03 de agosto — Invenção do corpo do Protomártir Santo Estêvão
03 de agosto — Invenção do corpo do Protomártir Santo EstêvãoExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Os Atos dos Apóstolos relatam o martírio de Santo Estêvão, o grande diácono da Igreja jerusalemita, que, tendo provado com argumentos inconcussos a divindade e messianidade de Jesus Cristo, foi apedrejado pelos judeus.
Homens virtuosos encarregaram-se de sepultar os restos mortais do grande e primeiro mártir. Entre eles se achava Gamaliel, antes mestre de São Paulo e depois seu discípulo. Homem de grande prestígio, conseguiu que o corpo de Santo Estêvão mais tarde fosse transportado para um sítio de sua propriedade, nos arredores de Jerusalém. Sobreveio uma época de cruéis perseguições, devido às quais o túmulo de Santo Estêvão caiu por longo tempo em esquecimento. Quis Deus que as relíquias do santo mártir fossem arrancadas ao silêncio do túmulo e restituídas à veneração dos fiéis.
No lugar onde se achavam as relíquias de Santo Estêvão, morava, no século IV, um santo sacerdote da Igreja de Jerusalém, chamado Luciano. A este apareceu em sonho São Gamaliel e indicou-lhe o lugar onde estavam enterrados os corpos de Santo Estêvão, de São Nicodemos, o dele próprio e o de seu filho Habib. Deu-lhe ordem de mostrar esses lugares a João, Bispo de Jerusalém, para que este providenciasse para a exumação dos corpos e os entregasse à veneração dos fiéis.
Luciano, despertando do sono, nada disse ao Bispo, receando que a visão fosse talvez uma artimanha do demônio. Pediu a Deus que lhe esclarecesse o espírito e lhe desse aviso mais claro, para remover toda a dúvida a respeito das relíquias. Passou oito dias em oração e jejum, para alcançar essa graça. No oitavo dia, apareceu Gamaliel outra vez, fazendo-lhe as mesmas comunicações. Luciano, porém, ainda não obedeceu à nova ordem, continuando, entretanto, as orações e jejuns. Pela terceira vez, Gamaliel lhe apareceu, dando-lhe desta vez ordem terminante de pôr-se em comunicação com o Bispo, para que as santas relíquias fossem colocadas nos altares, porque grandes seriam as graças que Deus queria dar aos fiéis, por intercessão daqueles Santos.
Luciano relatou ao Bispo as repetidas visões que tivera, e a ordem que de Gamaliel recebera. Na noite seguinte, apareceu Gamaliel ao Monge Migecio e determinou-lhe o lugar onde repousavam os corpos dos Santos.
Estes, de fato, foram encontrados exatamente no lugar que Gamaliel havia indicado. Numa daquelas sepulturas foi encontrada uma pedra, que trazia gravado o nome de Cheliel, que em hebraico significa Estêvão. Mal se abrira o sarcófago que encerrava o corpo de Santo Estêvão, foi por todos sentido um tremor de terra e um perfume delicioso encheu o ambiente. Trinta e seis doentes, que se tinham acercado, recuperaram imediatamente a saúde. Em procissão soleníssima, foram as preciosas relíquias trasladadas para Jerusalém. Ao mesmo tempo caiu abundante chuva, que trouxe grande alívio à terra, castigada por uma prolongada seca.
O fato extraordinário da invenção das relíquias de Santo Estêvão tornou-se conhecido em toda a Cristandade e causou alegria geral entre os fiéis e grande perturbação e confusão entre os hereges. Muitas Igrejas pediram ao Bispo de Jerusalém pequenas partículas das relíquias do protomártir e por toda a parte foram observados grandes e estupendos milagres. Santo Agostinho, que vivia naquele tempo, enumera os seguintes fatos:
“Uma cega recuperou a vista, no momento em que os olhos se lhe puseram em contato com flores que tinham sido encontradas nas relíquias de Santo Estêvão. — Um bispo de nome Lucillo, pelas relíquias de Santo Estêvão, ficou curado de uma fístula maligna. — O sacerdote Euchario voltou à vida, quando lhe cobriram o cadáver com um manto com que apareceram cobertas as relíquias de Santo Estêvão. — Dois homens entrevados pelo reumatismo ficaram curados. — Um menino, que tinha morrido esmagado pelas rodas de uma carruagem, não só ressuscitou, mas também ficou com o uso dos membros perfeito. — Ressuscitou para vida uma monja, quando nela encostaram um vestido que tinha tocado nas relíquias de Santo Estêvão.
Muitos outros milagres ainda enumera Santo Agostinho e acrescenta: “Se eu quisesse enumerar só as curas maravilhosas, que se fizeram por este glorioso Mártir Santo Estêvão, aqui em Calama e em Hipona, só com isto encheria volumosos livros, e nem assim poderia registrá-las todas”. (De civ. Dei. 22).
Reflexões
O grande número de milagres que se observaram, na descoberta das relíquias de Santo Estêvão, são de fato prova bastante de que a veneração das relíquias de Santos e a invocação destes, como é uso da Igreja, agrada a Deus e nos é útil. Se assim não fosse, milagre nenhum se daria e inexplicável ficaria o fato de Deus tão visivelmente atender e proteger àqueles que o louvam na pessoa dos Santos. Não nos deixemos, pois, desorientar por aqueles que reprovam o culto das relíquias e condenam a veneração dos Santos. Nunca a Igreja ensinou ou praticou a adoração das relíquias dos Santos. Quem pretender o contrário, patenteia grande ignorância ou má-fé. Consola-nos, a nós católicos, o fato da nossa Igreja ter ensinado sempre a mesma doutrina, sobre o culto dos Santos, das Imagens e das Relíquias. As objeções dos hereges também têm sido sempre as mesmas. Do seu ponto de vista, têm razão, porque heresia nenhuma produziu até hoje um Santo sequer, nem tão pouco o túmulo de um herege foi glorificado por um milagre, ao passo que os milagres feitos nos túmulos dos nossos Santos contam-se aos milhares.
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Em Constantinopla a morte de Santo Hermelo.
Em Nápoles a memória de Santo Aspreno, primeiro bispo daquela cidade e discípulo de São Pedro, de quem recebeu o batismo e a sagração episcopal. É invocado contra dor de cabeça.
Em Filipos, na Macedônia, Santa Lídia, que negociava com tecidos de púrpura. Do paganismo passara para o judaísmo, e foi convertida por São Paulo, de cujas mãos recebeu o batismo em Filipos. É padroeira dos tintureiros.
Em Beréia, na Síria, as Santas Marana e Cira, ambas extraordinárias nas penitências que praticavam.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩