03 de junho — Santa Clotilde, Rainha da França
03 de junho — Santa Clotilde, Rainha da FrançaExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Apesar de ser filha dos reis de Borgonha, teve Clotilde uma infância muito triste. Gundobaldo, seu tio, obcecado pela ambição, assassinou os pais de Clotilde, dois dos seus irmãos, enclausurou a irmã mais velha num convento e levou consigo Clotilde, menina de extraordinária beleza. Embora vivesse num ambiente todo ariano, Clotilde teve a felicidade de receber uma mestra católica, que a educou na religião verdadeira. Quanto mais se antipatizava com a presença do assassino de seus pais, tanto mais se entregava a Deus e à sua divina Mãe.
Debalde se esforçava para ficar desconhecida do mundo: sua rara beleza e mais ainda as belas qualidades do coração e do espírito atraíram a atenção de toda a Borgonha, que se orgulhava de possuir uma princesa tão virtuosa.
Pedida em casamento por Clóvis I, rei da França, deu seu consentimento só depois de muito rezar e ainda assim com a condição de o rei, que ainda era pagão, lhe deixasse toda a liberdade em praticar sua religião. Clóvis deu sua palavra de honra de querer respeitar a religião de Clotilde e assim contraíram núpcias em 493.
O único desejo de Clotilde era a conversão do rei e do seu povo ao catolicismo. Contando com a influência do bom exemplo, instalou a rainha em seu palácio uma capela riquíssima, e organizou o culto do modo mais esplendoroso. Pessoalmente, de pontualidade rigorosa no cumprimento dos seus deveres religiosos, sua vida era de penitência e de caridade sem precedentes. Deste modo Clotilde não só alcançou ser respeitada e amada no meio dos elementos mais ou menos hostis à religião cristã, mas ainda conseguiu que o rei perdesse seus preconceitos em matéria de religião, e se sentisse feliz em possuir uma esposa tão virtuosa.
Clotilde não perdia ocasião para mostrar ao seu esposo a beleza da religião de Jesus Cristo, e incessantemente dirigia preces à misericórdia divina, para que se compadecesse do rei da França e do seu povo, e lhes concedesse a todos a graça da conversão. Clóvis não era inacessível aos rogos de sua esposa, mas não se animava a abandonar as superstições do paganismo, receando o desagrado do seu povo. Não obstante, consentiu que seu primeiro filhinho fosse batizado com toda a solenidade.
Aprouve a Deus sujeitar sua fiel serva a provações duríssimas. O primeiro filho morreu poucos dias depois de ter recebido o Batismo. Indescritível era a dor do rei e seu coração encheu-se de rancor contra a esposa, contra a qual levantou as mais duras acusações. "Eu vejo na morte de meu filho a ira dos deuses que, irritados com o batismo cristão, assim se vingaram". Clotilde, com mansidão, respondeu: "Não menos motivo tenho eu de chorar a morte da criança; mas dou graças a Deus, que se dignou de me dar um filho para recolhê-lo logo ao seu reino". Que bela resposta, digna de uma mãe cristã!
Clotilde não desanimou e continuou a preparar o espírito de Clóvis, para que ele recebesse a graça do Cristianismo. Quando deu à luz o segundo filho, conseguiu do rei o consentimento para o Batismo da criança. Aconteceu, porém, que esse segundo menino também adoecesse gravemente, depois da recepção do Sacramento. Para Clóvis já não havia mais dúvida que era o Sacramento cristão o causador da morte do primeiro e da doença do segundo filho. Alucinado pela dor, rompeu em blasfêmias e lançou contra sua esposa os mais graves insultos. Clotilde sofreu tudo isso calada, mas seu amor a Deus e sua confiança na divina Providência nenhum abalo sofreram. Com o intuito de desagravar sua santa religião ultrajada, tomou a criança doente em seus braços e, de joelhos ante o crucifixo, ofereceu a inocência do filhinho pela conversão do pai. Deus recompensou essa humildade e caridade pela repentina cura do menino.
A alegria e o pasmo de Clóvis, ao ver seu filho são e salvo, eram indescritíveis. Bendizendo a grandeza e o poder do Deus dos cristãos, prometeu aceitar a fé cristã, promessa cujo cumprimento, porém, depois protelou, alegando mil motivos.
Nestes entrementes, veio a guerra contra os Alamanos. Despedindo-se de sua mulher, esta lhe disse: "Não ponhas tua confiança em teus deuses, que nenhum poder tem, mas confia em Deus, Todo-Poderoso, que te dará a vitória sobre teus inimigos. Lembra-te destas palavras, quando te achares em perigo".
Em Tolbiac, feriu-se sangrenta batalha, e a vitória pendia para o lado dos Alamanos. Nas fileiras dos exércitos de Clóvis reinava já desordem e ele mesmo corria risco de ser aprisionado. Nesta suprema angústia, Clóvis se lembrou das palavras que sua esposa lhe dissera na despedida e, olhos e mãos elevadas ao céu, assim rezou: "Ó Deus de Clotilde, valei-me! Se me libertardes desse perigo e me concederdes a vitória, eu acreditarei em Vós e a vossa religião será introduzida no meu reino". Imediatamente as coisas mudaram de aspecto. Um pânico inexplicável apoderou-se dos inimigos, que foram completamente derrotados. Indescritível foi o júbilo dos Francos e do seu rei, que tão evidentemente acabara de experimentar o poder do Deus dos cristãos.
Desta vez Clóvis cumpriu sua palavra. Instruído na doutrina cristã por São Remígio, pelo mesmo santo bispo foi batizado, em 496, em Reims, e com ele 3.000 francos receberam o mesmo Sacramento. As ruas da cidade ostentavam ornato pomposo, e a catedral achava-se solenemente enfeitada. "É este o reino dos céus, santo Padre?", perguntou o rei ao transpor o limiar da catedral. Quando o bispo lhe falou da morte de Cristo na Cruz, Clóvis respondeu: "Se eu lá tivesse estado, com os meus Francos, nada lhe teria acontecido". Quando Clóvis se dirigiu à pia batismal, São Remígio o recebeu com estas palavras: "Inclina tua cabeça, altivo Sigambro, e adora o que até hoje perseguiste, e persegue o que até agora adoraste". Diz a lenda que no momento do batismo de Clóvis, todo o povo viu sobre ele uma pomba branquíssima, trazendo no bico um frasco com os santos óleos, e um anjo, com um estandarte de bordado riquíssimo. O frasco conservou-se até o tempo da revolução, quando foi quebrado. O Liz, desde então, o brasão dos reis de França, é um símbolo antiquíssimo de origem céltica e significa fertilidade.
Embora cristão, Clóvis continuou na sua carreira de conquistador, dando muitas provas do seu caráter bárbaro e da sua índole feroz. Ele morreu na idade de 70 anos. Clotilde teve muitos e profundos desgostos com seus filhos, que se guerreavam em lutas fratricidas. Ela morreu em 545 e seu corpo se acha na igreja de Santa Genoveva, em Paris.
Reflexões
Grandes foram as provações, por que Deus fez passar sua fiel serva e apóstola, Santa Clotilde. A resignação profunda, a fé em Deus e a oração perseverante, fizeram com que o desânimo não se apoderasse de sua alma atribulada, e vitoriosa a fizesse sair da luta contra os infortúnios, que lhe atravessavam o caminho. Deus concedeu-lhe a grande graça e satisfação da conversão de seu marido e de uma grande parte dos seus súditos.
Se também a nós Deus mandar uma cruz, em forma de contínuas contrariedades, acusações injustas e sofrimentos físicos e morais, recorramos à oração, e não nos entreguemos à tristeza e ao desânimo. Sofrimento que vem mandado por um Pai, que nos tem tanto amor, não pode visar outro fim, senão o nosso bem temporal e eterno. O sofrimento um dia há de se converter em alegria; as lágrimas derramadas hoje, darão lugar a uma felicidade que não terá fim.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩