01 de abril — São Valério, Abade e Confessor
01 de abril — São Valério, Abade e ConfessorExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Valério, santo abade e célebre pelos numerosos milagres, que Deus fez por sua intercessão, nasceu em Auvergne, na França. Seus pais eram piedosos, mas paupérrimos. Antes de aprender a ler e escrever, Valério trabalhava no campo. Para saciar seu desejo imenso de estudar, pediu ao mestre-escola que lhe escrevesse numa lousa o alfabeto e lho explicasse. Como tivesse muito tempo, por própria iniciativa começou a ler e escrever, e em poucas semanas fazia sua leitura já bem regular. Assim Valério passou, mui santamente, sua mocidade, quando um dia resolveu procurar um sacerdote, seu parente, que morava num convento, distante poucas léguas. A vida regular tanto lhe agradou, que manifestou ficar lá. Seu parente sacerdote opôs-se a esta ideia. Valério, porém, tanto insistiu que, afinal, o abade o aceitou e deu-lhe diversos empregos no mosteiro, entre esses, o de ajudar à Missa.
O jovem, satisfeitíssimo com esta nova colocação, cumpria suas obrigações com a máxima pontualidade e perfeição, de modo que o abade, com unânime consentimento, recebeu-o na comunidade. Como religioso, continuou a dar a todos o exemplo mais perfeito. Depois de alguns anos, foi transferido para um outro convento, que se achava debaixo da direção de São Columbano. A obediência ordenou a Valério zelar a horta, incumbência à qual se dedicou com todo amor. Era por todos notado que não apareciam mais as pragas de lagartas e de outros insetos nocivos, que ano por ano estragavam as plantações, e que ainda visitavam as hortas dos vizinhos. Columbano atribuiu isto à santidade de Valério; Valério, por sua vez, viu neste fato uma recompensa dos grandes merecimentos de Columbano.
Notando que os religiosos começavam a tratá-lo com demasiada deferência, pediu ao abade licença para se estabelecer em outra parte. Com consentimento de Columbano, dirigiu-se ao rei Clotário, de quem obteve um grande terreno, próprio para nele construir um novo convento. O monarca, além de fazer a doação do terreno, favoreceu-o com outros auxílios, que permitiram a Valério a construção de uma Igreja e várias celas para religiosos. De todas as partes do país, afluíram moços e velhos, desejosos de se dedicar à vida religiosa sob a direção do santo homem. Embora não fosse muito de seu agrado, aceitou o cargo de superior. Com seu auxiliar Valdolem, percorreu o país de norte a sul, de oeste a leste, pregando o Evangelho aos idólatras, que ainda existiam em grande número. Sua pregação e mais ainda os milagres que fazia em nome de Deus, chamaram os gentios a milhares para receber a cruz de Cristo. Um paralítico recuperou o uso dos membros, tendo-lhe Valério imposto as mãos. Muitos outros doentes, desenganados completamente, foram curados pela oração do missionário. Além disto, Deus lhe descobria o estado das consciências e lhe desvendava o futuro.
Todas estas graças e privilégios confirmaram-no ainda mais no seu zelo e nas suas práticas de penitência e oração. Rigoroso contra si, era benévolo, amável e condescendente para com o próximo. Dia não passava sem que, de um ou outro modo, não tivesse socorrido um necessitado, ou imposto a si uma penitência mais ou menos austera.
Com o máximo cuidado, guardava a santa pureza e não tolerava que em sua presença se dissesse uma palavra contra esta virtude. Estando uma vez em viagem, precisou se abrigar na casa de um particular, pois o frio estava intensíssimo. Começou o dono da casa, com um vizinho, a entabular uma conversa obscena. Valério indignou-se com o que ouvira e disse aos dois homens: "Não sabeis que Deus, um dia, pedirá rigorosas contas das palavras inúteis?" Os dois homens, assim apostrofados, nenhuma importância ligando, continuaram a indigna conversa. Valério disse-lhes então: "Eu entrei nesta casa para me aquentar um pouco. Prefiro, porém, expor-me novamente ao frio, a ouvir vossa conversa indecorosa. Eu bem vos avisei. O resto vereis". Mal tinha ele se retirado, quando os dois indivíduos começaram a sentir o castigo de Deus: o dono da casa ficou cego repentinamente, o outro foi acometido de fortíssima dor, que o deixou sem vida.
Admirável era a influência que o Santo exercia sobre a natureza. Passando pela floresta, vinham as aves, com encantadora intimidade, pousarem nas suas mãos, nos ombros e na cabeça, mostrando um especial prazer, quando Valério as acariciava e lhes falava.
Valério morreu em 619, cheio de santidade e de merecimentos. A milhares de pagãos ele abrira o céu e a muitos religiosos, leigos e sacerdotes consolidou na fé e santidade.
Reflexões
1. São Valério castigava rigorosamente aqueles que tinham conversas indecentes, ou fugia da presença dos mesmos, se não lhe era possível impor-lhes silêncio. Nunca tua língua se preste a conversas desse gênero, e foge das pessoas que ofendem a pureza do coração com palavras. Tanto peca aquele que diz coisas indecorosas, como aquele que, com prazer, as escuta. "A boca do homem, que fala palavras impuras, é semelhante a um túmulo aberto, que abriga cadáveres em decomposição; o mau cheiro espalha doença e morte" (São Teodoreto). Orígenes chamava conversas impuras, sementes do demônio, que produzem toda a sorte de pecados e vícios. "Não sabeis, meus senhores, perguntava São Valério, que Deus um dia pedirá rigorosas contas das palavras inúteis?" Se Deus pede contas de toda palavra que se fala, quanto mais rigoroso será o juízo das conversas indecorosas, que tanto mal produzem na alma dos que as praticam, como daqueles que as ouvem. A eles deve, em todo o rigor, ser aplicada a palavra de Jesus Cristo: "Ai de vós, que agora rides, porque haveis de gemer e chorar" (Lucas 6, 25).
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩