02 de janeiro — São Macário de Alexandria, Eremita
02 de janeiro — São Macário de Alexandria, EremitaExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
O Martirológio Romano menciona, no mês de janeiro, dois Santos de nome Macário. O Santo, cuja memória hoje se celebra, é Macário de Alexandria, o mais moço. De pais pobres, até a idade de trinta anos trabalhou num engenho de açúcar para ganhar o sustento. Depois se retirou para o deserto do Egito, onde teve uma vida de penitência e mortificação durante o espaço de sete anos. No tempo da Quaresma redobrava suas austeridades, tomando alimentos só nos domingos.
Embora grande na virtude, via em si só defeitos e imperfeição, tanto que resolveu a entrar no Mosteiro de São Pacômio, para sob a direção deste grande mestre da vida espiritual aprender a ciência dos Santos.
Admitido entre os monges do Mosteiro de Tabenna, excedeu a todos em penitência e austeridade de vida. Passado algum tempo voltou para sua solidão na serra de Nitria. A fama da sua santidade espalhou-se em toda a região. Chamado pelo Patriarca de Alexandria, para lá se dirigiu e recebeu o Sacramento da Ordem. Por mais que fugisse do contato com o mundo, mais procurado era por pessoas que desejaram colocar-se debaixo de sua direção espiritual. O que mais recomendava a seus discípulos, era a oração e a mortificação, virtudes nas quais lhes servia de extraordinário modelo. A um discípulo que dava demonstração de afrouxamento na oração, disse Macário: “Embora não sintas gosto na oração, prolonga-a e, se outra coisa, não puderes fazer, guarda por amor de Cristo as paredes de tua cela.” Paládio, um dos mais dedicados discípulos de Macário, refere na sua biografia um fato que bem elucida o espírito de mortificação que reinava na família religiosa de Macário. Um dia Macário recebeu um belo cacho de uvas de presente. Sem prová-lo, entregou-o a um dos seus companheiros, o qual por seu turno mandou-o a um terceiro; este terceiro presenteou com a fruta outro discípulo, o qual fê-lo parar de novo nas mãos de Macário. Este exemplo de mortificação agradou sumamente a São Macário, que assim se convenceu do alto grau de virtude que reinava na sua pequena comunidade.
Não só grande asceta, era Macário ainda corajoso defensor da fé. A heresia reinante era o arianismo, que horríveis estragos têm causado no rebanho de Cristo. Pela sua oração e sua palavra convencedora reconduziu muitos hereges ao aprisco do Senhor. Com isto incorreu nas iras dos elementos dirigentes da infame seita. Estes, com sua influência de que gozavam na corte imperial de Valente, conseguiram o desterro de Macário para uma ilha longínqua habitada por um povo selvagem e pagão.
Seu intento de prejudicar a Igreja Católica falhou; pois Macário tornou-se apóstolo daquela ilha e ganhou muitas almas para a religião católica. O ódio ariano não permitiu ao apóstolo de Cristo que desfrutasse o resultado dos seus labores. Expulso também daquela ilha, voltou para sua cela para pouco depois, com 99 anos de idade, entregar sua alma a Deus.
Reflexões
1. São Macário abandonou o mundo trocando-o com a solidão. O motivo que o determinou a dar este passo, foi sem dúvida o desejo de poder servir a Deus mais facilmente e assim salvar sua alma. Ou no mundo, ou na solidão, cada um de nós há de servir a Deus. É este um dever de todos. O serviço de Deus, embora tenha suas dificuldades, não é mais penoso que o serviço do mundo. O mundo é mau e ingrato, e sua recompensa é parca. Deus, porém, é justo e não deixa sem recompensa o serviço que se lhe oferece, por menor que seja. Além disto: “Servir a Deus é grande honra e sobremodo vantajoso” (São Jerônimo).
2. São Macário era constante, na prática de boas obras e, perseverou nos exercícios de penitência. Há homens que pretendem servir a Deus e ao pecado. São como o povo de que a Bíblia diz: “Temendo embora a Deus, não deixam seus ídolos” (4. Reg. 17. 41). Incorrem igualmente na censura com que o profeta Elias verberou os infiéis do seu tempo, que ora dobravam o joelho diante de Deus, ora adoravam a Baal (4. Reg. 21). A palavra de Cristo decide, terminantemente, que não é possível servir-se a dois Senhores, cujas máximas e princípios são contrários como os de Deus e do mundo. O pecado e as leis de Deus são incompatíveis. “Temei ao Senhor, — diz o profeta Samuel — e servi-lhe em verdade e de todo o coração. Atirai para longe os falsos deuses e servi a Ele só” (1. Reg. 12).
Dá teu coração a Deus, para que em ti não se verifique a palavra do profeta Oseias, que diz: “Dividido está seu coração, e por isto há de perecer!” (Oseias 10. 2)
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩