02 de agosto — Indulgência da Porciúncula

02 de agosto — Indulgência da Porciúncula
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

O dia 2 de agosto é festejado em todas as Igrejas das três Ordens Franciscanas e grande número de fiéis católicos toma parte ativa nessa solenidade. É a festa de Porciúncula, festa singularíssima, como já o nome parece indicar.

As festas eclesiásticas geralmente nos apresentam um ou outro mistério da vida de Cristo, de sua Santíssima Mãe, ou a memória de um Santo. Se é que em tais festas há possibilidade de ganhar uma indulgência, esta é de ordem secundária, como que um presente espiritual da festa, que está em plano de destaque. Não assim a festa de Porciúncula; nela a indulgência é a coisa principal.

Porciúncula não é nome de uma Santa, nem de um mistério da Santa Religião, mas assim é chamada uma igrejinha, nas proximidades de Assis, na Itália. A igrejinha de Porciúncula adquiriu fama mundial, devido a São Francisco de Assis e pela indulgência extraordinária, que aquele Santo obteve para esse santuário.

A história da igrejinha de Porciúncula e da respectiva indulgência é a seguinte: De todas as igrejas de Assis, São Francisco gostava mais da capelinha de Santa Maria dos Anjos, mais conhecida pelo nome de Porciúncula. Ameaçando ruir, São Francisco renovou-a e considerou-a a primeira igreja da Ordem que fundara. Em setembro de 1221, teve naquela igreja uma visão. Parecia-lhe ver Nosso Senhor Jesus Cristo, sua bendita Mãe e muitos Anjos, animando-o a pedir uma graça, pela salvação das almas. São Francisco, confiante na intercessão valiosa de Maria, disse então: “Eu, pobre pecador, peço a vossa divina majestade, a graça, em benefício do povo cristão, de que a todos aqueles que vierem visitar esta igreja e aqui receberam os Santos Sacramentos, seja concedida uma indulgência plenária”. Vendo que Nosso Senhor se conservava calado e reconhecendo nesse silêncio um gesto negativo, dirigiu-se a Maria Santíssima. Foi-lhe então concedida a graça solicitada, com a condição, porém, de apresentar-se ao Papa Honório III e em nome de Cristo requerer a indulgência. Logo no dia seguinte, acompanhado de Frei Masseo, São Francisco foi a Perúgia, onde se achava o Santo Padre. A este São Francisco apresentou o pedido. Honório, não obstante ser grande admirador do pobre de Assis, achou bastante esquisita a petição do mesmo, tanto que, ouvindo a opinião contrária de alguns Cardeais presentes, se declarou em desfavor. Conceder uma indulgência plenária, dado o antigo regime penitenciário da Igreja, era coisa extraordinária. Deus, porém, moveu o coração do seu representante na terra, o qual, vencendo as primeiras dúvidas, concedeu a Francisco o que pedira, com a condição da confissão contrita dos pecados e da visita à igreja de Porciúncula. Essa graça era, além disso, restrita a um dia do ano. Em outra visão, foi a São Francisco por Cristo revelado o dia da grande indulgência, que havia de ser 2 de agosto. Dizem os Anais dos Frades Menores que, nessa ocasião, São Francisco recebeu de Jesus Cristo três rosas brancas e três encarnadas, de extraordinária beleza, como prova da autenticidade do que se havia dado com ele, em misteriosa visão. Como fosse inverno, rosas não havia naquela estação. Levando consigo três Irmãos, São Francisco foi a Roma e relatou ao Papa o que em visão lhe fora dito. A prova das rosas tão profundamente impressionou ao Papa e aos Cardeais, que imediatamente foi aceita a proposta de Francisco. Sete Bispos tiveram ordem do Papa para no dia 2 de agosto proclamar solenemente a indulgência plenária na igreja de Porciúncula. Assim aconteceu no ano de 1293.

Desde aquela data até hoje, a igreja de Porciúncula, no dia 2 de agosto, tem sido visitada por grande número de fiéis, que lá vão ganhar a grande indulgência.

Sobre a pequena Igreja primitiva, em que mal cabiam 100 pessoas, fecham-se as imponentes arcadas da cúpula de uma grande basílica, cujas dimensões colossais pequenas são para, no dia 2 de agosto, comportar as levas intérminas de piedosos romeiros.

É essa a origem da célebre indulgência de Porciúncula, que sem grande temeridade não pode ser contestada, como declarou o Papa Bento XIV.

O privilégio da grande indulgência, durante duzentos anos, era exclusivo da igreja de Porciúncula. O Papa Sisto VI estendeu-o, em 1480, a todas as igrejas de religiosos Franciscanos sujeitos à clausura. O mesmo privilégio foi em seguida dado a todas as igrejas dos Franciscanos da 1ª e 3ª Ordem. O Papa Gregório XV, em 1622, generalizou o privilégio da Porciúncula a todas as igrejas das Três Ordens Franciscanas no mundo inteiro. O Santo Padre Pio X concedeu a indulgência da Porciúncula a todas as Igrejas matrizes, às capelas ou oratórios semi-públicos das Ordens e Comunidades religiosas. (Motu proprio de 9-6-1910 e Decr. G. S. O. 26-5-1911).

A indulgência da Porciúncula é aplicável às almas do Purgatório. (Breve de Inocêncio XI, 22-1-1689).

As condições sob as quais a Igreja concede a indulgência da Porciúncula, são as seguintes:

1ª — A confissão contrita. Só o estado da graça santificante habilita o cristão para ganhar uma indulgência. Quem se acha em estado de pecado mortal nenhuma indulgência ganhará. Para remover o obstáculo do pecado, é indispensável a confissão. O próprio pecado venial ou o apego a este impede o aproveitamento da indulgência plenária. O pecado venial, cometido proposital e deliberadamente, está em oposição ao perdão completo dos castigos ou penas temporais. Daí se segue que a confissão é necessária às pessoas, cuja consciência acusa somente pecados veniais, pessoas, portanto, que se acham na graça santificante. A confissão deve ser feita no próprio dia da indulgência ou alguns dias antes. Pessoas que costumam confessar-se semanalmente, não precisam fazer uma confissão extraordinária, para participar do privilégio.

2ª — Essa indulgência pode-se lucrar toties quoties, isto é, tantas vezes quantas uma pessoa visitar qualquer igreja ou capela das acima designadas e aí recitar preces segundo as intenções do Sumo Pontífice.

3ª — Estas preces podem ser 5 Padre-Nossos e 5 Ave-Marias ou outras equivalentes.

4ª — As pessoas pertencentes às Comunidades religiosas, que vivem em comum, poderão, para lucrar a mesma indulgência, visitar a igreja própria ou, em sua falta, o oratório doméstico, em que se conserve o Santíssimo Sacramento da Eucaristia.

5ª — É desejo do Santo Padre que em todas as matrizes e igrejas de Comunidades religiosas de ambos os sexos, no dia 2 de agosto, as ladainhas de todos os Santos, recitadas ou cantadas, sejam precedidas da invocação do seráfico patriarca São Francisco de Assis: Sancte Francisce - Ora pro nobis e feitas orações pelo Sumo Pontífice, pelos Ministros do Santuário e por toda a Igreja militante.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii