02 de fevereiro — A Purificação de Nossa Senhora

02 de fevereiro — A Purificação de Nossa Senhora
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

A festa que a Igreja hoje celebra, tem os nomes de Purificação de Nossa Senhora, Nossa Senhora das Candeias e Apresentação de Jesus Cristo no templo. É hoje o dia da bênção das velas (candeias) e em muitas igrejas, antes da celebração da Santa Missa, organiza-se solene procissão, em que são levadas as velas acesas, símbolo de Jesus Cristo, que, apresentado a Deus no templo de Jerusalém, pelo santo velho Simeão foi saudado como a luz que veio para iluminar os povos.

A festa tem o nome de Purificação de Nossa Senhora, porque é a comemoração do dia em que Maria Santíssima, em obediência à lei mosaica, se apresentou no templo do Senhor, quarenta dias depois do nascimento de seu divino Filho.

Para melhor compreensão deste ato de Maria Santíssima, sejam lembradas neste lugar duas leis que Deus deu, no antigo testamento. A mulher que tinha dado à luz a uma criança do sexo masculino, ficava privada de entrar no templo quarenta dias depois do parto; se a criança era menina, o tempo da purificação era oitenta dias. Passado este tempo, devia apresentar-se no templo e oferecer um cordeirinho, duas rolas ou dois pombinhos, entregar sua oferta ao sacerdote, para que este rezasse sobre ela. Com esta cerimônia a mulher era aceita outra vez na comunhão dos fiéis, da qual a lei a excluía por um determinado tempo depois de ter dado à luz.

A segunda lei impunha aos pais da tribo de Levi a obrigação de dedicar seu filho primogênito ao serviço de Deus. Crianças que pertenciam a outra tribo, a não ser a de Levi, pagavam resgate.

É admirável a retidão e humildade de Maria Santíssima em sujeitar-se a uma lei humilhante, como foi a da purificação. Sua maternidade em tudo diferente da das outras mulheres, isentava-a mui legalmente das obrigações de uma lei humilhante, como foi a da purificação. Davi enche-se de vergonha, quando se lembra de sua origem: “em pecados minha mãe concebeu-me”. A Maria o Anjo tinha dito: o Espírito Santo virá sobre ti, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. São José recebeu do céu a comunicação consoladora: “o que dela (de Maria) nascerá, é do Espírito Santo”. Virgem antes, durante e depois do parto, seu lugar não era entre as outras filhas hebreias, que no templo se apresentavam para fazer penitência e procurar perdão do pecado.

Maria, porém, prefere obedecer à lei e parecer com a pecha comum a todas. Além disto, sendo de origem nobre, descendente direta de Davi, oferece o sacrifício dos pobres, isto é, dois pombinhos. Que humildade!

Nesta humildade é acompanhada pelo Filho. Ele, que é “Filho do Altíssimo”, autor e Senhor das leis, não admite para si motivos que o isentem das mesmas. Ele que quis ser nosso semelhante em tudo, exceto o pecado, sujeita-se à lei da circuncisão, triste lembrança do grande desastre dos primeiros pais no paraíso, de que resultou o pecado original.

Por ocasião da apresentação de Maria Santíssima no templo, deu-se um fato que merece toda atenção nossa. Vivia em Jerusalém um santo sacerdote chamado Simeão, provecto em idade, que com muito fervor anelava pela vinda do Messias. De Deus tinha recebido a promessa de não sair desta vida sem ter visto, com os seus próprios olhos o Salvador do mundo. Guiado por inspiração divina, viera ao templo no momento em que os pais de Jesus aí entraram, em cumprimento das prescrições legais. Como os Magos conheceram o Salvador, este se fez conhecido por Simeão, o qual o tomou em seus braços e bendisse a Deus dizendo: “Agora, Senhor, deixai partir o vosso servo em paz, conforme vossa palavra. Pois meus olhos viram a vossa salvação, que preparastes diante dos olhos das nações: Luz para aclarar os gentios, e glória de Israel, vosso povo!”

José e Maria ficaram admirados do que se dizia do Menino. Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: “Este Menino veio ao mundo para ruína e ressurreição de muitos em Israel, e para ser um sinal de contradição. Vós mesma tereis a alma varada por uma aguda espada, e assim serão patenteados os pensamentos ocultos no coração de muitos corações”. — Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Já estava muito velha. Viveu 7 anos casada, enviuvou e já estava com oitenta e quatro anos. Não deixava o templo, e servia a Deus dia e noite, jejuando e rezando. Tendo vindo ao templo na mesma ocasião, deixou-se derramar em louvores ao Senhor, e falava do Menino a todos que esperavam a redenção de Israel.

Cumpridas todas as prescrições da lei, José e Maria voltaram para casa.

A Igreja Católica reserva uma bênção especial às mães, que logo que seu estado o permita, se apresentam a Deus com o fruto de suas entranhas. É provável que este uso se tenha introduzido na Igreja em memória e veneração à Mãe de Deus, que, obediente à lei do seu povo, fez sua apresentação no templo. É este um uso louvabilíssimo.

A Deus deve-se louvor e gratidão, depois de um parto bem-sucedido. De Deus vem todo bem para a mãe e para o filho. É justo, pois, que a mãe peça a benção divina. A mãe cristã sabe, que sem a assistência e auxílio de Deus não pode educar os seus filhos na virtude e no temor de Deus. Reconhecendo esta sua insuficiência, faz a Deus oferecimento de seu filho, prometendo ao Senhor de ver nele sua propriedade, o penhor de seu amor, e fazer tudo que estiver ao seu alcance para educá-lo para o céu. Oxalá todas as mães se lembrem deste seu dever e não eduquem seus filhos para o serviço do mundo, de Satanás e da carne!

Reflexões

A festa presente, qual ramalhete de flores, apresenta-nos virtudes em grande quantidade, cada qual mais bela e encantadora:

1. Maria Santíssima, a Mãe de Deus, embora isenta da lei do templo, faz empenho em cumpri-la perfeitamente. — Sê sempre obediente à lei de Deus e da Igreja; pois nenhum título pode alegar que te dispense da tua obrigação.

2. A lei da purificação obrigava as mães hebreias a apresentar-se no templo, para se livrar do pecado que lhes ineria; Maria, a Virgem Mãe puríssima, humilha-se, sujeitando-se a uma determinação levítica, que não a afetava.
— Imita o exemplo de Maria Santíssima, velando sempre pela pureza de tua consciência. Sabes que nada de impuro no céu poderá entrar, e ignoras por completo o último dia que Deus te concederá para purificar tua alma.

3. Maria Santíssima, a bendita entre as mulheres, não se exalta, embora Deus a tivesse exaltado. Como as outras mulheres, ela aparece no templo, não permitindo que seja tratada diferentemente. Não te exaltes sobre o teu próximo. Não desprezes a ninguém e não te faças melhor do que na realidade és.

4. Maria faz a Deus a oferta do que lhe é mais caro — seu divino Filho. — Dá a Deus tudo o que tens: teu corpo e tua alma, tua vida toda. Na Santa Missa, imitando a Virgem Santa, oferece-lhe o mesmo que ela ofereceu no templo: Jesus Cristo, o Filho de Deus.

5. Maria Santíssima deposita seu Filho nos braços do velho sacerdote, São Simeão, o qual o recebe com grande júbilo de sua alma, dizendo-se pronto para morrer em paz, depois de ter visto o cumprimento das promessas do Antigo Testamento. — Na Santa Comunhão recebes o mesmo Jesus, que Maria Santíssima pôs nos braços de Simeão. Poria-a ela em tua alma com o mesmo prazer com que o entregou ao venerável sacerdote? Para comungar bem, para que a Comunhão seja um prazer para Deus e de utilidade para tua alma, é preciso que esta esteja livre do pecado mortal e se desapegue de todo o mal.
Coisa terrível é a comunhão sacrílega. Comungar sacrilegamente é uma injúria maior feita a Nosso Senhor do que atirar a Hóstia Sagrada ao monturo ou aos cães. De São Boaventura são as seguintes palavras sobre semelhante crime: “Tu, pecador, impuro, invejoso e avarento, és mais imundo, mais repugnante e desprezível que um cão”.
Sendo teu pecado rubro como escarlate, numeroso como os grãos de areia do mar, procura as águas purificadoras da penitência, e não te atreves nunca a receber indignamente a Santa Comunhão. “Quem come este pão indignamente e bebe o cálice do Senhor, será réu do corpo e sangue do Senhor. Quem come e bebe indignamente, come e bebe a sua condenação” (I Coríntios 11, 27).

6. Renova hoje teu amor e tua devoção à Maria Santíssima. Repara, porém, uma coisa: A devoção à Santíssima Virgem requer antes de tudo a imitação das virtudes da Mãe de Deus. Pouco ou nada adianta recitar orações em honra de Maria Santíssima, pertencer a associações marianas, trazer sua medalha e celebrar suas festas, quando no coração reina o espírito do mundo, da vaidade, do orgulho, da impureza. O verdadeiro devoto de Maria Santíssima ama o que ela ama: Deus e a virtude; odeia o que ela odeia: o pecado e tudo que a ele conduz.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312
02 de fevereiro — A Purificação de Nossa Senhora — Padre João Batista Lehmann