03 de abril — Santa Maria do Egito, Penitente

03 de abril — Santa Maria do Egito, Penitente
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Maria, antes grande pecadora, depois grande penitente e venerada na Igreja Cristã, era natural do Egito. Nada se sabe da sua origem e da educação que recebera. Nas próprias confissões da Santa consta que ela, tendo apenas 12 anos, ou fosse impelida por uma paixão desenfreada, ou fosse dando ouvidos a vozes sedutoras, fugiu da casa paterna para a cidade de Alexandria. Lá, entregou-se a uma vida sem regra. De uma beleza não comum, como de um temperamento vivo e simpático, a pecadora arrastou muitas almas ao torvelinho do vício. Sem temor de Deus, sua única aspiração era gozar, gozar sem fim. Dezessete anos ela passou neste lamentável estado, quando foi testemunha do embarque de muitos piedosos romeiros, que se dirigiam à Terra Santa, para celebrar a festa da invenção da Santa Cruz.

Seguindo um impulso espontâneo, associou-se aos passageiros, mas com a intenção, porém, de procurar novas relações e ocasiões para saciar suas indômitas paixões. Os dias do trajeto foram, para ela, dias de pecado e não só para ela, como para os incautos, que se deixaram levar pela voz da sereia.

No dia da festa, quando os romeiros se dispunham a visitar o Santuário, também Maria os acompanhou, se bem que movida por mera curiosidade. Aí aconteceu um fato extraordinário, que causou admiração geral e a conversão da pecadora. Tendo chegado até a porta da Igreja, Maria viu-se levada pela multidão da gente, que ia encher as vastas naves do Santuário. De repente, porém, ela se sentiu detida por uma força invisível. Quando as pessoas que iam adiante e a seguiam entraram, sem o mínimo obstáculo, pela porta, ela nem um passo para a frente pôde dar, por mais que se esforçasse. Procurando inutilmente uma explicação deste fato curioso, a graça de Deus veio-lhe em auxílio. Claro como um relâmpago, apresentou-se-lhe o pensamento: "Teus pecados tornam-te indigna de pisar em lugar santo, ver o Santo Lenho e comparecer na presença de Deus". O conhecimento desta verdade transformou num instante o coração da pecadora, que até aquele momento tinha resistido pertinazmente a todos os convites da graça divina. Profundamente abalada, escondeu-se num canto da Igreja e chorou amargamente.

Enquanto seus pensamentos procuravam uma solução ou um ponto de apoio, na perplexidade em que estava, seus olhos descobriram uma imagem de Nossa Senhora. Veio-lhe à memória, que Maria é chamada refúgio dos pecadores, Mãe da Misericórdia. Prostrando-se por terra, pediu a Maria Santíssima seu auxílio, na grande necessidade, em que se achava e prometeu à divina Mãe emendar de vida e fazer penitência até a morte.

Feita esta declaração, sobreveio-lhe grande paz na alma e, ao mesmo tempo, sentiu-se com ânimo de tentar outra vez a entrada no Santuário, que agora não mais achou resistência.

Uma vez no interior do Santuário, venerou com muita comoção o Santo Lenho, chorou amargamente seus pecados e voltou à imagem, de onde lhe viera a primeira inspiração para a penitência. Pedindo a Maria Santíssima que a esclarecesse mais ainda, sobre o modo como havia de praticar a penitência, ouviu distintamente uma voz, que lhe disse: "Vai à outra margem do Jordão". Maria obedeceu prontamente e, sem perder tempo, foi ao rio Jordão, onde passou a noite toda em oração numa Igreja dedicada a São João Batista.

No dia seguinte, fez sua confissão com muito arrependimento e recebeu a Santa Comunhão. Tendo uma vez dito adeus à sua vida até então levada no afastamento de Deus, passou para o outro lado do Jordão, onde viveu 47 anos praticando obras da mais austera penitência. Dezessete anos da sua vida tinham pertencido ao serviço do pecado. Outros tantos anos, Deus permitiu que fosse atormentada pelas mais cruéis tentações. Maria, porém, não mais se afastou do caminho da virtude. Em todas as suas dificuldades, recorreu à Maria Santíssima, sua terna Mãe, e Deus concedeu-lhe a graça da perseverança. As tentações, afinal, cessaram e Maria, até o fim da sua vida, gozou da mais perfeita paz.

Todas estas particularidades, Maria relatou-as ao santo abade Zósimo, que a visitou no deserto um ano antes da sua santa morte. Pediu-lhe reserva de tudo isso enquanto ela vivesse, e insistiu para que lhe trouxesse o Santíssimo Sacramento na Quinta-Feira Santa, o que Zósimo lhe prometeu.

No dia marcado, quando Zósimo chegou ao Jordão, com grande admiração sua, viu a serva de Deus andar sobre as águas do rio. Maria recebeu o santo Viático, com uma piedade comovedora. Erguendo as mãos e os olhos ao céu, cheia de alegria e contentamento, entoou o cântico do velho Simeão: "Agora deixai partir, Senhor, vossa serva". Pelo caminho que viera, isto é, sobre as águas do Jordão, voltou para o deserto, onde morreu no dia seguinte. Quando, um ano depois, São Zósimo veio para visitá-la, achou a santa penitente morta. Seu corpo, porém, estava perfeitamente conservado e Zósimo deu-lhe digna sepultura.

Reflexões

A grande penitente do Egito recorreu à Santa Mãe de Deus, para alcançar a conversão de sua vida pecaminosa, e sua esperança não foi iludida. É com muita razão que a Igreja dá à Nossa Senhora o título de refúgio dos pecadores. Ela é, porém, o refúgio daqueles pecadores que, como Maria do Egito, querem e procuram verdadeira e sinceramente sua conversão. Há pecadores que não pensam em se converter, e que permanecem nos seus pecados, acumulando-os de dia para dia, e se dizem muito devotos de Nossa Senhora, a quem dirigem muitas orações, em cuja honra organizam muitas e esplendorosas festas, julgando que deste modo garantirão sua salvação. Quem assim procede, se engana. Está fora de qualquer dúvida, que Maria, amando seu Filho sobre tudo, igual a este, tem horror ao pecado e o detesta do íntimo da alma, como ofensa e ultraje dirigido a este mesmo Filho. É possível que Maria queira ser o refúgio do pecador mau e obstinado? Não obstante, pode e deve o pecador se dirigir a Maria, para alcançar a graça de se converter. O primeiro passo para a conversão é que o pecador conheça o mal que pratica e dele queira por completo se afastar. Havendo esta disposição na alma do pecador, com confiança poderá dirigir-se a Maria, certo de que a Mãe de Deus será o seu refúgio.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312