02 de julho — Visitação de Nossa Senhora
02 de julho — Visitação de Nossa SenhoraExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Diversos são os fatos que a Igreja comemora, na celebração da festa da Visitação de Nossa Senhora e que, um por um, põem em relevo a grandeza da Beatíssima Virgem: — o de Santa Isabel, por divina revelação, conhecer e proclamar à prima a dignidade de Mãe de Deus; o modo como se deu a saudação, a santificação do Precursor antes do nascimento e terceiro, o canto belíssimo do "Magnificat".
Pela primeira vez apareceu essa festa, na Igreja Católica, no século XIII.
São Boaventura, na qualidade de Superior Geral da Ordem dos Frades Menores, ordenou que a visitação de Nossa Senhora fosse, na Ordem dos Franciscanos, celebrada com toda a solenidade, incumbindo-se ele mesmo da Composição do Ofício próprio.
Urbano VI dispôs em 1389 a celebração da festa da Visitação para toda a Igreja. O terrível cisma, porém, que separava a família de Cristo, impediu a execução do decreto pontifício. O Concílio de Constança, reunido em 1441, ratificou o decreto de Urbano VI e de seu sucessor Bonifácio IX e desde então a festa da Visitação é conhecida e celebrada na Igreja Católica.
Bem aflitivo correu para a Igreja de Deus o século XIV. Comparando esse século com os três primeiros, das grandes perseguições ou com aqueles que trouxeram as lutas contra o arianismo e o protestantismo, tem-se a impressão de que época nenhuma houve, na história eclesiástica, tão crítica como a do cisma ocidental. Humanamente falando, teria chegado a hora da dissolução da Igreja Católica. O perigo não viera de fora: aninhava-se no seio da própria Igreja, achando-se a cristandade dividida em grandes partidos, cada um dos quais escolhera o seu Papa, reconhecendo nele o legítimo sucessor dos Apóstolos. O fato de ter a Igreja atravessado incólume aquela crise perigosíssima, é mais uma prova de que não é dirigida por homens, mas pelo Espírito Santo, de acordo com a promessa de Cristo.
Pelo Concílio de Constança foi introduzida a festa da Visitação, “para que — assim diz o respectivo decreto — a bem-aventurada Virgem Maria, por sua intercessão, nos alcance o perdão do Divino Filho, tão ofendido pelos pecados dos homens e restabeleça a paz e união entre os fiéis”.
A data da festa da Visitação não é o dia da partida ou chegada de Nossa Senhora, mas o da volta à casa. As indicações do Evangelho fornecem os seguintes dados cronológicos: “Maria Santíssima recebeu a saudação do Anjo em 25 de março, quando Isabel se achava no sexto mês de gravidez. Sem demora e pressurosa, foi visitar a prima, em cuja companhia ficou três meses. É provável que tenha chegado à casa de Zacarias já nos primeiros dias de abril. É provável ainda que Maria não tenha ficado só até o dia do nascimento de São João (24 de junho), mas tenha sido testemunha da cerimônia da circuncisão do recém-nascido, tenha presenciado a cena da discussão sobre o nome do menino e que terminou com a declaração do pai, a soltura da língua do mesmo e a entoação do célebre "Benedictus".
Há, porém, pessoas autorizadas, que julgam ter Maria Santíssima voltado a Nazaré antes do nascimento de São João Batista.
Não há convergência de opiniões sobre a questão se Maria Santíssima se fez acompanhar de São José ou não.
São Francisco de Sales deu à Congregação por ele fundada o nome de “Visitação”, achando, certamente, que modelo mais perfeito de virtudes não poderia apresentar às religiosas, do que Maria Santíssima, no mistério da Visitação à prima Isabel.
O mistério da Visitação está em íntima conexão com o da Anunciação, falando-nos ambos da grande dignidade de Maria Santíssima, como Mãe de Deus.
No mistério da Anunciação, Maria é perguntada pelo Anjo se aceita a maternidade divina; Isabel elogia-a por ter dado o consentimento. O Anjo enaltece a santidade de Maria (Ave-Maria, sois cheia de graça); Isabel saúda-a como Mãe de Deus (donde me vem a dita de receber a visita da Mãe de meu Senhor?), dizendo: “Bendita sois entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre”. Na Anunciação se escondem as perfeições divinas; na Visitação, Maria Santíssima as enaltece e glorifica.
Naqueles dias, levantando-se Maria, foi com pressa às montanhas, a uma cidade de Judá" (Lucas 1, 39). Passados em profundo recolhimento os primeiros dias depois da Anunciação, Maria Santíssima, obedecendo a um impulso do Espírito Santo, prontificou-se a visitar a prima. A relação entre Jesus e São João Batista era tão íntima, que foi, sem dúvida, por inspiração do Espírito Santo, que Maria procurou a Mãe do Precursor, para que este fosse santificado ainda antes do nascimento.
Descobrimos e admiramos no procedimento de Maria Santíssima: 1) grande prontidão em cumprir as ordens divinas e corresponder às graças que o Espírito Santo lhe confere; 2) a amizade que a ligava a lsabel. Ambas tão privilegiadas, outro interesse não têm, senão a salvação do mundo e é esse interesse o ímã que lhes atrai os corações; 3) a caridade, de que dá prova. Conhecendo a situação aflitiva da parenta, originada pela velhice da mesma e pela mudez do marido, compreendeu imediatamente que sua presença seria muito desejada pelo santo casal. Assim, Maria Santíssima, tão amiga do recolhimento, para praticar uma obra de caridade, abre uma exceção e, com sacrifício próprio, empreende a longa viagem, mostrando-se pela primeira vez “Mãe do belo amor”.
Se alguns exegetas são de opinião que Hebron tenha sido a cidade onde Zacarias morava, outros dizem que era Juta, cidade próxima de Hebron e exclusivamente habitada por famílias de sacerdotes. Segundo esta interpretação, o texto bíblico seria: "Naqueles dias, levantando-se Maria, foi… à cidade de Juta, 25 léguas distante de Nazaré e 5 ao Sul de Jerusalém".
Maria evita a estrada comum, onde passam as caravanas e muita gente. Caminha pelos atalhos e veredas estreitas, por entre as montanhas.
Vai pressurosa, obediente à lei, que vedava às donzelas viajarem com morosidade.
Que espetáculo encantador nos proporciona a viagem de Maria Santíssima! Maria, desconhecida do mundo, leva no casto seio o Verbo de Deus, o Salvador, a que todas as criaturas devem adoração, a luz que viria iluminar o mundo e trazer o fogo divino aos corações humanos! Que encanto ver a Mãe de Jesus, a Mãe de Deus, levar a bênção, a santificação ao Precursor!
"E entrou em casa de Zacarias e saudou a Isabel". Maria saúda a Isabel, a Mãe de Deus dirige-se à Mãe do Servo, a soberana à inferior. O Evangelho não transmite a saudação. Sem dúvida, foi a expressão dos sentimentos elevados e santos da Mãe de Deus, cujo efeito não tardou: "E aconteceu que, logo que Isabel ouviu a saudação de Maria, lhe deu o menino saltos no ventre, e lsabel ficou cheia do Espírito Santo". Cumpriram-se as palavras que o Anjo dissera a Zacarias: "Desde já o ventre da mãe será cheio do Espírito Santo". Era justo que São João Batista recebesse esta graça, por intermédio da Mãe do Senhor, e grande foi sua alegria, demonstrando-a por um meio tão original e inequívoco. Quem não se lembra (ao ler esse relato) das palavras de Jesus: "O amigo do esposo, que está com ele e o ouve, enche-se de gozo, ao ouvir-lhe a voz. Pois já este meu gozo é cumprido?" (João 3, 29). É por este motivo que a Igreja celebra, com grande solenidade, a festa do nascimento de São João Batista.
"E Isabel bradou em alta voz e disse: Bendita sois entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre". Nenhuma palavra Maria tinha dito a Isabel, a não ser as da saudação, e esta, cheia do Espírito Santo, chama bem-aventurada entre as mulheres àquela, que é o templo vivo do Espírito Santo, o sacrário do divino amor. "Bradou em alta voz". Essa voz foi ouvida em todos os séculos e chegou também até nós, que a imitamos, repetindo-a em cada Ave-Maria que dirigimos ao céu.
Quem não vê em tudo isso a conexão íntima e natural que há, entre a veneração dedicada a Maria, e o culto que se presta a Jesus, ao fruto de suas entranhas? Quem não vê que o culto de Maria e do seu divino Filho vêm do Espírito Santo? É natural, pois, que a Igreja, aproveitando-se das palavras do Anjo e de Santa Isabel, formulasse uma oração, que traz todos os sinais de ser por Deus inspirada.
O Anjo, mandado por Deus, Isabel, cheia do Espírito Santo, a Igreja regida por este, eis os três instrumentos de que se serviu o Espírito Santo, para compor o grandioso uníssono, para enaltecer e glorificar a Mãe de Deus. Com o Evangelho na mão, perguntamos a todos que pretendem se justificar só no Evangelho, abandonando a explicação autêntica da Igreja, se é segundo o espírito do Evangelho negar a Maria Santíssima o que lhe é devido, como Mãe do Salvador. Nós, católicos, veneramos em Maria, não só uma mulher santa, mas a Mãe de Deus, como muito bem frisam as palavras de Isabel: "Donde me vem a dita de ter a visita da Mãe de meu Senhor?!" — Estas palavras respiram respeito à Mãe de Jesus. Superior a Maria em idade, pela posição do marido (que era sacerdote do Senhor), eleita entre mil e honrada por Deus, mãe daquele que entre os profetas é chamado o maior, julga-se feliz em receber a visita da jovem prima, esposa de um pobre carpinteiro! Poucos dias antes essa mesma visita em nada se teria diferenciado de qualquer outra, mas a posição que Maria agora ocupa, depois de ter sido elevada à dignidade de Mãe de Deus, é tão extraordinária, que Isabel a reconhece como uma honra sobremodo grande, como mais tarde, cheio de confusão e humildade, seu filho disse ao filho de Maria Santíssima: "Sou eu quem devia ser batizado por Vós e vindes a mim!"
"Bem-aventurada sois por terdes crido! Pois tudo que vos foi dito da parte do Senhor, se realizará". Que significam estas palavras? Que é que ainda se deverá cumprir, depois da Encarnação do Verbo de Deus? Isabel elogia a prima por causa da sua fé, felicita-a pela posição que, como Mãe de Deus, ocupará na ordem sobrenatural entre as criaturas. O próprio Calvino, explicando essas palavras, diz: "Maria é chamada bem-aventurada, primeiro, por ter aceito com fé a saudação angélica e, segundo, por ter-se oferecido a Deus como instrumento para a realização dos planos divinos". Maria merece, não só a nossa admiração, mas, muito mais — a nossa gratidão e as homenagens do mundo inteiro. A ela devemos o nascimento de Cristo, a ela devemos a vida, a morte e todos os mistérios da vida do nosso Salvador.
Como Jesus dizia aos pobres doentes que se lhe chegavam: "Tem confiança, tua fé te salvou", assim dizemos nós, com Santa Isabel: "Bem-aventurada sois, porque vossa fé nos salvou a nós todos".
Bem-aventurada foi Maria, bem-aventurada a Igreja por Maria; Ela é e foi o símbolo da fé entre os Apóstolos e os primeiros cristãos. Como representante da fé, a vemos no meio dos Apóstolos quando, reunidos em Sião, se preparam para receber o Espírito Santo. Como representante da fé, como a Virgem Poderosa e Rainha dos Apóstolos, é ela venerada e invocada na Igreja primitiva.
Onde a heresia levanta a cabeça, logo se incompatibiliza com Maria Santíssima, e se se dá por vencida, não é devido tanto às argumentações teológicas, senão às orações dirigidas à Mãe de Deus. O culto de Maria é, por assim dizer, o reduto inexpugnável da fé católica, a pedra de toque da nossa religião.
“E Maria disse: “Minha alma engradece o Senhor e meu espírito, cheio de alegria, louva a Deus, meu Salvador”.
Bem diferente do nosso, é o procedimento de Maria Santíssima, a qual, em vez de entoar elogios a si própria, dá toda a honra a Deus. Ela, a Virgem humilde e retraída, torna-se eloquente e canta louvores à grandeza, misericórdia, bondade, justiça e fidelidade de Deus, tendo para si só expressões de humildade. É o cântico sublime do "Magnificat", que a Igreja jubilosa entoa, na recitação quotidiana das Vésperas.
Reflexões
Da visita que Maria Santíssima fez à Santa Isabel, aprendemos a que regras devem obedecer as nossas visitas e as obras de caridade. Não podem ser agradáveis a Deus e úteis a nós, visitas que não têm por mira um interesse superior, como sejam a glória de Deus e o proveito das almas. Distração útil e lícita não deve ser chamada uma visita que nos afasta do nosso dever. Ilícita e prejudicial é a visita feita por motivos de vaidade e que ocasião próxima oferece a conversações contra a caridade e a outros pecados.
Aprendamos de Maria Santíssima a imprimir às nossas visitas o caráter do útil e do agradável, tanto para nós mesmos, como para o nosso próximo, a quem visitamos. Procuremos aliar às nossas visitas um fim caritativo e generoso.
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Em Roma, o martírio de Processo e Martiniano, batizados por São Pedro no cárcere mamertino (o que, aliás, não se pode provar). Como soldados romanos, intimados a prestar homenagem a Júpiter, a que se opuseram, foram açoitados com “escorpiões” e mortos pelo cutelo.
Em Winchester, a memória do bispo São Swithun, glória da Igreja na Inglaterra no século nono.
Em Tours, Santa Monegundes, que, com o consentimento de seu marido, fundou um convento, no qual terminou seus dias. 570.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩