03 de janeiro — Santa Genoveva
03 de janeiro — Santa GenovevaExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Santa Genoveva, a gloriosa Virgem, célebre por seus milagres, nasceu em 422 em Nanterre, próximo de Paris. De seus pais Severo e Geroncia recebeu uma educação esmerada, fundamento sólido da sua futura santidade. Genoveva contava sete ou oito anos quando por Nanterre passaram os dois bispos Auxerre e Lupo de Troyes, em demanda da Inglaterra, país ainda pagão, onde iam se dedicar à obra da propaganda da fé. Grande multidão de povo se aglomerou em redor dos dois apóstolos, pedindo sua bênção. Estavam presentes também os pais de Genoveva e esta mesma. São Germano, por inspiração divina, conheceu a menina e, dirigindo-se a Severo e Geroncia, disse-lhes: “Felizes de vós, de possuirdes esta menina. Ela será grande diante de Deus e atraídos pela sua virtude, muitos pecadores abandonarão a senda do pecado e seguirão Jesus Cristo”. A Genoveva deu o conselho de fugir da vaidade do mundo e, procurar sua felicidade, na prática das virtudes. Em seguida deu-lhe uma moeda de cobre que trazia a imagem da cruz e disse-lhe: “Leva esta moeda como lembrança minha. Não ponhas nunca ouro, prata ou pedrarias nem no pescoço, nem nos dedos, porque se não desprezares o enfeite mundano, jamais alcançarás a beleza eterna”. Genoveva com os anos progrediu na virtude e santidade. Diferente das outras crianças, fugia dos divertimentos profanos e das vaidades, do desejo de ver, de ser vista, aliás, tão próprio do seu sexo, e finalmente da convivência ou familiaridade com pessoas do outro sexo, a isca perniciosa do pecado, eram para Genoveva coisas completamente desconhecidas. Seu único prazer era visitar a igreja. Quando uma vez, em dia de festa, a este tempo recuperou a vista, tendo lavado os olhos três vezes com a água que Genoveva tinha tirado da fonte e benzido com o Sinal da Cruz.
Tendo quinze anos, Genoveva fez o voto de castidade nas mãos do bispo da mãe de Genoveva indo à igreja, não quis que a filha a acompanhasse, esta disse chorando: “Com a graça de Deus quero cumprir a palavra que dei a São Germano; irei à igreja para merecer a honra que ele me prometeu”. Geroncia num acesso de cólera, bateu no rosto de sua filha. Por castigo veio-lhe uma cegueira que durou 21 meses. Passado Paris, recebeu o véu sagrado. Desde aquele dia penitencias, e mortificações ocupavam grande parte do seu tempo, pois muito bem ela sabia que a flor delicadíssima da pureza do coração não pode desenvolver todo o seu encanto numa vida ociosa e de comodidades. Seu alimento era pão de cevada, sua bebida água da fonte, seu leito o chão. Apesar da sua vida santa e retraída, não logrou fugir da língua bífida da calúnia e maledicência. Genoveva não se perturbou: antes se encheu de satisfação, podendo sofrer alguma coisa pelo nome de Jesus. Sua santidade, tendo passado pelo crisol do sofrimento, saiu ainda mais esplendorosa. Deus: envergonhou os caluniadores pelos grandes milagres que fez por intermédio de sua humilde serva. O fantasma da fome, que dizimava a população de Paris, retrocedeu em face das orações de Santa Genoveva. Tremiam os parisienses na expectativa de ver sua cidade arrasada pelo ímpeto irresistível das hordas de Attila. Genoveva tranquilizou-os, predizendo uma mudança nos planos do temido “flagelo de Deus”: de fato Attila viu-se obrigado a sacrificar grandes vantagens e desviar as ondas devastadoras de seu exército. Estes e outros fatos de interesse público fizeram com que todos enxergassem em Genoveva uma grande alma privilegiada por Deus.
O próprio rei Childerico tinha-a em grande conta. A pedido da Santa muitas vezes amnistiou a réus condenados à morte. Clovis, à iniciativa de Genoveva, construiu uma igreja dedicada a São Pedro e São Paulo.
Genoveva entretinha uma devoção terníssima à Santíssima Virgem e aos Santos Martinho e Dionísio. Mandou construir um templo no lugar onde São Dionísio tinha derramado seu sangue em testemunho da fé.
Genoveva morreu na idade de 89 anos. A cidade de Paris a venera como sua padroeira. Em tempos bem críticos, a capital da França tem experimentado a valiosa proteção de sua defensora. Em 1130 apareceu uma epidemia chamada “o fogo” que transformou a cidade em grande hospital e causou muitas mortes. O povo, apavorado, fez preces públicas, suplicando ao céu misericórdia. Já existiam aproximadamente 1.400 doentes em Paris, quando a população resolveu organizar uma grande procissão na qual foram levadas as relíquias de Santa Genoveva. A procissão se realizou e a epidemia se extinguiu por encanto.
Reflexões
1. Um dos maiores crimes de que os judeus se fizeram culpados foi o de terem sacrificado seus próprios filhos aos hediondos ídolos dos pagãos, uma vez que se desligaram da lei que os obrigava ao culto do verdadeiro Deus. Jesus Cristo ameaça de maldição eterna aqueles que, dando escândalo aos pequenos, causadores se tornam de sua perdição. Que sorte será daqueles pais, que esquecidos dos seus deveres mais sagrados para com seus filhos, os entregam aos ídolos da vaidade, do orgulho, da sensualidade e do amor ao mundo, implantando nos seus corações os princípios ímpios do século moderno! É uma crueldade sem nome praticada por muitos pais, que em vez de dar a seus filhos uma educação sólida sob o fundamento da religião católica, os educam para o mundo, entregando as almas prediletas de Nosso Senhor ao demônio da vaidade e da luxúria. A alma da criança é igualmente suscetível à virtude e ao vício. É cera na mão daquele que a formar. Se a criança em vez de ouvir os doces ensinamentos da religião de Nosso Senhor receber diariamente instruções sobre moda, sobre a arte de atrair as amizades do mundo, sobre galanteios e namoros: se riqueza, com casamento e toda a sorte de divertimentos lhe são apontados como os bens mais desejáveis nesta vida, claro está que o caráter da criança em formação se perverte, não havendo mais lugar para a compreensão da vida religiosa, da prática das virtudes por amor de Deus, da imitação dos exemplos grandiosos de virtude como os apresenta a vida dos Santos.
2. Da vida de Santa Genoveva donzelas e moços podem aprender que para conservar a inocência não há meios mais idôneos que estes: a fuga das ocasiões de pecar, amor ao trabalho, dedicação à oração e aversão aos divertimentos profanos. Jovens, que dão toda liberdade aos seus sentidos, principalmente aos olhos; jovens, que se sentem bem na companhia de pessoas mundanas; jovens, que avidamente se entregam aos divertimentos, por mais licenciosos e perigosos que como tais sejam acoimados; jovens, que não rezam e a oração qualificam de ocupação inútil: se não já perderam a inocência, não estão longe disto. Oxalá todos os jovens queiram aceitar o conselho do Espírito Santo, que diz: “Meu filho, quando os pecadores te chamarem, não lhes dês ouvido!”. O veneno do pecado está muitas vezes escondido nas causas que mais nos agradam, e que adulam aos nossos sentidos. Na prática da virtude, porém, estão depositadas a tranquilidade da consciência, o sossego do espírito, a amizade com Deus e muitas vezes a saúde do corpo e a felicidade cá na terra.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩