02 de junho — São Teodoto, Mártir
02 de junho — São Teodoto, MártirExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
São Teodoto era natural de Ancira, na Galácia, e viveu no século quarto. Hoteleiro e negociante de vinho, era Teodoto homem de extraordinárias virtudes. Quando, em 303, rebentou a grande perseguição diocleciana, Teodoto, a despeito das leis em vigor, socorreu as pobres vítimas do furor pagão. Sua casa estava aberta para todos que procuravam um abrigo contra a onda, cada vez mais furiosa, da perseguição. Em pouco tempo ela veio a ser igreja, albergue e hospital. Embora houvesse proibição, sob pena capital, Teodoto dava piedoso enterro aos cristãos, que caíram sob os golpes furibundos dos perseguidores.
Em certa ocasião, indo à procura dos restos mortais do santo mártir Valente, entrou na casa do sacerdote Frontão. Este pediu-lhe que lhe arranjasse relíquias de mártires. Soube então que o prefeito tinha mandado prender sete virgens cristãs, entre as quais se achava Theocusa, por Teodoto venerada como mãe. Soube mais, que todas elas tinham sido sujeitas a um exame humilhante e vergonhoso, e condenadas à morte. Teodoto, muito impressionado e entristecido com esta notícia, pediu ardentemente a Deus, que lhe desse constância e perseverança no seu martírio. Sua oração foi ouvida, pois todas sete foram afogadas num açude. No dia seguinte, acompanhado de dois cristãos, Polybio e Theocarides, dirigiram-se ao lugar do martírio. Era noite escura. Chegando ao açude, sentiram-se tomados de grande pavor. Uma voz se fez ouvir, que lhes disse: "Prossiga no teu caminho, meu Teodoto!" Nisto viram uma cruz fulgente de luz. Caíram de joelhos e rezaram. Depois, conduzidos pela luz misteriosa, chegaram ao lugar onde se achavam os cadáveres. Tiraram-nos da água e oe enterraram perto da igreja dos patriarcas. Enquanto estavam assim ocupados, veio uma voz do céu, que lhes disse: "Tenha ânimo, Teodoto! Deus escreveu teu nome entre os mártires".
A obra de Teodoto e dos seus companheiros era assunto geral das discussões e conversas da cidade toda. O prefeito, tendo dela notícia também, mandou vir Teodoto à sua presença. Este, prevendo o que lhe ia acontecer, recomendou-se às orações dos cristãos, e fez entrega das relíquias em seu poder ao sacerdote Frontão e se apresentou ao prefeito.
Bem de propósito os soldados o levaram ao lugar, onde se achavam os horríveis instrumentos, com que tinham sido martirizados já muitos cristãos. O prefeito intimou-o para que abandonasse a religião de Cristo e corroborou sua intimação com lisonjeiras promessas. Teodoto, porém, negou-se peremptoriamente a transigir e fez uma calorosa defesa do cristianismo, na presença do seu juiz.
Este deu, então, a sentença. Teodoto, agarrado pelos soldados, foi esticado sobre o cavalete. Outros algozes, armados de arpões, rasgaram-lhe as carnes e deitaram vinagre nas feridas. Ainda outros, chegaram com tochas acesas e queimaram-lhe horrivelmente o corpo. O prefeito, que assistiu a este martírio, vendo que Teodoto virava a cabeça, para não respirar a fumaça da carne queimada, e querendo ver nisto um sinal de fraqueza, disse ao mártir: "Já se acabou tua coragem, de que tanto te gabaste?" O Santo respondeu-lhe: "Enganas-te. Lastimo à insuficiência dos teus tormentos. É preciso que inventes outros, para provar a minha constância ou convencer-te de vez do poder de Jesus Cristo, que me dá força para sofrer".
Ditas estas palavras, foram ao Santo quebrado os dentes à força de pedras e neste mísero estado levaram-no ao cárcere. No caminho para lá, passando pela praça pública, o santo Mártir convidou aos que o acompanhavam, para que dessem louvores a Jesus Cristo. "É justo, — disse-lhes — que nós ofereçamos a Jesus Cristo os nossos sacrifícios, pois Ele sofreu também por nós".
Cinco dias depois, conduzido outra vez à presença do prefeito, este deu ordem para que lhe fossem abertas de novo todas as feridas. Em seguida os algozes tomaram Teodoto e deitaram-no sobre brasas, misturadas com cacos de vidro. Horrível foi o sofrimento do mártir, mas insuperável a constância de Teodoto. O próprio prefeito, dando-se por vencido, se envergonhou e deu ordem para que terminassem o triste espetáculo. Foi então que um dos soldados cortou a cabeça de Teodoto.
O corpo do Mártir foi colocado sobre uma fogueira. Ninguém, porém, se atreveu a pôr fogo, porque apareceu uma grande luz, que envolveu toda a fogueira. Mais tarde, quando os guardas se entregaram ao sono, o sacerdote Frontão tirou o corpo de Teodoto e sepultou-o cristãmente.
As últimas palavras que Teodoto dirigiu aos circunstantes, foram as seguintes: "Senhor Jesus Cristo, criador do céu e da terra, que não desamparais aos que em vós confiam; graças vos dou, porque me dignastes de me tornar cidadão da cidade celeste e participante do vosso reino. Graças vos rendo, de me terdes dado vencer o dragão. Dai paz aos vossos servos e fazei que eu seja a última vítima do furor dos vossos inimigos. Dai à vossa Igreja a bonança e livrai-a da tirania de Satanás!" Virando para os cristãos que se achavam presentes, disse: "Não choreis, antes louvai a Deus Nosso Senhor Jesus Cristo, que me fez terminar a minha jornada e vencer o inimigo".
Reflexões
Lendo com atenção a história da Igreja, que por entre as perseguições as mais cruéis e imagináveis, atravessou os primeiros três séculos, pode-nos parecer que Deus, tendo todo o interesse de salvar a humanidade, escolheu para isso meios pouco adequados. Os Apóstolos, cumprindo ordem do seu Mestre, foram levando a nova doutrina para outros países e pregaram o Evangelho entre os pagãos. Estes os receberam mal e tudo fizeram para frustrar seu trabalho, e onde o cristianismo conseguira deitar raízes, abriram furiosa campanha contra ele, empregando todos os meios de violência para erradicá-lo. Os planos de Deus são diferentes dos planos dos homens. O que aos homens podia parecer contraproducente, Deus o julgou necessário. Necessárias foram as perseguições, para converter os cristãos da caducidade das coisas terrenas e fazê-los apreciar as coisas do céu. Nas perseguições de toda sorte os cristãos compreenderam, que os bens deste mundo: poder, honras e riqueza, podem muito bem ser a distinção dos maus, devendo os amigos de Jesus se desapegar destas coisas, procurando sua felicidade unicamente na prática do bem, de acordo com as máximas de Jesus. Assim aconteceu que o sangue dos mártires viesse a ser a semente de novos cristãos. Os perseguidores, por sua vez, convenceram-se da improficuidade das suas violências aplicadas contra uma obra evidentemente divina. As perseguições sanguinolentas acabaram; mas em seu lugar vemos as tribulações e cuidados da vida, que no plano de Deus outra coisa não visam, senão extinguir em nós o amor desordenado às coisas deste mundo e conservar a nossa alma no desprendimento dos bens terrenos e dirigi-la aos bens superiores do Céu.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩