03 de março — Santa Cunegundes, Viúva e Imperatriz
03 de março — Santa Cunegundes, Viúva e ImperatrizExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Filha de Sigefredo, conde de Luxemburgo e de sua mulher Hedwiges, nasceu Cunegundes pelos fins do século décimo. Origem, ótimas qualidades morais e físicas concorreram para Cunegundes ser o encanto de todos que pelas circunstâncias ficassem em contato com a nobre condessa de Luxemburgo. Tendo desde a mais tenra infância uma inclinação declarada às coisas santas, não é para admirar que em seu coração surgisse o desejo de se dedicar ao serviço de Deus e de Maria Santíssima em perfeita castidade. Deus satisfez-lhe este desejo, e dum modo que parece uma maravilha da graça divina. Casada com Henrique II, imperador da Alemanha, com seu ínclito esposo recebeu a coroa imperial das mãos do Papa Bento VIII em Roma. Piedoso e de grande virtude, Henrique estimava a castidade, do mesmo modo que sua esposa e de acordo com Cunegundes fizeram os dois cônjuges já no dia do casamento o voto de castidade perpétua. Vivendo na maior harmonia e caridade um com o outro, sua única aspiração era trabalhar pela honra de Deus, santificação do seu Nome e pela felicidade dos seus súditos. Exemplo tão edificante de um casal no trono imperial, mui naturalmente devia provocar as iras profundas do inimigo de todo o bem. Tratou ele de semear discórdia entre os dois esposos que até então tinham sido um coração e uma alma. Não era difícil que se encontrasse instrumentos próprios para pôr em execução o plano tenebroso. Surgiu uma calúnia como mais infame não podia ser inventada, contra a honra da virtuosa esposa. No princípio Cunegundes sofreu tudo com grande paciência, se bem que todo o seu ser se revoltasse contra tamanha maldade.
Mas quando viu que o mal tomava vulto, que o caso ia tomar proporções de grande escândalo, quando o próprio esposo, atormentado pelo que ouvia, chegou a externar as suas dúvidas, Cunegundes fez uma declaração pública, desfazendo por completo todas as suspeitas, obrigando assim os caluniadores ao silêncio. Em testemunho de sua inocência invocou o juízo de Deus, mandando pôr no chão relhas em brasa. Depois de ter elevado o espírito a Deus, andou descalça sobre os ferros sem que os pés mostrassem o mais leve ferimento.
Todos que viram este milagre, ficaram convencidos de sua santidade e Henrique, seu esposo, prostrou-se-lhe aos pés, pedindo perdão da facilidade com que dera crédito às infames acusações.
Um ano depois da morte do imperador, Cunegundes apresentou-se com toda a pompa na Igreja do convento de sua fundação, para assistir à solene sagração da mesma.
Estavam presentes a corte toda e o clero. Logo após a sagração da Igreja, Cunegundes ofereceu à mesma uma partícula do Santo Lenho. Depois do Evangelho despiu-se dos ornatos que trazia e recebeu do Bispo um hábito feito por suas próprias mãos; deixou que lhe cortasse o cabelo, e cobriu a cabeça com o véu e assim foi, pelo prelado, entregue à comunidade. Este dia foi para Cunegundes o mais feliz de sua vida. Quinze anos viveu ela como religiosa naquele convento (em Kaufungen, perto de Cassel), dando a todas as irmãs o exemplo de grande virtude, sujeita em tudo às determinações da regra e da obediência. O convento possui riquíssimos paramentos feitos pela Santa. Cunegundes morreu em 3 de março de 1039. Prestes a entregar sua alma ao Criador, notou que as irmãs traziam cobertas preciosíssimas para a exposição do seu corpo na câmara-ardente. Pediu então que a vestissem com o hábito da Ordem. Seu desejo era ter a sepultura ao lado de Henrique, seu irmão e senhor.
Diz a lenda que no momento em que se abria o túmulo do imperador, ouviu-se uma voz do céu: “O virgo virgini, locum tribue!” (Virgem, dê lugar à virgem).
E o sarcófago que continha o cadáver de Henrique movera-se para um lado, como que para dar lugar ao corpo de sua virginal esposa.
Seu túmulo foi glorificado por numerosos milagres. O Papa Inocêncio III canonizou-a em 1200.
Reflexões
1. Santa Cunegundes serve de exemplo aos cristãos, mostrando-lhes como devem proceder, quando vis calúnias os ataca e persegue. A santa imperatriz, ofendida no que lhe era mais caro, sofreu calada, e só se defendeu, quando o dever o exigia, para evitar grande escândalo. Deus mesmo se incumbira de provar a inocência de sua fiel serva, e esta, longe de procurar vingar-se, perdoou de coração aos seus caluniadores. Santa Cunegundes outra coisa não fez senão imitar o exemplo do divino Mestre que, sendo injuriado, não injuriou; sofrendo, não ameaçou. Não é cristão, não merece o nome de discípulo de Jesus Cristo, quem não quer sofrer com paciência as injúrias, calúnias e injustiças, mas ao contrário, em vez de perdoar, anda com projetos de vingança, procurando tirar desforra.
2. Santa Cunegundes abandonou as honras e glórias do mundo, entregou seu corpo a duras penitências, fazia os trabalhos mais humildes, visitava os doentes, dividia o tempo entre orações, jejuns e obras de mortificação, levava uma vida de penitente, ela que era inocente e cuja virtude era ilibada. Tudo isto fazia para tornar-se mais semelhante a seu divino Esposo e adquirir o mais alto grau possível de santidade. — Que fazes tu para chegar à perfeição? Que fazes tu por amor de Deus? Por amor do teu corpo fazes muita coisa. Para subir no conceito dos homens, não medes sacrifícios. Nada negas aos requisitos de teu egoísmo. Tudo que ele quer para tua comodidade, facilmente tem, quando tempo não te resta para atender um pouco às necessidades da alma. Horas passas em inúteis conversações e divertimentos frívolos; as orações são feitas às pressas, com mil distrações, com sinais inequívocos de fastio e de mortificações; penitências nem sombra se vê. Santa Cunegundes era de opinião de que o céu não se alcança sem trabalho, sofrimento, penitência e oração. Tu pensas que tudo isto é dispensável e por isso, se de todo não dispensas estas obras de piedade, as reduzes ao mínimo. A Imitação de Cristo diz sobre este ponto: “Nós nos enganamos a nós mesmos pelo amor desordenado que temos ao nosso corpo. Não é possível que possas gozar duplamente. Não é admissível que tenhas na terra uma vida cheia de gozo e no céu estejas unido a Cristo”.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩