01 de dezembro — Santo Elígio, Bispo († 659)
01 de dezembro — Santo Elígio, Bispo († 659)Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
De princípio artista exímio e depois Santo Bispo, Elígio nasceu em Chaptelat, na França, cerca de 589. Dotado de talento mais que vulgar, Elígio entregou-se ao estudo das ciências, e mais tarde aprendeu a arte de ourivesaria, na qual adquiriu tanta habilidade, que foi contado entre os primeiros artistas do seu tempo.
Uma profunda piedade era-lhe fiel companheira no delicado labor, e muito concorreu para divulgar a celebridade do artista. Embora se visse sobrecarregado de trabalho, não deixava de assistir à Missa todos os dias. O domingo pertencia unicamente a Deus e às práticas de piedade. Elígio era inimigo declarado do jogo e dos divertimentos profanos. As economias que fazia, pertenciam aos pobres. Pela grande piedade, a conduta modelar, a extrema pontualidade no cumprimento dos deveres, mereceu a alcunha de "frade". A fama da virtude e habilidade artística do Santo era conhecida na corte de Paris. Clotário II confiou-lhe a confecção de uma poltrona de ouro, cravejada de pedras preciosas; do tesoureiro real recebeu Elígio o respectivo metal e as gemas. Elígio fez, não uma, mas duas poltronas, sem reter para si coisa alguma. Esta honestidade tanto encantou ao Rei, que desejou reter o artista em sua companhia. Elígio transladou a residência para Paris, onde gozou da maior confiança do Monarca. As distinções de que era alvo, em nada lhe modificaram o modo de pensar e de agir. Vivendo completamente afastado das festas e diversões do paço, a ocupação única de Elígio, fora do trabalho, era a meditação, a oração, as práticas de penitência. Ao corpo não só não dava o necessário repouso, como também o castigava com duras disciplinas. Tinha indumentária de penitente, áspera e pobre. O que ganhava do trabalho das mãos, era dado aos pobres ou a obras pias. Os pobres eram hóspedes constantes em sua casa e à mesa os servia. Aos presos dedicava uma caridade especial e tudo fazia para obter-lhes libertação. Quando sabia da existência de escravos, era certo que os comprava, às vezes às centenas, para depois lhes dar liberdade.
Dagoberto, sucessor de Clotário e, como este, grande admirador de Elígio, deu-lhe um sítio no campo e um belo prédio na cidade de Paris. O sítio foi transformado em um convento para homens, e a casa na cidade foi destinada a mosteiro de religiosas. Além disto, construiu em Paris uma igreja dedicada a São Paulo, que ainda existe.
Quando o Rei, em certa ocasião, quis exigir-lhe o juramento de fidelidade e obediência, Elígio negou-lhe e disse ao Monarca: "Deus me proíbe jurar sem haver necessidade para isto; mas ordena-me que obedeça a Vossa Majestade. É quanto basta, para assegurar a Vossa Majestade a minha fidelidade." A vida de Elígio nas imediações do Rei continuou a ser a mesma de sempre: retraída e concentrada.
Deus o destinara para coisas maiores. Quando morreu o bispo de Dornick, clero e povo pediram ao Rei que lhes desse Elígio por bispo. Dagoberto consentiu, mas Elígio se opôs. As insistências, entretanto, eram tais, que a vontade de Deus parecia bem clara, e Elígio recebeu a sagração episcopal em Rouen.
O Bispo Elígio era a mesma pessoa humilde e penitente que o ourives de outrora. Contrário a todo o luxo, vivia na pobreza, partilhando com os necessitados teto e mesa. A todas as igrejas da diocese visitava e, por onde passava, abolia abusos inveterados. A maior parte de Flandres estava entregue à idolatria. O Santo fez os maiores esforços para converter as regiões de Antuérpia, Gand e Kortryk, chegando a pôr em risco a própria vida. A bondade, paciência e caridade do Prelado, porém, abrandaram a ferocidade dos indígenas, e o resultado foi que as conversões se declararam às centenas. O país inteiro parecia transformado completamente. Em certa ocasião o santo bispo pregou energicamente contra o abuso das danças. Alguns malvados, para contrariá-lo e para demonstrar desprezo pelo que dissera, organizaram um sarau. Elígio insistiu e, com todo o peso da autoridade episcopal, exortou-os a que desistissem da dança. Suas palavras foram recebidas com gracejos irreverentes, que pouco a pouco foram se transformando em vaia. O Bispo, então, tomado de santa indignação, pediu a Deus que castigasse os impenitentes no corpo, sem que a alma lhes sofresse gravemente. E eis, no mesmo momento, caíram cinquenta como fulminados por um raio e ficaram num estado de paralisia pelo espaço de um ano, até que, pela intercessão de Elígio, foram curados do terrível mal.
O raio de ação apostólica estendeu-se-lhe pela Brabância, onde numerosos pagãos se converteram ao cristianismo.
É com muita razão, pois, que Elígio é chamado o Apóstolo de Flandres e da Brabância. Para a conversão dos pagãos concorreram extraordinariamente os milagres, que o santo Bispo fazia.
Santo Elígio alcançou a idade de 70 anos e morreu na paz do Senhor em 1º de dezembro de 659.
REFLEXÕES
Clotário e Dagoberto, e como estes, muitos outros, se edificaram com a lealdade de Santo Elígio. No entanto, Elígio não fizera nada mais que o dever. Delicadeza de consciência como a de Santo Elígio, é coisa raríssima hoje, entre os próprios católicos. O operário, a operária julgam-se no seu direito, quando retêm alguma coisa do que lhes é confiado. Quem encontra um objeto perdido e de valor, pensa que pode exigir uma recompensa pela entrega do mesmo objeto. Guardar indevidamente coisas alheias, é pecado. O empregado, a empregada que diariamente lesa em coisas pequenas os patrões, comete o pecado de furto, e pela lei divina e natural são obrigados à restituição. É nossa convicção que muitos, pelos furtos que cometem, provocam a justiça divina contra si, nesta e na outra vida. "Os ladrões não possuirão o reino de Deus", diz o Apóstolo (I Coríntios 6, 10).
Do castigo tremendo que os dançarinos receberam, os amigos da dança deduzam se seu divertimento predileto é tão inocente como pensam. E então as danças de hoje, de que algumas são uma pura vergonha! Mais não diremos sobre este assunto.
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Na Palestina, a memória do profeta Nahum, o sétimo dos profetas menores.
Em Roma, os santos mártires Diodoro e Mariano, diácono este, sacerdote aquele; na perseguição de Numeriano. 283.
Em Constantinopla, a memória de Santa Natália, esposa do mártir Adriano, que morreu na perseguição diocleciana.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩