03 de dezembro — São Francisco Xavier

03 de dezembro — São Francisco Xavier
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

São Francisco Xavier, o grande Apostolo dás Índias, o maravilhoso taumaturgo do século dezesseis, glória da Igreja e da Companhia de Jesus, a que pertenceu, nasceu em 7 de abril de 1506, no castelo de Xavier, no reino de Navarra. Na idade de dezoito anos foi levado pelo pai à Paris, onde se matriculou na Universidade daquela cidade. Extraordinários foram os progressos que Xavier fazia nos estudos. Doutorou-se em filosofia e começou logo as preleções sobre esta mesma matéria. Uma inteligência raríssima e outras qualidades apreciáveis foram os dotes com que Deus distinguiu a quem tinha escolhido, para ser-lhe nas mãos instrumento de um apostolado fertilíssimo. O ideal de Xavier era ser grande no século e encher o mundo de glórias de seu nome. Passados alguns anos, o pai quis chamá-lo para junto de si; a irmã, porém, que era priora no convento das Clarissas em Gandien, religiosa de muita virtude e santidade, fez com que desistisse desta ideia, porque Xavier, assim profetizou, era por Deus predestinado a ser Apostolo de muitos povos.  

No tempo que Xavier esteve em Paris, vivia na mesma cidade um outro grande eleito do Senhor — Santo Inácio de Loyola. Conhecendo os grandes talentos de Francisco, tratou de travar relações com este, na intenção de ganhá-lo para a causa do Senhor. Não era fácil conseguir este propósito, visto a vaidade e a ambição de Francisco terem em mira fins bem diferentes. Inácio, porém, esclarecido por uma luz divina, não desanimou e, graças à oração e à insistência na palavra de Cristo: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vem a perder a alma” teve a satisfação de observar no discípulo uma grande mudança. Francisco entregou-se inteiramente à direção de Inácio e, tendo feito os exercícios espirituais, foi recebido entre os primeiros associados da Companhia de Jesus. Passado algum tempo, recebeu Francisco, ordem de seguir para a Itália. Dois meses passou em Veneza, ocupando-se como enfermeiro no hospital. Existia ali um doente, cujo corpo estava coberto de úlceras asquerosas, que exalavam um cheiro nauseabundo. Como ninguém dele se quisesse compadecer, Francisco venceu heroicamente o nojo, que a moléstia lhe causava, tratou do pobre doente com todo carinho, chegando a ponto de abraçá-lo, beijar-lhe as úlceras e sugar-lhes o pus. Deus recompensou este heroísmo e Francisco nenhuma repugnância mais sentiu dos doentes. Dois meses depois recebeu Francisco a ordenação sacerdotal. Quarenta dias de solidão, oração e penitência precederam a celebração de sua primeira Missa.  

João III, Rei de Portugal, pediu ao Papa que mandasse seis sacerdotes da Companhia de Jesus para as possessões que a coroa portuguesa tinha adquirido nas Índias. Santo Inácio só dois pôde destacar para aquela missão: os Padres Simão Rodriguez e Nicoláo Bobadilla. Este adoeceu gravemente e para substituí-lo foi designado Francisco Xavier, por Deus escolhido para tão elevada missão. Com imensa satisfação recebeu Francisco este destino e pôs-se a calminho com o companheiro, não levando senão o crucifixo, o breviário e um bastão. Após viagem perigosíssima, chegaram a Lisboa, onde se hospedaram não no paço real, mas no hospital. Não havendo ocasião de partir para as Índias, Francisco prestou serviços aos doentes, como as circunstâncias o permitiam. Ao ver o grande zelo dos dois missionários, João III manifestou o desejo de pode-los reter em Lisboa. Com a licença do Superior Santo Inácio, ficou o Padre Simão Rodriguez em Portugal; Francisco, porém, prosseguiu na viagem para as Índias. Em sua companhia viajaram mais dois sacerdotes, que tinham sido admitidos na Companhia de Jesus. O navio levava 900 passageiros, dos quais, grande número adoeceu. Francisco fez-se enfermeiro deles, e com os modos caridosos conseguiu levá-los todos à prática de uma vida cristã. Esta missão continuou em Moçambique, onde o navio, sendo inverno, ancorou e ficou durante seis meses. O descanso noturno, que Francisco se permitia, não excedia ele três horas e servia-lhe de leito o soalho, de travesseiro a amarra. Já tinham passado treze meses da partida de Lisboa, quando afinal aportaram em Goa, capital das Índias. O Apóstolo São Tomé, assim reza a tradição, tinha pregado o Evangelho na Índia e convertido grande parte da população. Do cristianismo alguns vestígios tinham-se conservado através dos séculos. Francisco encontrou o paganismo em toda a pujança, do qual os portugueses pareciam ser os primeiros devotos. Foi em Goa mesmo que Francisco encetou os trabalhos apostólicos. Foram as crianças, a quem se dirigiu primeiro. Passando ele rua em rua, ao som de uma campainha, chamava grandes e pequenos, explicando-lhes em seguida a doutrina cristã, ensinando-lhes a rezar pequenas orações e cantar alguns cânticos religiosos. Muitas destas crianças tornaram-se apóstolos nas famílias e pediram aos pais que fossem procurar o grande missionário. Outros traziam ídolos dos pais e vizinhos e queimavam-nos na presença de Francisco. Ainda outros indicavam ao missionário os lugares onde havia crianças expostas, para que os batizasse antes de morrerem.  

Tendo por algum tempo e com ótimo resultado catequizado a infância, Francisco dirigiu-se aos adultos. Aos cristãos pregava penitência e a santificação da vida; aos infiéis mostrava a verdade da fé cristã. Em tudo desenvolveu um zelo admirável. Os dias eram-lhe pequenos para vencer o trabalho que fazia, como pregar, confessar e batizar. As noites eram em grande parte passadas em oração e penitência. 

De Goa Francisco se dirigiu a Piscária e ao reino de Travancor, onde batizou dez mil brâmanes. Na Piscária os batizados eram tantos, que lhe cansavam o braço. Muitos sacerdotes pagãos, convencidos do erro do paganismo e da verdade da doutrina cristã, converteram-se. Em sua presença Francisco chamou à vida quatro mortos. Como os Apóstolos, possuía o dom das línguas. Sem ter aprendido o idioma hindu, com os múltiplos dialetos, pregava a doutrina cristã e todos o compreendiam perfeitamente. Esta circunstância, bem como os numerosos e estupendos milagres que fazia quase diariamente, chamou a atenção dos povos circunvizinhos, que vinham em chusma, para conhecer o homem extraordinário e ouvir-lhe a doutrina. 

Francisco empreendeu grandes viagens, no intuito de propagar o reino de Deus na terra. De uma ilha dirigiu-se a outra, de um reino passou a outro, dedicando todas as energias à causa da salvação das almas. De trabalhos, fadigas e sofrimentos não conhecia medida. Em sonho lhe foram mostrados os trabalhos e sofrimentos que lhe estavam reservados e Francisco, vendo-os, exclamou: “Ainda mais, Senhor! Mandai trabalhos, sofrimentos, provações!”. Em Meliapur visitou o túmulo do Apóstolo São Tomé e passou ali muitas noites em oração. Em Malaca muitos maometanos, judeus e pagãos se converteram. Entre outros receberam o batismo uma mulher com sua filha única. Esta morreu e foi enterrada. Três dias depois a mãe se apresentou ao Santo, comunicou-lhe a morte da jovem e pediu-lhe que em nome de Jesus Cristo a chamasse à vida. Xavier retirou-se um momento para rezar, voltou e à mulher: “Vai, tua filha vive!”. A mãe foi-se, com o auxílio de algumas pessoas abriu a cova e achou a filha viva e sã. 

De Malaca embarcou para umas ilhas, que eram habitadas por antropófagos. O amor de Jesus Cristo não o fazia medir perigos e pronto estava derramar o sangue, sempre que Deus o quisesse. 

Quando, numa viagem por mar, fortíssima tempestade pôs em perigo a embarcação, Francisco entrou em oração e as ondas amainaram.  

Sendo excessivo o trabalho para uma pessoa só, Santo Inácio mandou novos auxiliares sacerdotes e irmãos. Francisco estacionou-os em diversos lugares. Em companhia de um sacerdote e de um irmão, fez a viagem para o Japão, onde nunca tinha chegado a boa nova do Evangelho. Poucas linhas não chegariam para relatar os trabalhos apostólicos de Francisco no império do Sol nascente. Basta dizer que, como na Índia, a palavra, os milagres e a santidade de Francisco Xavier causaram grandes conversões. 

O zelo apostólico não se lhe contentou com os resultados estupendos obtidos na Índia e no Japão. Mais longe lhe iam às aspirações. Depois de uma viagem de inspeção às Índias, acompanhado por um Irmão, tomou um navio, que o devia levar à ilha de Sancian, que fica trinta milhas distante da China. Durante a viagem começou a faltar a água potável e houve muita doença a bordo. Francisco mandou que enchessem de água do mar alguns barris. Rezando sobre estes, mandou tirar daquela água, que se tinha convertido em água doce e todos recuperaram a saúde. 

O desejo de Francisco de estabelecer o reino de Cristo na China, não pôde ser satisfeito. Aprouve a Deus chamar o fiel servo à eterna recompensa. Em 20 de novembro foi Francisco acometido de um forte acesso de febre e por Deus cientificado da morte iminente. Uma sangria que se fez muito desajeitadamente, aumentou ainda os sofrimentos do doente. 

Semelhante ao divino Mestre durante a vida, quis Francisco ser-lhe igual na morte. Paupérrimo, desprovido de todo conforto, longe dos seus, privado da assistência dos Irmãos, morreu Francisco em 2 de dezembro de 1552, na doce paz do Senhor. Os olhos do moribundo ou procuravam o céu, ou o crucifixo; os lábios murmuravam-lhe incessantemente jaculatórias como: “Jesus! Maria! Filho de Davi, tende compaixão de mim! Maria, mostrai que sois minha mãe!”. As últimas palavras que disse, foram: “Em vós pus minha esperança, Senhor, não serei confundido”. São Francisco, apesar de ter trabalhado só dez anos como missionário nas Índias e no Japão, levou milhares de almas ao céu. 

Grandiosa apresenta-se-nos a obra de São Francisco Xavier. Mais de cem mil milhas percorreu, para semear a palavra divina; em mais ele cem ilhas e reinos pregou o Evangelho; a mais de duzentas mil pessoas administrou o sacramento do batismo e sem número é a multidão daqueles que por sua palavra foram levados à penitência e à fé verdadeira. 

O corpo do Santo foi revestido de vestes sacerdotais, depositado num caixão e coberto de cal virgem, para assim acelerar a decomposição e possibilitar o mais breve possível a trasladação dos ossos para a Índia. Dois meses tinham já passado e nenhum sinal de decomposição se anunciava; o corpo do Santo exalava um doce perfume. A trasladação para a Índia foi feita com grande solenidade. Nos lugares onde o navio atracava, se realizaram grandes milagres. Ao chegar à cidade de Malaca, esta se viu livre da peste, que a assolava. O braço direito, com que o Apóstolo batizou a tantos milhares, foi separado do corpo e levado para Roma, onde goza de grande veneração. 

É admirável observar como uma pessoa, em tão curto lapso de tempo, pôde levar a efeito uma obra tão imponente, como o fez São Francisco Xavier. Explicam-no o grande e ardente zelo do Santo pela salvação das almas, a santidade de vida, as virtudes que possuía em grau perfeitíssimo, os talentos extraordinários e antes de tudo a graça divina. Os biógrafos enumeram, entre os dons sobrenaturais que Deus concedeu a Francisco, os seguintes: o dom das línguas; o dom de conhecer as coisas futuras; o dom de ser orientado sobre coisas e acontecimentos, no mesmo momento em que se deram, em lugares, bem distantes; o dom de fazer milagres entre os quais se relatam vinte e cinco ressurreições de mortos. Dificilmente será encontrado um Santo dos últimos séculos, a quem Deus tivesse concedido tantos privilégios e por um prazo de muitos anos.  

O Papa Urbano VIII, referindo-se a São Francisco Xavier, disse: “Francisco foi um Apóstolo dos povos dos nossos tempos, verdadeiramente eleito por Deus. Deus glorificou-o perante o mundo todo, por um grande número de milagres e profecias”. — “Não fez menos — disse o Papa Gregório XV — que os grandes Apóstolos fizeram”. 

Francisco Xavier foi canonizado por Gregório XV, no ano de 1621. Benedito XIV apresentou-o aos países da Índia oriental, como padroeiro, e hoje a Igreja o venera como padroeiro da grande obra missionária em toda a terra. 

REFLEXÕES

Uma das figuras mais salientes na história das Missões católicas é São Francisco Xavier. O zelo, o amor às almas deste Santo é modelar para todos os missionários, de todos os países e de todos os tempos. Zelar pelas missões é dever de todo o católico. Trabalhar pelas missões é traduzir praticamente a petição do Padre-Nosso, que diz: “venha a nós o vosso reino”. Os Papas não se cansam de chamar a atenção dos católicos para as missões e lembrar-lhes a obrigação que têm, de ajudar efetivamente a Igreja na grandiosa obra da propagação da fé. Todos devem entrar nas fileiras dos trabalhadores na vinha do Senhor: uns como missionários ativos, outros com a colaboração na imprensa missionária, ainda outros pela propaganda da ideia missionária entre os católicos, todos com a esmola material e espiritual. Se todos os católicos compreendessem nitidamente o dever de trabalhar pelas missões — disse o Papa Pio XI — e se esta obrigação cumprisse, em pouco tempo seria satisfeito o desejo de Jesus Cristo: de haver um só rebanho e um só pastor; em pouco tempo o mundo inteiro seria convertido ao cristianismo. 

Reza muito pelas missões e os missionários e manda inscrever teu nome numa das grandes obras pontifícias pelas missões ou entra em uma, ou outra Liga de Missas pro Missões. As obras oficiais pontifícias destinadas para leigos, pró-missões, são: 1º. a Obra de Propaganda da Fé; 2º. a Obra da Santa Infância; 3º. a Obra de São Pedro pela formação do clero indígena.

Oração pelas Missões e pela conversão dos infiéis 

Ó amabilíssimo Senhor Nosso, Jesus Cristo, que, com o preço do vosso sangue preciosíssimo, remistes o mundo, lançai o olhar misericordioso sobre a pobre humanidade, que em grande parte ainda jaz imersa nas trevas do erro e nas sombras da morte e fazei irradiar sobre ela toda a luz da verdade. Multiplicai, Senhor, os Apóstolos do vosso Evangelho; afervorai-os, fecundando-lhes e abençoando-lhes com a vossa graça, o zelo e as fadigas, a fim de que, por meio deles, todos os infiéis vos conheçam e se convertam a vós; que de todos sois Criador e Redentor. Chamai os transviados pelo erro ao vosso redil e os rebeldes ao seio da vossa única verdadeira Igreja. Apressai, amabilíssimo Salvador, apressai o auspicioso advento do vosso reinado sobre a terra, atraindo ao vosso suavíssimo Coração todos os homens, para que possam participar dos benefícios incomparáveis da vossa Redenção, na eterna felicidade do céu. Amém. 

A estas orações foram concedidas: 1) Indulgências de 300 dias, “toties quoties”; 2) Plenária, uma vez por mês, aos que durante todo o mês a tiverem recitado.   

Invocação — Para que vos digneis chamar à união da Igreja todos os que erram e trazer todos os infiéis à luz do Evangelho: Ouvi os nossos rogos! (Indulg. de 300 dias, “toties quoties”, A.A.S. 92). 

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Na Judéia o profeta Sophonias, o nono entre os profetas menores. Suas profecias contêm a ameaça dos juízos de Deus, principalmente a destruição de Jerusalém. 

Em Roma o martírio de Cláudio, oficial do exército, de sua esposa Hilária e de seus filhos João e Marco com sessenta soldados. Cláudio, preso a uma pedra pesada, foi atirado ao rio, seus filhos e os soldados foram executados. Santa Hilária foi morta quando rezava no túmulo de seus filhos. Séc. 3. 

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii