02 de agosto — Santo Afonso Maria de Ligório, Bispo, Confessor e Doutor da Igreja
02 de agosto — Santo Afonso Maria de Ligório, Bispo, Confessor e Doutor da IgrejaExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Marianella, colocada nos arrabaldes poéticos de Nápoles, chamava-se a vila da histórica família de Ligório. Foi lá que pela manhã de 27 de setembro de 1696 nascia Afonso. Sobre o seu berço já cintilavam os esplendores de uma nobre linhagem e do renome paterno.
D. José, o pai do santo, pertencia à nobreza, tendo nome e escudo de fidalgo. Era preposto do rei Carlos VI, comandante dos navios reais. Mas sobretudo era homem profundamente crente. Desposou a D. Anna Cavalieri, não menos religiosa nem menos nobre que ele. Era D. Anna irmã do bispo de Troia e pertencia à nobre família dos Cavalieri.
Até a palavra profética de um santo — São Francisco de Jerônimo — veio pôr em fulgores o berço de nosso santo. “Esta criança — disse Jerônimo, tomando o menino que lhe apresentavam os pais — esta criança não morrerá antes de 90 anos; será bispo e realizará maravilhas na Igreja de Deus”.
Do pai recebera Afonso uma vontade férrea, uma inteligência viva e perspicaz, enquanto a influência materna lhe punha no coração uma ternura irresistível. E cedo começou sua carreira de santo e de sábio. Mocinho ainda já frequentava as associações religiosas, fugia dos companheiros briguentos e amigos de palavras pesadas. Naturalmente não eram pequenas as esperanças que sobre ele nutria D. José de Ligório. Com efeito, o destinou aos estudos das artes liberais, das ciências exatas, das disciplinas jurídicas.
Foram rápidos os progressos de Afonso na jurisprudência. Com 16 anos e poucos meses doutorou em ambos os direitos. Com espanto geral começou a colher louros e triunfos no foro. Imagine-se quantos planos e quantos castelos de grandeza fazia sobre o filho o envaidecido pai!
Mas no coração de Afonso já havia a graça divina aberto profundos sulcos e inspirado outras rotas de grandeza. Era ele fervoroso sócio da Congregação dos Jovens Fidalgos e Doutores. O sacrário o atraía como um ímã. A Maria Santíssima entregara o santo a guarda do lírio de sua pureza. Todos os anos fazia os exercícios espirituais.
Entretanto D. José já andava à procura de uma noiva para o filho. Achou-a na pessoa de Tereza, uma sua sobrinha, filha do príncipe de Presicce. Aconteceu, porém, que esta sobrinha, em lhe nascendo um irmãozinho, já não ia ficar a única herdeira dos bens paternos. E isso fez esfriar os entusiasmos de D. José. Tereza compreendeu o jogo e, ao ser novamente procurada pelo tio por ocasião da morte do recém-nascido irmãozinho, desiludiu-o e foi tomar o véu no convento das Sacramentinas.
Afonso, por sua vez, sempre se mostrara esquivo a tais projetos do pai. Além da piedade, da ciência, cultivava também a música. Ia às Óperas, mas fechava-se no galarim para nada ver e apenas ouvir a música dos célebres maestros.
A Providência tinha outras intenções com Afonso e ia intervir no desenrolar das coisas. Em 1723 o Duque de Orsini entregava a Afonso uma causa de suma importância. Tratava-se nada menos de um feudo no valor de 600.000 ducados. Meticulosamente nosso advogado estudou o processo, reviu os autos, conferiu documentos. Fez uma brilhantíssima defesa no foro. A vitória parecia mais que garantida, quando o contra-atacante lhe chamou a atenção para uma pequena negação que lhe passara despercebida. “Enganei-me”, — exclamou o santo. Coberto de vexame, retirou-se do foro, exclamando: “Ó mundo falaz, agora eu te conheço! Adeus tribunais!” Chegando em casa, fechou-se Afonso no quarto por muitos dias, entregue à meditação e à tristeza.
Estavam cortadas as amarras e o navio ia singrar por mares novos e menos procelosos. Nosso advogado começou com uma vida entregue às obras de caridade, à oração. Foi quando trabalhava no hospital dos Incuráveis que ouviu por duas vezes o chamado misterioso: “Afonso, deixa o mundo!” Em 23 de outubro de 1723 vestia o talar do clérigo. Em 21 de dezembro de 1726 foi ordenado sacerdote. Tudo isso, porém, lhe custou renhidas lutas com o pai, o qual não podia se conformar com a escolha feita pelo filho. Mais tarde, ainda com pavor, Afonso recordava dessas horas de combate. Agora foi rápida a carreira de Afonso. Do altar foi para o púlpito, tornando-se popular como pregador e estimado como verdadeiro apóstolo. Procurava de preferência os pobres Lazzaroni e a meninada abandonada pelas ruas de Nápoles. Muito se mortificava D. José, em vendo o filho metido no meio do povinho, desprezível a seus olhos de fidalgo. Nosso santo não se esmorecia contudo. Passou a morar no Hospício dos Padres Chineses e pensou seriamente em ir para as missões pagãs.
Mas o homem se agita e Deus o conduz. Adoentado, foi Afonso enviado a Scala para repousar. Aconteceu que lá havia um convento de Irmãs e entre estas destacava-se por sua virtude a Irmã Maria Celeste Crostarosa. Em 3 de outubro de 1731 revelava-lhe a Irmã a visão que tivera: Afonso estava designado por Deus para fundar uma nova Congregação. Começou então o duelo entre Deus e a humildade do santo. A luta foi um verdadeiro martírio para Afonso. A santa irmã chegou mesmo a intimá-lo: “D. Afonso, Deus não o quer em Nápoles; chama-o para fundar um novo Instituto”.
Resolvido a isso, depois de se haver orientado com Tomás Falcoia, seu confessor e mais tarde bispo, teve o santo de enfrentar tremenda oposição do pai. Este recriminava ao filho dureza de coração por querer abandoná-lo para meter-se na aventura de fundar um novo Instituto.
Mas a graça venceu, e em 9 de novembro de 1732 fundava Afonso, em Scala, a Congregação dos Padres Redentoristas, que no começo tinha o nome de Instituto do Santíssimo Salvador. Seus primeiros companheiros eram todos sacerdotes, e logo começaram a dedicar-se à pregação. Não tardou a aparecer desunião nas ideias. Queriam uns que o Instituto, além da pregação, se dedicasse também ao ensino. Afonso bateu-se pela exclusividade da pregação aos pobres, às regiões de gente abandonada, na forma de missões e retiros. Venceu seu ponto de vista. Em 1749 o Papa Bento XIV aprovava as Regras do Instituto, que tinha por fim a imitação de Jesus Cristo e a pregação de missões e retiros à classe mais abandonada, de preferência.
À frente de seus súditos percorreu Afonso cidades e vilas do sul da Itália, convertendo pecadores, reformando costumes, santificando as famílias. Era um facho ardente que deixava em chamas de amor divino os lugares por onde passava. Mais do que sua palavra, pregavam os seus exemplos de virtude, de penitência, de caridade e de santa inocência. As cidades disputavam Afonso como pregador. Um dia soube Afonso que o queriam nomear arcebispo de Palermo. Pediu orações para que se evitasse “o grande escândalo” de sua nomeação. (Os Redentoristas se obrigam a renunciar à toda dignidade eclesiástica). Mas em 1762 o Papa Clemente XIII impunha-lhe a mitra de Santa Ágata dos Godos. “Vontade do Papa é vontade de Deus”, disse o santo, e curvou a fronte.
Durante 13 anos pastoreou sua diocese, reformou-lhe o clero, os costumes, as igrejas. Outra tornou-se a vida religiosa nos mosteiros e conventos. E os diocesanos pasmaram, viram que tinham um santo por bispo, quando veio a fome assolar a diocese. Afonso vendeu até as alfaias, os móveis de seu pobre palácio, seu anel de bispo, para acudir aos necessitados.
Em 1775, a pedido seu, livrou-o do bispado o Papa Pio VI. O santo patriarca voltou pobre para seu convento e ali a mão de Deus o experimentou e lhe burilou lindas facetas de virtude. Afonso, acabrunhado por sofrimentos físicos, teve o desgosto de ver a cisão no seu Instituto e, por mal-entendidos, foi até excluído da Congregação que fundara. Com heroica paciência a tudo se sujeitou nosso santo. Velho e doente, animava a Clemente XIV para resistir aos que queriam suprimir a Companhia de Jesus. E numa prodigiosa bilocação foi assistir o referido Papa na hora de sua agonia.
Finalmente, após longo martírio no corpo e na alma, roído por dores e securas espirituais, morria calmamente no Senhor em 1 de agosto de 1787, na idade de 90 anos. Em 1816 foi declarado beato, sendo canonizado em 1839 por Gregório XVI, honra que Pio VIII lhe quisera prestar já em 1830, não o podendo, por causa da revolução.
Afonso foi um escritor incansável. Deixou para os sacerdotes a sua célebre Teologia Moral; para os religiosos, a Verdadeira Esposa de Cristo; para o povo cristão, livros cheios de verdadeira e ungida piedade, tais como as Meditações sobre a Paixão do Salvador, Glórias de Maria, Visitas ao Santíssimo Sacramento, Tratado sobre a Oração. Foi historiador, apologeta, foi pregador, foi poeta e foi musicista. De tudo deixou valiosas lembranças ao povo cristão. Chegam a 90 suas obras publicadas e a 1913 os manuscritos que deixou. Por isso deu-lhe a Igreja em 1871 o título de Doutor zelosíssimo. As obras de Afonso têm a perenidade das fontes e das árvores seculares. Foram traduzidas em mais de 64 línguas os livros: “Visitas ao Santíssimo Sacramento” e “Glórias de Maria Santíssima”.
Reflexões
Afonso fez o voto de não perder uma parcela de tempo. Só assim se explica o muito que trabalhou, que rezou e que escreveu. E tantos são os cristãos que perdem o tempo em pecados, em deveres mal cumpridos, em devoções praticadas só por motivos humanos!
Afonso santificou-se com a devoção à Santa Infância, à Paixão de Jesus Cristo, ao Santíssimo Sacramento, e à Mãe de Deus. É com empenho e carinho de santo que as recomenda a todos os fiéis. É o verdadeiro santo de Nossa Senhora e do Santíssimo Sacramento. — Não pense o leitor que em outras devoções, que não estas, encontrará a força e a graça para salvar sua alma e santificar-se.
Afonso foi sobretudo o homem da oração. Na sua frase, perde-se quem não reza e salva-se quem não cessa de rezar.
Cuide-se o leitor, portanto, de fazer pouco da oração ou de reduzi-la ao mínimo possível na sua vida. Do contrário corre sério risco de perder sua alma e sua glória.
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Em Roma, vítima da perseguição valeriana o Papa Santo Estêvão.
Na Bitínia, no tempo da perseguição diocleciana, o martírio de Santa Teodota com seus três filhos. Todos sofreram a morte pelo fogo.
Na Tunísia São Rutílio, que depois de diversas tentativas de fugir dos seus perseguidores, sofreu o martírio pela fogueira. 211.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩