02 de outubro — São Leodegário, Bispo e Mártir
02 de outubro — São Leodegário, Bispo e MártirExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
São Leodegário, Santo que goza de grande veneração na França católica, nasceu em 616, sendo educado pelo tio, Bispo de Poitiers, que, vendo os rápidos progressos que o jovem fazia no estudo das ciências e descobrindo-lhe uma alta compreensão das coisas divinas, conferiu-lhe as santas ordens do sacerdócio e nomeou-o abade de São Magêncio. A rainha Santa Batilde confiou-lhe a direção do filho Clotário III e pouco tempo depois foi eleito Bispo de Autun.
A eloquência, o saber e, principalmente, o brilho das virtudes mereceram-lhe a confiança e o amor dos diocesanos. Poucos anos eram precisos para normalizar e endireitar os negócios, um tanto confusos, da diocese e, graças à circunspecção, energia e prudência, conseguiu levantar o estado moral do clero e do povo. O Concílio de Autun, por ele convocado em 670, foi um dos meios poderosos e eficazes, para realizar este fim. Regras mais preciosas e detalhadas regularizaram a vida dos religiosos, aos quais foram proibidas saídas fora do convento, se estas não obedecessem à necessidade do mosteiro. Outrossim, foi imposto a todos os monges a regra de São Bento, como norma de vida monástica.
Morto Clotário, o sucessor, Childerico, nomeou Leodegário seu conselheiro particular, posição esta invejada e cobiçada por muitos outros. Em consequência disto surgiram muitos desgostos para o santo Bispo. A situação tornou-se-lhe ainda mais crítica quando, com franqueza apostólica, apostrofou os vícios e desmandos do rei e da corte.
Para afastá-lo da pessoa do rei e quebrar-lhe a influência na corte, os desafetos recorreram à intriga. Avisaram-no de um plano do Rei, segundo o qual este pretendia assassiná-lo no dia da Páscoa, após a Santa Missa. Leodegário, não obstante, celebrou o santo sacrifício com toda a calma, sem a menor perturbação. Nada aconteceu. Os inimigos, porém, não se deram por vencidos. Alcançaram do Rei um decreto que obrigou Leodegário a tomar residência em Luxeuil, onde vivia o famoso Ebroíno, que a vontade do Rei condenara à vida monástica. Ebroíno, diplomata hábil, mas falso e hipócrita, ofereceu ao Bispo os préstimos, fingindo-se leal e dedicado amigo.
Childerico morreu assassinado e, com o advento de Dagoberto, Leodegário e Ebroíno readquiriram a liberdade. Leodegário reassumiu a direção da Diocese, e Ebroíno tornou a chamar a si a gerência da mordomia.
Proclamou rei um filho de Clotário e com força armada marchou contra Autun, para desabafar o ódio contra Leodegário. Amigos dedicados tinham aconselhado o Bispo a abrigar-se contra a tempestade; ele, porém, preferiu ficar com o rebanho. No entanto, preparou-se para morrer, ordenou um jejum de três dias e fez uma procissão, na qual foram levadas relíquias de Santos. Todos os bens repartiu entre os pobres. Para poupar os seus, saiu para fora da cidade e entregou-se aos inimigos. Com crueldade inaudita, estes lhe arrancaram os olhos, cortaram-lhe os lábios e a ponta da língua. A dedicação de um amigo conseguiu livrá-lo das garras dos algozes e agasalhá-lo no convento de Fécamp. Três anos passou aí na companhia dos monges e, por uma graça especial, ficou-lhe curada a língua.
O ódio profundo não dava descanso a Ebroíno. Procurando um pretexto para poder agir contra Leodegário, acusou-o caluniosamente de traição contra o rei Childerico, indicando-o como mandante do assassinato do mesmo. Numa carta a sua mãe Sigrada, Leodegário defendeu-se. Esta carta é um documento precioso, que honra o autor.
Citado perante um pseudo-concílio e intimado a confessar a culpabilidade na morte do Rei, Leodegário apelou para a justiça divina, como testemunha de sua inocência.
Rasgaram-lhe as vestes em sinal de degradação, entregando-o depois ao juiz secular.
Para que sua morte não tivesse o aspecto de martírio, o juiz mandou que o levassem para um lugar bem distante. Dos quatro soldados que o escoltaram, três caíram de joelhos e pediram-lhe perdão. O quarto militar prestou-se à obra funesta e executou a ordem de decapitar o servo de Deus. O lugar onde se desenrolou esta cena, é um bosque perto de Arras, chamado Saint-Léger. São Leodegário sofreu o martírio em 678 e as relíquias estão depositadas na Igreja do Convento de São Magêncio.
REFLEXÕES
Nem sempre Deus dá aos seus fiéis servos já nesta vida a recompensa merecida. Pelo contrário, pode-se observar que os faz sofrer injustamente até o fim da vida. No céu, receberão o galardão, que ninguém lhes poderá disputar. O que também se observa é que os maus gozam às vezes de uma aparente felicidade terrena, o que mais ainda os faz endurecer no pecado. Mas também não são raros os casos em que Deus os castiga severa e inesperadamente, não lhes dando tempo para se converterem, como aconteceu ao ímpio Ebroíno. Não nos entristeçamos com a felicidade dos maus e não murmuremos contra a nossa sorte, se Deus nos faz sofrer alguma coisa. A justiça há de vencer, ou aqui, ou na eternidade. Pecado nenhum há que fique impune. Quem está em pecado, não diga: “Pequei, mas nada de mal aconteceu-me; pois o Altíssimo recompensa largamente” (Eclesiástico 5, 4). Grande verdade foi a que um dos irmãos Macabeus disse ao rei Antíoco: “Não te iludas pensando talvez que nada te acontecerá, por teres lutado contra Deus e a Ele ofendido”. Santo Agostinho afirma: "Se os ímpios não têm castigo, é sinal que Deus os reservou para as penas eternas; por isso, se pecamos sem experimentar castigo algum, bastante motivo temos de nos incomodar”.
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
A Festa dos Santos Anjos da Guarda. A Igreja tem por certo que a cada pessoa Deus deu um Anjo da Guarda. A Sagrada Escritura em muitos lugares fala dos anjos tutelares, tanto no Antigo (Salmos 90, 11) como no Novo Testamento (Hebreus 1, 14; Mateus 18, 10; Atos 12, 15). Os Anjos acompanham e protegem-nos em todas as necessidades, principalmente na hora da morte.
Na França, o mártir Gerino, irmão de São Leodegário.
Na Inglaterra, em Hereford, a memória de São Tomás, Bispo e Confessor. 1282.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩