente, provações, mas a única resposta que davam a Deus era sempre uma total resignação a tudo que sua alta Providência quisesse determinar.
Embora houvesse certo bem-estar na família Martin, ninguém se excedia em luxos desnecessários e em tudo reinava grande simplicidade.
Em família de sentimentos tão cristãos e generosos, a virtude da caridade achava terreno mais amplo de atividade.
Das economias, o piedoso casal reservava anualmente avultada quantia para a Obra da Propagação da Fé. A casa estava-lhes sempre aberta para os pobres, e grandes eram as esmolas que lá recebiam. Na distribuição da caridade, o Sr. Martin não conhecia o respeito humano e muitos são os casos em que, com as próprias mãos, servia a pobres desamparados. Não é, pois, caso de estranhar que o nobre homem, em suas empresas, se visse acompanhado da bênção de Deus. Em 1871 abandonou a ourivesaria, continuando apenas com a fabricação de rendas, conhecidas com o nome de “ponto d'Alençon”.
Foi em Alençon, na rua São Brás, que nasceu a celeste florzinha, Santa Teresa do Menino Jesus, geralmente conhecida pelo nome que o povo cristão lhe deu — Santa Teresinha.
Às 11 horas e meia da noite de 2 de janeiro, Teresa abria os olhos para este mundo.
No dia do nascimento da “rainhasinha”, (assim o extremoso pai chamava sua filhinha), veio um pobre bater à porta da ditosa família e entregar um papel escrito, que mais parece uma profecia:
“Sorri, cresce depressinha,
Tudo te chama à aventura:
Amor, desvelos, ternura…
Sorri à fulgida Aurora,
Botão que nasceste agora,
Rosa mais tarde serás!”
Em 4 de janeiro, a graciosa menina foi levada ao batismo, onde recebeu o nome de Maria Francisca Teresa, servindo-lhe de madrinha a irmã mais velha, Maria Luísa.
Teresa contava apenas quatro anos e meio, quando a morte lhe arrebatou a querida mãe. Foi então que o Sr. Martin resolveu mudar a residência para Lisieux, onde morava o cunhado Guérin, cuja esposa velaria pela educação das orfãsinhas.
Pelo belíssimo exemplo que Teresinha tinha constantemente diante dos olhos, bem cedo se acostumou à prática das virtudes, e decerto é a expressão da verdade o que afirma na autobiografia: que desde a idade de 3 anos nunca recusou coisa alguma a Deus.
Dotada de inteligência superior, treinada pelas experiências colhidas no caminho da provação e da dor, a jovem menina, em bem poucos anos, chegou a demonstrar uma madureza admirável em julgar as coisas divinas e humanas. A esta firmeza de caráter, ao conhecimento profundo das coisas divinas, ao desejo de pertencer a Deus deve-se atribuir o fato de, com 15 anos apenas, se ter resolvido a entrar na Ordem do Carmelo, cuja regra é uma das mais austeras.
Em sua “História de uma alma”, escrita por ordem da superiora, Madre Inês de Jesus, a nossa Santa, com uma simplicidade encantadora, narra os fatos principais que se ligam à sua vida junto aos pais, no seio da família, a entrada na Ordem, descreve as dificuldades com que lutou, dificuldades de ordem material e espiritual, consolações que teve e graças extraordinárias que recebeu do divino Esposo.
Dos fatos narrados na “História de uma alma”, tenham aqui lugar só os mais notáveis.
Teresinha, bem pequenina ainda, fez a primeira confissão e saiu do confessionário muito satisfeita, achando que nunca até então tinha experimentado uma alegria igual.
Certo dia teve uma visão um tanto profética, que muito a impressionou. Estando o pai em viagem, que por longo tempo o afastava da família, Teresinha teve a impressão de ver diante de si um homem alquebrado, de cabeça encanecida e embuçada em véu espesso. Tudo daquele homem, o traje, o andar, a figura, tudo lhe fazia crer que fosse o pai querido. Tomada de estranho terror, chamou por ele com voz trêmula: “Papai, oh papai!” Mas o personagem assim interpelado não dava sinais de ter ouvido estas palavras e continuou a andar, afastando-se pelas alamedas do jardim. Teresinha nunca mais perdeu de memória esta misteriosa visão, presságio de futuros padecimentos, de que o pai seria vítima. O sr. Martin pelo fim da vida sofreu diversos ataques de paralisia, que lhe comprometeram a luz do espírito, de tal modo que, durante três anos, foi preciso ser entregue ao cuidado de pessoas estranhas.
Teresinha tinha oito anos e meio, quando se matriculou no colégio das religiosas beneditinas em Lisieux, como externa.
Embora muito mais nova que as companheiras da classe, tirava as melhores notas em composição, e era muito querida entre as religiosas, razões estas que não poucas humilhações lhe importavam, da parte de alunas menos consideradas e menos inteligentes. Foi neste espaço de tempo que na mente de Teresinha surgiu o primeiro pressentimento de ser por Deus chamada a abraçar o estado religioso no Carmelo. Este pressentimento tomou feições de desejo em 1885, quando a prima e amiga Maria Guérin entrou para o Carmelo de Lisieux.
No retiro que a irmã Celina fazia, em preparação para a primeira Comunhão, Teresa a acompanhou e experimentou as mais suaves impressões. O dia da primeira Comunhão considera-o um dos mais belos da vida.
Comparando-se com as irmãs, Teresa se reconhece menos afeita aos brinquedos próprios da idade infantil, porém mais sensível e choraminga até o excesso. Na família reinava sempre a mais pura harmonia e entre as irmãs e as primas havia o maior entendimento, a mais franca cordialidade.
Teresa era sempre fraquinha e dores de cabeça atrozes atormentavam-na por dias, semanas e meses, acompanhadas às vezes por estranhos tremores. Por vezes caía em delírio, sem entretanto perder o uso da razão. Vinham desmaios, que lhe tolhiam o mais leve movimento. O leito parecia-lhe rodeado de demônios e de precipícios horríveis. Os pregos cravados nas paredes do quarto tinham-lhe aos olhos a forma de dedos enormes, pretos e carbonizados, cuja vista lhe provocava gritos de horror. Em tão tristes lances se via como sempre, rodeada do mais afetuoso carinho do pai e das irmãs e parentes.
Desta doença, que resistia a todos os recursos da ciência médica, a santa menina se viu curada por Maria Santíssima. Celina, vendo baldados todos os esforços para conservar a vida da querida irmã, invocou, com todo o fervor de mãe que suplica, a Maria Santíssima, representada numa estátua, que a família Martin tinha muita veneração. A estátua, a mesma que se vivificara aos olhos da mãe de Teresa, animou-se de súbito também na presença desta: “A Virgem Santíssima adiantou-se para mim e sorriu…” Celina, ao vê-la fitar os olhos na estátua, disse de si para si: “Teresa está curada”. De fato, estava. No momento em que a irmã dizia isto consigo, o rosto de Teresa tornara-se diáfano e estava transfigurado. A fisionomia denunciava-lhe algo de sobrenatural. As pessoas presentes a esta cena sentiram-se tomadas de pasmo e admiração. Não havia dúvida de que Teresa em êxtase vira Maria Santíssima.
Grande prazer experimentava Teresa em ler livros que se lhe davam e, admirando a vida extraordinária de certos personagens históricos da França, por exemplo, a de Santa Joana d'Arc, sentia às vezes grande ímpeto de imitá-los. Deus, porém, fê-la compreender que sua vocação não era brilhar aos olhos dos mortais, mas fazer-se santa. Convencida disto, nunca mais perdeu de vista este grande ideal de tornar-se santa.
Restabelecida do terrível mal que a acometera e quase a levava às portas da eternidade, o pai proporcionou-lhe o grande prazer de um passeio agradabilíssimo, ocasião em que começou a conhecer o mundo. Via-se então muito festejada; admirada por todos, sem entretanto compreender o motivo de tantas atenções. Embora não fosse insensível às carícias de pessoas amigas, bem cedo chegou à conclusão de que tudo é vaidade, exceto amar e servir a Deus.
Pessoas da intimidade, por exemplo as mestras, notaram em Teresa grande inclinação à oração mental. A menina meditava de fato, sem contudo dar conta de tal e chamava a isto pensar.
Diz ela que fez a primeira Comunhão nas melhores disposições. Três meses empregou na preparação. Ela mesma confessa ser-lhe impossível contar as impressões que teve, no momento de receber a sagrada Hóstia. “Meu encontro com Jesus naquele dia não podia ser apenas um simples olhar, mas era sim uma fusão. Já não éramos dois. Teresa desaparecera, como a gota d'água que se abisma no seio do oceano. Restava só Jesus e era o Senhor, o Rei!” Tão intensa, tão profunda lhe era a alegria, que não pôde conter as lágrimas, o que despertou grande admiração nas pessoas que assistiam e que julgavam serem lágrimas de saudades da mãe e da irmã carmelita. Mas era só alegria, alegria ineffável e profunda, que lhe enchia o coração.
Pouco tempo depois recebeu o sacramento da Confirmação, em preparação para o qual fez novo retiro. Foi na Confirmação que recebeu a força de que precisava, para o martírio da alma, que estava a anunciar-se.
Uma graça extraordinária Teresa viu no modo por que Deus a desiludiu das afeições humanas. Os anos que se seguiram à primeira Comunhão, foram anos de estudo, mas também de provações e escrúpulos atormentadores.
Na “História de uma alma”, Teresa não faz segredo nenhum dos seus defeitos e fala-nos de pequenos laivos de vaidade, da extrema sensibilidade, que a fazia chorar por coisas de nonada. Esta sensibilidade parecia-lhe tão pronunciada e tão insuportável, que chegou seriamente a duvidar da possibilidade de ser admitida no Carmelo, como tinha ardente desejo.
O ideal de ser religiosa Carmelita desenhava-se cada vez mais nítido, na alma da piedosa donzela. Obter o consentimento do pai e das irmãs e pedir admissão na Ordem não era tão difícil como a princípio se lhe afigurara. Mas o tio era de parecer contrário, achando imprudente uma jovem de quinze anos apenas entrar numa Ordem tão austera, como é a das Carmelitas. Não só se declarou contrário à ideia, mas ainda acrescentou que se havia de opor à execução de tal plano, caso não houvesse a intervenção de um milagre.
Vendo contrariado o seu pensamento e profundamente amargurada, Teresa pôs-se a rezar e pediu a Jesus que fizesse o milagre exigido. Aconteceu que neste tempo de tribulação lhe sobreviesse uma aridez de espírito dolorosíssima, sentindo-se por completo abandonado da parte de Deus durante três dias. Quando menos o esperava, porém, teve a satisfação de ver o tio completamente mudado a esse respeito. Já não exigia o milagre, uma vez que Nosso Senhor lhe tinha mostrado ser do divino agrado que se fizesse religiosa. “Vai em paz, querida filhinha, — disse-lhe o tio, abraçando-a paternalmente, — “és uma florinha privilegiada, que o Senhor quer para si e a isto não me hei de opor”.
Levantou-se, entretanto, outra dificuldade e esta era de natureza muito séria, mesmo insuperável: a recusa formal do Superior do Carmelo de receber na Ordem uma donzela de quinze anos. Idêntica foi a decisão do Bispo de Bayeux, se bem que este, muito comovido pela insistência com que Teresa apresentou o pedido, secundado pelas afirmações do pai, não lhe cortasse o fio da esperança, prometendo-lhe falar com o Superior a respeito e responder-lhe então.
Um dos capítulos mais característicos da vida de Santa Teresa do Menino Jesus é sem dúvida aquele em que conta a viagem a Roma, que se efetuou três dias depois da audiência que lhe concedeu o Bispo de Bayeux. Já naquela audiência, o pai tinha dito ao Prelado que, no caso de não obter a desejada autorização, a filha não hesitaria em falar ao Santo Padre. Foi o que se deu, como se verá pelo que se segue.
A peregrinação que se destinava a Roma saiu de Paris no dia 7 de novembro de 1887, sob a direção de Mons. Legoux, Vigário Geral de Coutances. Estava também entre os peregrinos o Padre Révérony, Vigário Geral de Bayeux, de quem Teresa diz que a observava diligentemente, em toda a viagem.
Chegados à Roma, só em 20 de novembro tiveram a ventura de serem recebidos em audiência no Vaticano. A Santa mesma conta-nos, com toda a minuciosidade, o histórico dessa audiência.
“Na manhã do domingo (20 de novembro), fomos ao Vaticano. Às 8 horas assistimos à Missa do Sumo Pontífice. Acabada a Missa de ação de graças, que se seguiu à do Santo Padre, principiou a audiência. Leão XIII estava assentado na poltrona, em trono elevado, vestido de batina branca e murça da mesma cor. Ladeavam-no diversos Prelados e as mais altas dignidades eclesiásticas. Conforme as prescrições do cerimonial, cada um dos peregrinos ia, por sua vez, ajoelhar-se, beijar primeiro o pé e logo a mão do augusto Pontífice e receber-lhe a bênção; em seguida, dois guardas nobres, tocando-o de leve com o dedo, significavam-lhe que se levantasse para passar à outra sala e ceder o lugar ao seguinte.
Ninguém tugia, mas eu estava resolvidíssima a falar, quando o Revmo. Pe. Révérony, que se pusera à direita de Sua Santidade, nos fez saber publicamente que proibia terminantemente que se falasse ao Santo Padre. Voltei-me para Celina, a interrogá-la com o olhar; entretanto, dava-me o coração pancadas de fazer estalar.
— Fala! — disse-me ela.
Momentos depois estava eu ajoelhada diante do Papa. Beijei-lhe o pé e apresentou-me a mão. Levantando então para ele os olhos cheios de água, dirigi-lhe esta súplica:
— Santíssimo Padre, desejo pedir-vos uma graça importante! — Inclinou logo a fronte até junto do meu rosto; como se os seus olhos pretos e profundos quisessem penetrar até o âmago de minha alma.
— Santíssimo Padre, — insisti — em memória do vosso jubileu, autoriza-me a entrar no Carmelo aos quinze anos! O Revmo. Vigário Geral de Bayeux, estupefato e descontente, atalhou imediatamente:
— Santíssimo Padre, é uma criança que deseja abraçar a vida do Carmelo, mas os Superiores estão atualmente examinando o caso.
— Pois bem, minha filha, — disse então Sua Santidade, — esteja pelo que decidirem os superiores.
De mãos postas e encostadas aos seus joelhos, fiz esta última tentativa:
— Ó Santíssimo Padre, é só dignar-vos a responder-me sim, para que concordem todos!
Olhou-me fixamente e proferiu estas palavras, martelando cada sílaba, em tom de voz penetrante:
— Pois não… vamos… entrará, se assim aprouver a Deus.
Ia eu insistir ainda, quando se aproximaram dois guardas nobres, acenando que me levantasse. Ao verem que não bastava este aviso, travaram-se dos braços e o Revmo. Padre Révérony veio também ajudar a erguer-me, visto como ainda me deixava ficar queda, de mãos postas e apoiadas nos joelhos do Papa.
No momento em que era assim removida, o bom do Santo Padre pôs suavemente a mão sobre os meus lábios e ergueu-os logo depois para me abençoar e por largo espaço de tempo esteve me acompanhando com o olhar”.
*
Tornados a Lisieux, a primeira visita foi ao Carmelo. Um novo requerimento que Teresa fez ao Prelado diocesano, não teve pronto despacho, como desejava e esperava. Passou-se o Natal do ano de 1887, sem obter resposta alguma. O dia 1º de janeiro de 1888 tirou-a afinal da incerteza. Foi nesse dia que a Madre Maria de Gonzaga lhe comunicou ter recebido autorização do Bispo para recebê-la imediatamente, como postulante, no Carmelo. Na carta à Superiora, acrescentava que só depois da quaresma a entrada se poderia efetuar.
O dia 9 de abril de 1888 trouxe-lhe afinal a ventura da entrada no Carmelo. Bem depressa se livrou das emoções, que acompanharam a despedida do pai, das irmãs, da casa paterna e, com intenso júbilo na alma, folgava de repetir: “Cá estou para todo o sempre!”
Desde o começo da vida religiosa no claustro, pôde Teresa experimentar as provações com que Nosso Senhor costuma mimosear seus prediletos. Uma aridez espiritual parecia ser-lhe o pão cotidiano e a Madre Superiora introduziu-a logo nas práticas costumeiras do Carmelo, tratando-a sempre com extraordinária severidade, não lhe perdoando a mínima falta que cometesse. Destarte Teresa bem cedo se habituou a considerar na Superiora não a criatura, mas a pessoa de Nosso Senhor, ficando assim preservada de afeições humanas no claustro, que são uma verdadeira calamidade.
Extraordinária e mui significativa é a declaração que Teresa fez, no exame canônico que lhe precedeu a profissão, dizendo: “Vim para salvar as almas e especialmente para rezar pelos sacerdotes”. Fiel a este propósito, ofereceu-se a Jesus como vítima, convencida de que só pelo sofrimento poderia fazer algum bem às almas. Durante cinco anos realizou esta prática, sem que pessoa alguma o soubesse.
Em 10 de janeiro de 1889 recebeu o hábito, cerimônia a que presidiu o Bispo Diocesano e que se revestiu de grande solenidade, estando presentes as irmãs de Teresa. Para satisfazer o desejo do pai, usava naquele dia vestido de veludo branco, guarnecido de cisne e ponto de Alençon. Trazia soltos e deitados sobre os ombros os grandes anéis de cabelos louros e lírios formavam-lhe o adorno virginal. Acompanhada pelo pai, entrou solenemente na capela.
Para o sr. Martin foi um triunfo e também sua última festa no mundo, pois um mês depois foi acometido de grave doença, que o levou à sepultura seis anos após.
O tempo do noviciado passou célere, entre as práticas de piedade, de virtude e mortificação, sem que houvesse ocorrido fato de maior relevância.
Decorrido um ano, passou pela decepção de não poder professar. Declarou-lhe a Superiora que, devido à oposição formal do Revmo. Padre Superior, havia de esperar mais oito meses. A própria Santa confessa que, a princípio, lhe custou aceitar tamanho sacrifício, mas, ajudada pela graça divina, conformou-se inteiramente com a decisão de quem fazia as vezes de Jesus.
Passado o tempo da provação, ficou marcado o dia 8 de setembro de 1890 para a profissão religiosa.
Horas antes da profissão religiosa, recebeu de Roma a bênção do Santo Padre, fato que muito a consolou, tendo durante o retiro espiritual experimentado a mais completa aridez. Permitiu Deus que sua serva, no dia que precedia a profissão, fosse horrivelmente perturbada por tentações a respeito da vocação. “A minha vocação — assim escreve — afigurou-se-me de improviso simples sonho e quimera; o demônio — pois era ele mesmo — inspirava-me a convicção de que a vida do Carmelo não me convinha por forma alguma, e que enganava os Superiores, metendo-me por um caminho ou instituto de vida para o qual não fora chamada. Tão densas se amontoaram estas trevas, que cheguei a persuadir-me de uma coisa única: não tendo vocação religiosa, devia voltar ao mundo”. Foram angústias indescritíveis e para dissipá-las Teresa foi ter-se com a mestra e manifestou-lhe a tentação. Foi o bastante, para lhe voltar a calma e o sossego.
Se procurarmos saber que meios Santa Teresa empregou para chegar a tão alto grau de perfeição, que a Igreja e com esta todos os fiéis lhe admiram, descobriremos três: — a oração, a vida unida a Nosso Senhor, a mortificação e o amor sem limites a Deus. É este o pequeno caminho de que fala no seu testamento, aquele caminho que lhe deu tanta paz e alegria espiritual.
Diz a “História de uma alma”: “Se a santinha opera hoje transformações maravilhosas nos corações, se é imenso o bem que vai fazendo na terra, podemos crer legitimamente que o comprou pelo mesmo preço que custou a Jesus o resgate das nossas almas, isto é, pelo sofrimento e pela cruz. Não lhe foi o menor dos martírios a luta corajosa que empreendeu, sem tréguas, contra si mesma, negando toda e qualquer satisfação às exigências da natureza ardente e briosa. Desde criança se habituara a nunca apresentar desculpas e nunca se queixar; no Carmelo se apostou a ser em tudo a humilde serva das irmãs. Animada deste espírito de humildade, fazia por obedecer a todos indistintamente”.
O espírito de sacrifício era-lhe universal. Tudo quanto havia de mais penoso e menos agradável, por isso mesmo o procurava com sofreguidão. Tudo o que Deus lhe pedia, dava-lho sem reserva. O que mais a martirizou fisicamente, como o confessa, foi a privação do fogo durante o inverno. “O frio tem sido para mim um tormento de morte”.
Na Sexta-Feira Santa (3 de abril de 1896), apareceram os primeiros anúncios da “chegada do Esposo”. Frequentes eram as hemoptises que lhe sobrevinham, mas a Santa sabia habilmente as disfarçar, tanto que só em maio de 1897 as Irmãs souberam do verdadeiro estado de sua saúde.
Tão familiarizada estava com o sofrimento, que no fim da vida pôde afirmar: “Cheguei a ponto de não poder já sofrer, porque todo o sofrimento se me torna suave”.
A sua inteira conformidade com a vontade de Deus tem expressão nítida nas palavras que na autobiografia lhe encontramos: “Não desejo a morte nem tão pouco a vida e se Nosso Senhor me deixasse a escolha, não escolheria nem uma nem outra; quero unicamente o que Ele quer; o que Ele faz, é também o que amo”.
O estado de saúde da querida Santa em 1897 começava já a causar sérias apreensões às Irmãs, e em julho do mesmo ano foi preciso transferi-la definitivamente para a enfermaria. Os últimos meses foram de sofrimentos incalculáveis, causados por um desânimo, que o demônio lhe preparava, atormentando-a com tentações contra o amor de Deus. “Tens certeza — dizia-lhe a voz maldita — de ser realmente amada por Deus?”
Quando, em 30 de julho, recebeu a Extrema-Unção, disse, jubilosa, às Irmãs: “A porta da minha escura prisão está entreaberta; estou radiante, principalmente depois que o nosso Padre Superior me assegurou que a minha alma se assemelha hoje à de uma criancinha recém-batizada”.
Desde o dia 16 de agosto até 30 de setembro, as frequentes hemoptises não lhe permitiam receber a santa Comunhão, sacrifício este que de todos lhe era em extremo sensível.
Que Santa Teresa teve conhecimento da morte próxima, prova-o o que em 1895 disse a uma religiosa veterana e fidedigna: “Hei de morrer muito breve: não digo que será daqui a alguns meses, isto não; mas, dentro de dois ou três anos, quando muito; tiro este pressentimento do que me vai dentro da alma”.
São dos últimos dias de sua existência estas memoráveis palavras: “Nunca dei a Deus senão amor e com amor também me há de recompensar. Depois da minha morte farei cair uma chuva de rosas. Sinto que está chegando a hora de desempenhar a minha missão — a de fazer amar a Nosso Senhor como O amo… de dar a conhecer a minha veredazinha às almas. Quero passar o meu céu empenhada em fazer bem na terra. Não é coisa impossível, visto como mesmo no seio da visão beatífica os Anjos estão velando por nós. Não, até o fim do mundo não poderei descansar! Mas, quando o Anjo disser: “o tempo já não existe! — só então descansarei e poderei gozar, porque já estará completo o número dos eleitos”.
Muitas coisas edificantes disse ainda Santa Teresa às Irmãs, nos últimos dias de doença.
Entretanto, a dor aumentava dia para dia. A fraqueza chegou a tais extremos, que a doente sem auxílio não podia fazer o mais leve movimento. Causava-lhe aflição horrível ouvir falar perto de si. A febre martirizava-a de tal maneira, que só com grande esforço podia pronunciar uma palavra. Mas no meio de todo este sofrimento, um leve sorriso lhe aflorava aos lábios.
Chegou, afinal, o dia 30 de setembro, o dia de sua santa morte. Estreitando o crucifixo nas mãos, parecia absorta em profunda meditação. Quando o sino do Mosteiro tocou às Ave-Marias vespertinas, fixou na Virgem Imaculada um olhar inexprimível. Cobria-lhe o rosto um suor copioso: tremia. Às sete horas e poucos minutos perguntou à Madre Priora:
— Minha Madre, não será talvez a agonia? Não estou nas últimas?
— Pois não, minha filha, é a agonia; mas Jesus quer prolongá-la talvez algumas horas.
E ela, muito resignada:
— Pois bem… vamos… vamos… oh! não quisera que se me abreviassem os sofrimentos…
E olhando para o crucifixo:
— Oh!… Amo-O!… Meu Deus, eu Vos… amo!!!
Foram estas suas últimas palavras; pronunciando-as, deixou-se cair sobre o leito, numa atitude semelhante à de algumas virgens mártires, que se dispunham a receber o último golpe. De repente se ergueu, como se fosse para atender a uma voz misteriosa, abriu os olhos, e fitou-os com uma expressão de júbilo indizível, um pouco acima da imagem de Nossa Senhora. Isso durou mais ou menos a recitação de um “credo” e sua alma voou para os páramos celestes.
Logo depois da morte de Teresinha, começaram a dar-se na comunidade fatos extraordinários. Verificou-se a profecia da Santa, que disse: “Depois da minha morte farei cair uma chuva de rosas”.
O mundo católico encheu-se de admiração pela santidade da humilde carmelita de Lisieux, e Deus glorificou-a, fazendo-a benfeitora da humanidade, como provam os milagres, que apareceram às centenas.
Treze anos depois da morte, procedeu-se-lhe à exumação do corpo e nesta ocasião foi encontrada intacta e verde a palma que as religiosas lhe tinham posto na mão, logo após a morte.
Beatificada em 1923, Sua Santidade o Papa Pio XI, no ano do jubileu de 1925, lhe deu a honra dos altares. As relíquias, depositadas na capela do Mosteiro do Carmelo em Lisieux, repousam numa riquíssima urna de prata dourada, oferecida pelos católicos do Brasil.
REFLEXÕES
O segredo da santidade de Teresa do Menino Jesus está na perfeita harmonia das virtudes que lhe adornaram a alma e a tornaram tão agradável aos olhos de Deus. São: a humildade e a simplicidade, abnegação de si própria, levada até o heroísmo, o espírito de sacrifício, um amor sem limites a Nosso Senhor e uma confiança sem reserva em Deus. Como não há nada de extraordinário na vida desta santa carmelita, seu exemplo é perfeitamente imitável por todos que seriamente querem a salvação de sua alma. Basta imitar lhe as virtudes, invocar lhe a poderosa intercessão. O Espírito Santo, que rege a Igreja de Deus sobre a terra, reservou esta mimosa flor do céu para os nossos tempos, tão pobres de amor e tão saturados de miséria. Graças lhe rendamos por ter dado aos filhos um exemplo tão perfeito de virtudes e santidade, que mostra à humanidade o “pequeno caminho” da santificação. Benfeitora que é dos pobres mortais, que se lhe dirigem nas necessidades materiais e espirituais; padroeira dos missionários que trabalham nas linhas mais avançadas da milícia de Cristo, na terra dos pagãos – a Igreja de Cristo, reverente, curva-se diante desta filha privilegiada, que tanto já fez e mais ainda fará, para implantar o reino de Cristo nos corações dos homens.
ORAÇÃO
Senhor, que dissestes: “Se não vos fizerdes como meninos, não entrareis no reino dos céus” – fazei-nos seguir a santa Virgem Teresa em humildade e simplicidade do coração, para que consigamos alcançar os prêmios da vida eterna.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩
- Irmã mais velha de Zélia, que entrou no Mosteiro da Visitação de Mans, com o nome de Soror Maria Dorothéa e que em 1877 morreu santamente, com a idade de 48 anos. ↩